Pular para o conteúdo principal

Memorium



Em uma matéria lida há dias soube de um americano de 54 anos, cuja capacidade de memorização é absurdamente fantástica, o que faz com que ele tenha 9 mil obras "armazenadas" na cabeça. Vale dizer que o desenvolvimento afetivo desse homem é limitado, portador que é da "síndrome de savant", tipo de autismo em alto grau. A maioria das coisas é memorizada, mas não compreendida.
Fiquei pensando se uma capacidade dessa é boa ou má. Será bom lembrar de tantos fatos? Carregar consigo todas as lembranças, mesmo que aparentemente seja cultura inútil, fatos desprovidos de emoções?
Em uma outra ocasião li a opinião de um médico sobre a doença de Alzheimer. Para ele a doença era uma bênção, pois na velhice é necessário apagar lembranças desagradáveis, as tantas dores que vivenciamos e lembrar apenas aquilo que nos foi grato, agradável.
Não sei. Há lembranças em mim que faço questão de manter comigo e espero que velhice nenhuma consiga apagá-las, mesmo que elas me causem dor, saudades, quem sabe até ressentimentos, frustrações. O triste nesses casos é que nem sempre o lembrar é lembrado por quem lembra de tão desconexas que são as lembranças, a vida que foi vivida.
Não são apenas os tremores das mãos que marcam a velhice. Vejo a minha mãe e suas mãos tremem pouco comparadas com a mágica transversa de sua memória que passeia pela sua meninice, juventude, mas, traiçoeiramente, esquece que no dia anterior seu neto esteve lá e com ela almoçou o mesmo feijão preparado há anos e anos.
E entre tremores de mãos e tremores de ansiedade que me assaltam, retorno à idéia anterior e já não sei se quero lembrar ou simplesmente viver juntando tijolos espalhados na ordem que meu cérebro aprouver.

Comentários

Anônimo disse…
Bem vinda a net! O PJ adorou a idéia de agora ter suas estórias on line. Só não vale perder o costume da conversa de mesa, seja num almoço light ou num bom chocolate quente.

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

No interior do interior

Macabéia é um dos personagens mais singulares da Literatura Brasileira. A moça que vem do interior para a cidade grande na tentativa de realizar grandes sonhos. Grandes sonhos não significam a mesma coisa para todo mundo. Os de Macabéia são basicamente encontrar o grande amor e ser feliz para sempre, mesmo que essa felicidade seja com um cara simplório, que fala difícil sobre parafuso e sonha ser deputado. O sonho de Macabéia acaba abruptamente sob as rodas de um carro, justo quando ela saía da casa de uma cartomante que lhe predissera um futuro brilhante. Não lembro detalhes do livro, não o tenho aqui, mas em linhas gerais a narrativa se concentra em uma moça simples com uma vida monótona, que ouve rádio à noite depois de um dia repetitivo de tarefas em um escritório. Todos nós conhecemos alguma Macabéia, aquela pessoa que sai do interior, mas não consegue tirar o interior de dentro de si. O desafio da cidade grande não é suficiente para lhe encorajar a vencer limites, buscando um aut...

oSSevA

Corro pela lama, atravesso o sol e a lua distante me observa irônica zombando-me. Arrepia-me pensar na inutilidade da carreira, da volta, da linha reta sobre o trilho, sobre a rua sob a lua. Escapa-me o sentido de duas ruas, quatro prédios ladeira acima e abajo. Recuso-me a ser uma rede social de futilidades e palavras institucionalizadas, diários coletivos ao vento, em traços virtuais dando conta do banho, do jantar, da comida sobre o fogão ou a falta de sono, de dinheiro, de amor, excesso de trabalho. Sou além de ondas computadorizadas, estou além de rótulos, modismos. Abusada, não me contenho na lata do siri que pula, bate e não sai do canto. Meu canto é mais amplo, mais livre porque meu sem alarde.

CONjugaSÓS

Eu te conheço tu me conheces nós nos desconhecemos. Eu te amo tu me amas nós nos sufocamos. Eu te confio tu me confias nós nos duvidamos. Eu te prometo tu me prometes nós nos esquecemos. (Imagem: Eros e Psiquê - Edward Munch. Galeria Mun. de Arte - Oslo)

CriAnÇa teM caDa Uma

Ontem em almoço com familiares, minha mãe relembrava a vez que o neto prendera a cabeça entre um cano de orelhão e a parede. Nem ele nem ela lembraram que idade ele tinha, mas ela lembrava como torceu e torceu a cabeça dele para sair daquele sufoco – literal pode se dizer! – e que já estava pensando em chamar o bombeiro para serrar o cano. Nas festas natalinas do ano passado, a filha de uma amiga de uma amiga, sentou-se no colo de Papai Noel lá no Midway e pediu uma bicicleta. O Papai Noel, sem saber das intenções da mãe – principalmente suas condições financeiras – disse para a garota de três anos que talvez ela não ganhasse o que estava pedindo, porque ele tinha muitos pedidos para atender, mas que ela não ficasse triste. Ela ganharia algo, mas ele não tinha certeza que seria uma bicicleta. A garota ouviu, não disse nada, levantou-se e caminhou em direção à mãe. A uma boa distância do Papai Noel virou-se e mandou: - Papai Noel, se você não mandar minha bicicleta, você tá fudido!!! ...

O sal do meu rosto

"E eu que não quero mais ser um vencedor levo a vida devagar só para não faltar amor..." ###### "É de mágica Que eu dobro a vida em flor Assim! E ao senhor de iludir Manda avisar, que esse daqui Tem muito mais amor pra dar". (Vencedor; É de lágrima - Los Hermanos) ******************** Não sei se ainda há amor para dar aos que vez por outra cravam um punhal ferozmente na minha jugular, esperando-me sagrar até morrer qual carneiro numa imolação sagrada; Não sei se ainda há paciência para caminhar nesse caminho há tempos escolhido, sabendo-me das dificuldades, do dinheiro minguado, mas com um ideal a cumprir na perseguição de um sonho utópico; Não sei o quanto ainda há de mim naquilo que hoje realizo depois de tantos furtivos roubos, das ameaças sutis às minhas crenças, àquilo que realizo arduamente todos os dias. Ainda choro e vou chorar ainda, mesmo passada a dor inicial. Ficará a lembrança da omissão dos que se calaram, ficará o ruído insensato dos que apoiaram ...