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Na rede de um pescador

O primeiro livro que comprei foi As Sandálias do Pescador do Morris West. Não lembro em que ano foi; acho que por volta dos meus 13 anos (o ano continuo não lembrando!). O livro foi comprado em um sebo, não como vemos hoje, quase uma livraria, mas no meio da calçada, livros dentro de caixotes de madeira, espalhados nos batentes da entrada do cinema São José, rua transversal a que eu morava.
O livro me fascinou duplamente: eu estava usando dinheiro para isso, até então era só livro de biblioteca de escola ou de colegas, e pela primeira vez eu lia algo que desfazia a idéia de santidade que envolvia a Igreja Católica, mesmo que dela não fizesse parte. Ainda pelo fato de que à época habitante de país comunista não era considerado flor que se cheire, muito menos que pudesse chegar a ser Papa. Como podia um comunista – morava lá, tinha que ser! – que renegava Deus ser Papa? (Depois Karol Jósef Wojtyla mostrou que a vida imita a arte!)
Aquela idade, inocência para quase tudo (naquele tempo não havia tantas informações circulando como hoje), não me permitia ver as entrelinhas da História contada pelos professores. Mesmo que pela mesma época, escutasse comentários que nosso vizinho era comunista e por isso vivia longe de casa, escondendo-se. Aliás, vizinhos de ambos os lados: minha casa ficava no centro: à direita, a casa da minha avó e conjugada a esta uma família, cujo chefe era comunista (nem lembro que profissão ele tinha!); à esquerda, a casa da minha tia e pegada a ela, outro comunista (esse, protético, dentista na necessidade!).
Desse livro para cá já se passaram muitas letras. Sobre comunistas aprendi um bocado de coisa, como também da Igreja. O suficiente para desacreditar que aqueles comem criancinha e são o diabo e descobrir que nesta há muito mais política na hora de uma escolha papal do que fé e predestinação.
O que ficou foi a mania de ler livros a mancheias, lembrando-me que quando diante de Deus me mostrar teremos um livro nas mãos (Ele e eu!). O Dele não sei qual será, mas deverá ser bastante grosso com letrinhas pequeninas; o meu, possivelmente Cem Anos de Solidão para ler infinitamente.

Comentários

Anônimo disse…
Dedicatória do livo As Sandálias do Pescador se Morris West sonhasse que este seria o teu ponta pé inicial nesse mundo das letrinhas:

À menina Ednice que, mesmo após ler tanto, ainda recorda-me, divulga-me e principalmente vive a mesma emoção da primeira leitura.
Obrigado!

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