Os olhos se derramam pela paisagem. Até onde o mar alcança é só lágrima e tristeza. Saudade marinheira. Sob os pés a areia lhe parece estranha, vontade de asas. No início, a ausência lhe parecera temporária, tempo de uma estação. A da esperança. Ocupara-se tecendo a teia que à noite era proteção contra os ventos à porta de casa. Os olhos se derramam pela paisagem. Até onde o sertão alcança é só mágoa e dor. Saudade sertaneja. Sob as mãos o algodão lhe parece estranho, vontade de linho. No início, a ausência lhe parecera eterna, tempo de uma vida. A da resignação. Ocupara-se guardando o sol que à noite era esconderijo contra os desejos à beira da cama. Os olhos se derramam pela paisagem. Até onde a planície alcança é só desamparo e solidão. Saudade invernal. Sob o rosto os vincos lhe parecem rudes, vontade de velhice. No início, a ausência lhe parecera vaidade, tempo de uma fase. A da desilusão. Ocupara-se guardando o ar que à noite era líquido contra o tempo escoando p...
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado. Sou fraco para elogios. MANOEL DE BARROS