Pular para o conteúdo principal

Dançando na vida

Ultimamente, filmes animados estão sendo produzidos com melhor qualidade e quase sempre com um formato meio fábula, aquela historinha que nos contavam anos atrás e que obrigatoriamente ao final tinha uma moral. Se os pais forem bem atentos aprendem muito mais do que as crianças assistindo os tais filmes.
A bola da vez é Happy Feet. Na onda do filme documentário A Marcha dos Pingüins, lançado em 2005 e dirigido por Luc Jacquet, o filme mostra o dilema de um filhote de pingüim que nasce sapateando para desespero dos pais que já se mostram preocupados – pais têm a capacidade de projetar as preocupações para um tempo futuro infindo: o bebê acaba de pôr a boca no mundo e os camaradas já estão preocupados se ele vai ser médico ou pedreiro!
Para os pingüins imperadores é crucial saber cantar, porque se não, nada de acasalamento. Pingüim solteirão nem pensar – se for dançarino, levando pecha de "frutinha" é morte certa (pelo menos pros pais!).
Nessa fábula, o que podemos observar é a discriminação correndo solta desde o momento em que o pingo de gente – quer dizer: o pingo de pingüim – sai da barriga da mamãe - quer dizer: sai do ovo.
Nesse sentido, falham todas as instituições que a priori deveriam dar sustentação psico-afetivo-social ao indivíduo que não apresenta aquilo que está previamente estabelecido como "normal". A própria família se sente ultrajada pela diferença apresentada pelo pimpolho: ora, acha-se culpada por aquele "erro"; ora, envergonha-se do comportamento do filho, pedindo-lhe que seja diferente em nome da moral e dos bons costumes. A escola, coitada!, que mal sabe lidar com os "normais", depara-se com um aluno com uma habilidade diferente daquela que ensinaram a professora a como cuidar. Aí, a solução é tirar o "pingüim" da sala, pois a continuar ali ele vai corromper os demais. Se todo mundo em vez de aprender aula de canto, aprender a sapatear, o que será do mundo gelado da Antártida, o que será desse lindo e pobre país, cuja cor hoje é mais amarelo de vergonha do que verde de esperança?
A comunidade, através do líder, velho sábio e velho, ordena (os pais se calam e se curvam!) que o indivíduo procure sua turma. Para variar, a turma encontrada é de caribenhos cantantes, mui malandros, para quem o sapateador é um astro.
Agora vejam bem: uma criança, um jovem, seja lá que idade tenha: uma pessoa. Uma pessoa tem uma habilidade, um jeito de ser diferente da grande maioria e pela incompreensão é posta a correr em busca da sua turma. Como se pode ir em busca de uma turma, quando não se foi ainda em busca de si mesmo? Como ir em busca de si mesmo se todos os referenciais que deveriam estar ali foram subitamente, traiçoeiramente retirados, deixando-lhe sem prumo? A turma encontrada é sempre a turma errada, lógico!
O sujeito discriminado – qualquer que seja o tipo de discriminação - só sobrevive se encontrar a si próprio antes que o mundo lhe esmague, porque para os diferentes o mundo cumpre muito bem essa função: não existe metamorfose kafkiana (recolher-se ao seu interior) que dê jeito, não existe metáfora que anule as dores sentidas por quem é incompreendido no seu jeito de ser, não existe sinfonia de Mozart que cale as piadinhas maldosas, não há Lexotan que aplaque a dor da mão sobre o ombro num afago falso de compreensão.
E olha que não estamos falando da falta de caráter, de má índole, de bandidismo. Estamos falando de pessoas do bem que se vêem às voltas com esse tipo de atitude. Os que apontam o dedo, donos absolutos da verdade, subvertem a imagem do Criador dando vida a Adão tão bem representada na pintura de Michelangelo. Filhos do Dono do Mundo acham-se donos dos destinos das pessoas que dizem amar, querem moldar-lhes o jeito – que não mata ninguém, nem rouba nada! – ao que acreditam ser a melhor forma de viver.
Não existe fórmula para o viver. Viver só se aprende vivendo!
"É por isso que aqui não faço nada,/a não ser aprender, porque é preciso,/(já algo consigo) a ler na escuridão." (Tiago de Mello).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LeTRitude

Depois de vários meses, terminei a leitura do livro " A menina que roubava livros " do australiano Markus Zusac . Mesmo gostando da narrativa, não sei por que demorei tanto para concluir sua leitura, atropelando-a com outros livros. A estrutura do livro é soberba, uma aula de teoria literária para os que acreditam em Paulo Coelho como o mago das letras neste século! Não há uma temática nova. Relatos ficcionais ou não sobre a vida nos países em guerras, sejam elas as de agora ou as de antanho, proliferam aos milhares. O que o nazismo causou à população mundial, notadamente à européia, e amargamente aos judeus e às minorias, sempre será um assombro e a personalidade de Hitler já rendeu tratados tanto sócio-políticos como psicanalíticos. O fato de a narradora ser a morte não é assombroso, embora seja inusitado. E aí reside o primeiro mérito do livro: não adianta correr para as inovações tecno-científicas em busca de elixires da imortalidade, um dia ela virá e nos colocará sobre...

