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Ecce Homo

 


Uma das passagens bíblicas mais conhecida, mesmo pelos que não professam a fé cristã, é a atitude de Pilatos em não assumir a liberdade de Jesus, preferindo entregar essa decisão ao povo, (difundido a expressão latina ecce homo – Eis o Homem) mesmo sabendo que Barrabás tinha crimes comprovados, enquanto Jesus, não.

Não ter a coragem de decidir, pondo em risco sua posição diante dos superiores romanos, como também o medo da reação dos que apoiavam Jesus, preferindo demagogicamente levar o povo a acreditar que tinha o poder de decisão, o  fato é um exemplo poderoso do que a omissão, a fraqueza de uma pessoa pode provocar. Pilatos usou da tradição de se soltar um prisioneiro judeu no período que antecedia a páscoa, achou que o povo escolheria o criminoso confesso, ele ficando, portanto, bem com qualquer que fosse a decisão: cumpriria a lei condenando um criminoso, soltaria um inocente. Contrariando as expectativas de Pilatos, o povo decide por Barrabás, condenando Jesus.

Superficialmente, somos levados a acreditar que o povo era soberano, que sabia muito bem o que estava fazendo, que Pilatos agiu corretamente; na dúvida, peça a outrem que ajam por você, é cômodo ser vaquinha de presépio! Entretanto, a escolha do povo não foi tão espontânea e emotiva. Já havia uma “campanha” difamatória contra Jesus, os romanos já estavam articulando com a elite dominante da terra ocupada, e esta já classificara Jesus como rebelde, blasfemo, inclusive com a cumplicidade de Judas, para quem, segundo alguns historiadores, cometeu tal traição desencantado com a postura de Jesus paz e amor, quando ele, Judas, preferia a espada. Então, os que deveriam defendê-lo, e não nos iludamos, havia quem seguia Jesus e ao mesmo tempo os ditames romanos, juntaram-se aos romanos, que não aceitavam o surgimento de qualquer liderança, isso era banditismo, coisa de baderneiro.

As articulações prévias surtiram efeito, pois várias irregularidades na prisão e no julgamento levaram Jesus à condenação. Era o caráter político acima da justiça, era o afã de perseguir alguém que ousava colocar em xeque o poderoso império romano, era a gana de usar o poder naquilo que ele tinha – e tem – de mais perverso: usá-lo para prejudicar alguém! Era o poder das palavras em distorcer a verdade em proveito próprio, para justificar o injustificável, era a palavra usada para colocar a sociedade contra uma ideia, transformando a vítima em ré. Era – e é – o poder da força quando faltam argumentos!

A crucificação de Jesus desarticula as emoções, a crença dos discípulos e seguidores na validade dos seus ensinamentos. Adianta pregar amor, solidariedade, lutar por justiça, “dá a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”? Que resultados se alcança quando se briga por justiça para os perseguidos, para fazer se cumprir a lei? O desânimo impregnou a todos. Mas, alguém – Pedro? – discute a necessidade de se reunir novamente o Conselho dos Doze, compreende que neles recaí a responsabilidade de continuar. E seguem, continuam, prisões, perseguições, criam códigos para serem reconhecidos pelos iguais nas catacumbas onde se escondem, para afastar os falsos amigos, os infiltrados, cujo papel era ouvir, contar aos chefes em troca de posições hierarquicamente superiores.

Desde então, o mundo se encheu de Pilatos e sua omissão e fraqueza, de seu comportamento servil para manter privilégio e poder; de Judas e sua falsidade simbolizada nos beijos e abraços camuflados para adquirir confiança anterior ao puxar de tapete; de Barrabás e seu oportunismo, esperando uma chance aleatória para não assumir suas responsabilidades e se ver livre de seus erros, e de Jesus, crucificado inocentemente que com suas pregações motivou os discípulos à fundação de uma Igreja, a que muitos adeptos professam semanal e religiosamente a fé e os ensinamentos, esquecendo de praticá-los na vida cotidiana, dividindo-se entre Pilatos, Judas e Barrabás de acordo com as conveniências.

O mundo também se encheu de tantos Pedro que fazem a roda não parar, que continuam, que inventam códigos de convivência para afastar os falsos, que se fortalecem na resistência a discursos falaciosos e maldosos, pois compreendem que “Lavar as mãos do conflito entre os poderosos e os impotentes significa ficar do lado dos poderosos, não ser neutro. O educador tem o dever de não ser neutro”.

Ei, peraí, mas isso já é Paulo Freire quem disse!



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