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PARalelas

O cão está parado no meio fio. Todas as vezes que avança, recua, pois sente a vibração de um carro vindo. Olha para um lado e outro, mas não se atreve. A saliva denuncia seu cansaço e ansiedade.
Sentado na parada de ônibus o homem observa os movimentos do cão. Espera a hora do atropelamento e nada faz. A marca na perna lhe dá todos os motivos para não gostar de cachorro. Raça desgraçada! Por ele, todos os cães viravam sabão.
O negro do pêlo reluz ao sol. O focinho pouco saliente, orelhas curtas apontadas para cima, uma grande mancha branca sobressaindo-se na pata direita não indicam a raça do cão. Pelo ir e vir na calçada, incerto sobre a hora de atravessar, denuncia-se sua pouca experiência de rua. Não está gordo, mas não tem uma ossatura que indique fome de cão. Se tem dono, ninguém por perto lhe pertence.
Uma acentuada calvície brilha ao sol no calor da manhã. Retira um lenço do bolso da camisa e enxuga o suor da testa. As pernas magras à mostra pela bermuda indicam uma idade mais de 50. Magro e alto, a mão segura três pacotes de compras aos seus pés, o corte de cabelo e a pose denunciam sua raça militar. Se tem dona, ninguém por perto se atreve.
Indiferente às pessoas, o cão se concentra na vibração do chão e nos flashes de suas retinas que se sucedem dando-lhe os movimentos dos carros. Não sabe distinguir as cores do semáforo, mas precisa atravessar na hora certa nem que seja por entre os carros, correndo raspando.
Indiferente às pessoas, o alerta do cão começa a lhe incomodar. Como diabo pode esse nojento saber a hora certa de atravessar? Mas não vai adiantar, ele vai se danar todinho e será menos um nessa terra.
O cão agora se arrepende. Quando vira o portão aberto só quisera correr maior do que o jardim. Vê muitos pneus correndo ao seu lado, nada como aquele parado no jardim onde não pode levantar a perna. Precisa dá um jeito de voltar, o menino deve tá danado.
O homem agora se arrepende de não ter vindo de carro. O calor sufocante, a demora do ônibus, o cão, tudo lhe incomoda. Besteira achar que seria melhor deixar o carro na garagem, a essa hora o filho já o pegou para ir a praia. A mulher deve tá danada com a demora, esperando as frutas que recomendara.
Resolve ficar perto daquelas manchas no chão. De vez em quando vê pernas indo e vindo. Vai escolher uma e seguir com ela como Júnior um dia ensinou quando saia à rua, mesmo que ali tenha duas avenidas para atravessar. Quando do outro lado não terá mais perigo. É só correr, dobrar na clínica, correr mais e avançar portão adentro.
Já são onze horas. Melhor atravessar a rua e pegar um táxi. Aproveita e compra para Júnior uns jambos que o homem vende no canteiro. Levanta-se e sente a perna direita formigando. Antes de caminhar até a faixa de pedestre, bate o pé várias vezes no chão ativando a circulação. Parado na mesma faixa está o cão. Pára longe dele e espera o sinal fechar.
Um homem vai chegando. Vendo aquelas pernas o cão se aproxima decidido a segui-las. Vai fazer de conta que é um passeio com o dono. Assim não tem perigo, porque mesmo sem coleira o dono vai cuidar dele, chamando-o pela rua para nada de ruim acontecer.
O sinal fecha. Homem e cão, lado a lado, atravessam a faixa de pedestre. Diabo deste cão, tanto tempo ali na calçada e resolve atravessar justo nesta hora, ainda mais nos meus calcanhares. Será que este bicho sabe que tenho medo de cão e tá fazendo isso só pra me aporrinhar mais a vida? Eu devia era lhe dá um chute. Desgraçado! Ufa! Ainda bem que escolhi as pernas certas, o homem nem olha para mim, mas ele sabe atravessar e eu não corro perigo, é só seguir o movimento das pernas e pronto. Ainda bem que ele gosta de cão e não vai me chutar.

Comentários

Anônimo disse…
"Se tem dono, ninguém por perto lhe pertence."
Brilhante!
Que belas palavras, construções, pensamentos, idéias. Parabéns. O que você escreve arrepia. Mesmo.
Ahhh se minha cachorra soubesse ler...:P

Abraço, Ednice.
Fantasma disse…
Eu pensava ter tecido um comentário a respeito desse conto. Vai ver li e me coloquei como cachorro, para variar...

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