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Sem nome

Um conto: Com o filho morto nos braços uma mulher procura Buda para que este faça reviver seu filho. Buda lhe pede que vá de casa em casa em busca de um grão de mostarda. Mas, os grãos só servirão se vierem de uma casa onde nunca houvera uma perda. A mulher não encontra tal casa.
O luto não existe apenas na morte literalmente de alguém. Uma separação, uma ruptura deixa-nos em luto. E assim, vivenciamos choque, negação, raiva, depressão, culpa, ansiedade e aceitação. Não necessariamente nessa ordem ou um de cada vez. No mais das vezes, tudo se mistura e o único remédio é chorar e esperar. O quanto dura e a intensidade de todas essas emoções depende de cada um, suas vivências, temores, fé e esperança.
No início o atordoamento. Aquilo não poderia ter acontecido; não comigo que fiz tudo tão certo, tão merecedora que fui, tanto espaço que dei para que a vida fosse vivida e a escolha fosse feita. A escolha foi feita e comunicada. Depois a negação: não, é uma fase, vai passar, não é verdade, não pode ser verdade!
A raiva. Uma raiva que corrói, vai moendo todo o seu ser, vontade de gritar, pedir explicações para aquilo que não é entendido, vontade de se sentir menos idiota, subentendidos, mal entendidos, verdades que aparecem em passe mágico e que antes mascaradas se escondiam, omissões e ausências. A depressão: sabe-se que não há remédio que passe a dor, tampouco se volta no tempo, aquilo é verdade e lhe resta apenas aprender a conviver com a dor, com a ausência, enfrentar a raiva que lhe consome, pois ela não mata ninguém a não ser a si mesmo.
Na impossibilidade das respostas, instala-se a culpa. Errei, fiz tudo errado, era assim, fiz assim; o outro assume ares de santo, coitado!, agiu tão bem, teve tanta paciência, só podia mesmo agir assim, não teve escolha.
A vida assume um sentido de fatalidade, alguma coisa vai acontecer, o medo torna os passos indecisos, as noites insones, o pensamento em desaparecer se torna mais forte, as coisas vão mudar, se terá o mesmo caminho ainda que diferente. Ansiedade que mal respira, que bebe, que fuma e que mata, que chora por uma data marcante já não comemorada, por pequenos gestos esquecidos.
E um dia, você já não quer mais nada de ninguém, quer apenas viver sem medo, sem noites mal dormidas, até sem amor. Quer apenas respirar sem sentir o estômago doer, quer apenas aproveitar a claridade. Dentro de você ainda persiste uma tênue dor. Uma saudade será para sempre. Às vezes dolorida pelo que não foi, por querer muito mais; às vezes, agradecida pelo que foi.
Entretanto, para se chegar a esse dia, muitas águas, muitas horas, marcas, gavetas abertas e fechadas, uma esperança que se constrói e morre vezes sem conta. Não há tempo a cumprir. Meses, anos. Um tempo ainda a alcançar.
C’est la vie. Como sempre foi, como sempre será. Perdas.

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