De escritos e fogueiras

Não tenho lembrança de quando comecei a escrever, mas foi aí por volta dos 12 anos. Era um caderno tipo brochura, capa verde, pequeno e eu escrevia só de um lado da folha. Achava ruim escrever no verso. Usava caneta e achava o máximo, escrevendo com cuidado redobrado para não precisar apagar. Minha letra não era semelhante com a que tenho hoje; eu treinava arduamente para imitar a letra de uma professora da quarta série que tinha uma letra desenhada, não era feita à mão de tão perfeita. Claro que não conseguia fazer igual. Anos depois mudar a letra foi o primeiro sinal de identidade consciente: comecei a colocar letras maiúsculas no meio da palavra, coisa que faço até hoje e dando aula era a primeira lição aos meus alunos: não escrevam como eu; esta letra colocada aqui é um erro! Inútil! Nem eu deixei de escrever assim, tampouco livrei alguns de pegarem a mania da professora! Eu escrevia de tudo. Passou na cabeça, pousou no papel. Não deixava ninguém ler, embora desconfiasse que minha...

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

Lady Lu

Tenho uma amiga que não conheço, com quem tenho, contra todas as previsões contrárias possíveis, algumas afinidades, por assim dizer, "mediúnicas" (quem me perdoem os kardecistas). Seu nome é luz, a origem latina significando luminosa, por que luz ela é. A poucos metros da sua casa baiana, ela alcança o mar, onde lava os pés, às vezes mergulha, e rotineiramente o contempla como se contemplam as coisas grandiosas da vida: maravilhada e inquisitivamente. Naquele espelho d'água, ela espera vê Deus e se pergunta vezes sem conta o porquê da crueldade, dos desatinos humanos; também agradece as surpresas boas, as dádivas que a vida lhe oferece e ali, naquela contemplação, sente-se pequenina, pequenina diante do poder divino. Minha amiga tem o dom da diplomacia. Não pode ver fogo, seja verbal, "escritural", cara a cara, que sai logo apartando os contendores armada de uma mangueira imensa carregada de palavra afáveis, conciliadoras. Nunca a "li" com raiva, tamp...

Janela adentro

A poltrona colocada frente à janela mostra uma rua sossegada, pouco movimento de carros e gente. Nela, Zuleide observa a rua sem ver. Seus olhos se apertam devido a claridade que vem de fora; ouvidos surdos ao vozerio que vem do interior da casa. Filhos e netos falam animados da festa que há um mês preparam com a ansiedade de casamento. A festa vai comemorar seu aniversário, mas pouco ligam para a aniversariante. Fará 85 anos. Não sabe se fala com Miguel ou se espera ele se aproximar. A vergonha de ser falada inibe sua vontade e fica sentada na praça, um olho lá, meio ouvido aqui. E se ele não se decidir? Esperar agoniada outro domingo, passar outra semana ouvindo em casa o pai elogiar o governo de Getúlio Vargas, fazendo comida, lavando roupa no rio bacia na cabeça? Não, tem que fazer alguma coisa. Tem 15 anos e muita pressa em viver. Não vai ficar pra titia de jeito nenhum. Se Miguel não se mexer, o jeito é ficar falada. As imagens são takes na cabeça de Zuleide. As conversas no po...

Leão ao meio-dia

O leão apareceu no meu caminho ao meio dia em plena avenida, carros e gente passando em linhas retas e transversais. Quando pus o pé na faixa de pedestre, olhei o sinal, levantei o olhar: lá estava a fera, à espreita, prontíssima a me devorar! Sua roupa vermelha alardeava ainda mais suas intenções - não segundas, mas primeira e única: me derrubar ali mesmo. (Se o momento não fosse tão trágico, eu teria rido: aquele leão vestido de vermelho era uma pantomima ridícula de uma tourada servilhana, fazendo da avenida uma arena, certamente esperando ansioso o Olé da multidão!). Atônita pela surpresa, recuei. O pé voltou em câmera lenta para a calçada e meus olhos relâmpagos relancearam ao redor para ver se alguém estava tomando alguma atitude. Nada. Ninguém deu a mínima para o leão, todos passaram a faixa tranquilamente, prestando atenção aos carros, ao semáforo e tomando cuidado para não atrapalhar a travessia do outro. O leão lá. Claro agora que o alvo era eu. Mas, o que diabo aquele leão t...