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Mostrando postagens de dezembro, 2008

DOIDera

Tem alma reclusa, dessas que se basta ao sentar e ler um livro em vez de sair, tomar cerveja no calorão da cidade. Os amigos não entendem e por não compreenderem pararam os convites para as noitadas. Só de ano em ano, aniversário, confraternização de natal é que se lembram de convidar-lhe. Cinema no mais das vezes vai sozinha que a companhia não é companhia para as horas que ela pode e também porque não é mais riso pra ninguém. A turma, a outra, é bem mais animada. Há dias em que pensa que é melhor usar uma capa de invisível e passar pela vida sem ser vista. Mas, é teimosa e insiste em viver. Viver de teimosia é seu lema há um tempão, desde aquele dia longínquo quando se deu conta de que era só, mesmo que vivesse arrodeada de gente. Já tentou, bem que tentou se livrar dessa sensação, mas não conseguiu. Festa de casamento, nascimento de filho, enterros, formatura, tudo que junta gente só lhe faz aumentar a dor de se saber só. Quando adoece, adoece por inteiro, começando na cabeça...

EsPElhO EspeLHo meU

A faca desliza sem estranhamento. Um filete de sangue escorre, descobrindo a falta de realeza no vermelho que cai. Um impulso mais forte atravessa a pele causando um pequeno estremecimento. Não dor, um roçar mais quente. Acostumada, não se importa. Enfinca a ponta da faca, fazendo um semi-arco no braço, deixando um risco de sangue viscoso a escorrer. O alvor do pano se escurece no enxugar. Normal. Nada para ela é estranho. Ninguém conhece esses traços que se misturam às veias das coxas, aos músculos das costas, às glândulas dos seios. Nua nunca se postara a ninguém, médico, amante. Só ao espelho se dá. E por causa dele começara a se lanhar em desespero à imagem refletida. Naquela hora aprendera a odiar seu corpo. Não adiantava os vestidos moldados com desvelo que a mãe insistia em meter-lhe corpo afora. A lingerie comprada em grandes lojas, tecido que amaciava as mãos e punha-lhe fogo. Vestia obrigada e amuava-se calada e hirta na cadeira da sala à vista de todos. O silêncio lh...

As tiMe goeS bY

Ainda quando estudava o antigo ginasial, uma professora de Português, interessada em que os alunos gostassem de ler e apreciassem os clássicos, passou como tarefa de avaliação uma redação sobre o texto AMOR MENINO (parte II do Sermão do Mandato – mas isso só soube muito depois já na faculdade) do Pe. Antonio Vieira. Agora, imaginem a dificuldade de adolescentes nos idos final dos anos 60 em cumprir essa tarefa. O que sabíamos do amor? Nada. Do tempo muito menos. O amor era em preto e branco nas fotonovelas que eu comprava no sebo na banca da feira livre, hábito que era também o das minhas amigas, caso contrário não leríamos nada. Apesar dessas imagens de amor, não lembro se as conversas já rondavam assuntos de namoro, casamento. Acho que não, pois éramos àquela época imaturas para tais assuntos. O universo ainda girava em volta de livros, estudar para provas, sorvetes, ouvir música e meninos não faziam parte do grupo. Aliás, eram olhados com uma estranheza que beirava ao exílio. Em c...

FaLtA de iDéiA

Eu gostaria de hoje ter chegado em casa com uma idéia quase acabada para aqui escrever. Há dias, muitos dias, que não escrevo. Não escrevo nada da minha cabeça, a não ser memorandos, ofícios, conclusões de análises de planilhas, letras burocráticas que não contém metáforas, poesia alguma. Mas, a idéia não chegou comigo. São 21 horas e 23 minutos, fora do horário de verão, e não faz nem 30 minutos que cheguei em casa, pois hoje trabalhei até as 20 horas. Como já tinha jantado por lá mesmo, ao chegar tomei banho, comi uma goiaba e liguei o computador na vã esperança que de repente - como acontecido de outras vezes - a tal da inspiração começasse a me azucrinar o juízo, querendo pôr-se a descoberto. Qual o quê! Até agora só transpiração do baita calor que faz nesta Cidade do Sol. Não tenho escrito, porém continuo lendo. Impregnada das letras de Mia Couto, fico mais apequinhada para escrever. O que será que se passa na cabeça dele especificamente ao escrever? Será que o livro se forma int...