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Miolo de quartinha e carga d'água



Não adianta. Não adianta colocar os dedos sobre o teclado e fazer um download que me leve à inspiração quando os acontecimentos me travam para o escrever e preencher o espaço do blog esta semana.
Já pensei numa série de coisas, fictícias ou reais, e nada. Já li alguns jornais em busca de uma notícia que merecesse um comentário e nada. E olha que encontrei um bocado de coisa: no Paraná, um cinegrafista morreu atropelado por um avião. O rapaz de apenas 26 anos, olhando pela angular da câmera, não percebeu que o avião estava verdadeiramente próximo e sofreu o impacto fatal. Um marinheiro russo, servindo em um submarino, foi preso porque plantou maconha em uns jarrinhos perto da escotilha e estava "abastecendo" os colegas (isso sim é que visão capitalista!); o estilista famoso da Luciana Giminez, Ronaldo não sei das quantas, foi preso no cemitério roubando dois vasos de flores. Ele se explicou cientificamente: disse que estava tomando um remédio antidepressivo que o fazia cometer atos estranhos (participar do programinha é também estranho, mas não é graças ao remédio que ele o faz!). Entre as novas receitas milagrosas de alguns
spas há as que misturam mel, ostras, caviar, amêndoas ao custo de meros 395 reais por sessão, uma pechicha para as feias abastadas (as outra feias se contentam com produtos mais em conta, sabendo que não são milagreiros); Yoko Ono gravará disco intitulado "Yes, I'm a witch" (o que todo mundo já sabia) and so on...
Como dizia Drummond, "Não faça versos sobre acontecimentos...". Sossegue, Carlos, não os farei!
Para os estóicos o homem sábio é aquele que obedece à lei natural reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo, indiferente a todas as coisas externas (isso é uma conceituação de não filósofo!). Assim, somos só uma pequena peça de uma grande engrenagem que gira incessantemente sem nos perguntar se queremos rodar ou não. Para quem não se acredita assim, pelo menos não todo o tempo, há sempre a impressão de que "a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu/a gente quer ter voz ativa e no nosso destino mandar/ mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá...".

Às vezes alguns levam esse conceito tão a sério – mesmo sem saber nada de filosofia grega – que tudo fica rasteiramente sentido, permanecendo no plano da racionalização; não amam, ficam; convivem anos com um outro e em vez de investir no relacionamento, ficam esperando pelo seu fim; não se emocionam mais com as catástrofes, com os que morrem "de graça" porque estavam passando na hora que a terra abriu; nada é um problema, porque em algum lugar existe uma solução, a questão é saber esperar.
Quisera eu ter só um pouco de estoicismo e saber esperar. Mas, não sei esperar tampouco ser estóico. E não sou ingênua de pensar que o tempo é negociável, pois há muito, ainda em um livro do curso ginasial, li fragmento de um sermão de Pe. Vieira, intitulado Amor Menino, o qual me ensinava que "tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!".
Quisera entender porque se diz a alguém eu te amo e beija-se e transa-se com outro; quisera saber como ter filhos e deles não cuidar; quisera aceitar que se passa caviar no rosto quando se nega uma esmola na esquina; quisera entender porque quando não se tem talento a solução é encostar-se em alguém e tirar-lhe o sangue até mesmo depois de morto; quisera compreender porque os que morreram por fatalidade não causam pena em alguém; quisera achar normal o comércio de uma droga considerada por alguns como "leve".
Na verdade, quisera nada. Eu não quero entender nada disso. Quero continuar burra, ignorante. Quero continuar beijando só uma pessoa; quero dar receitas de como cuidar de filhos, já que não os tenho (e nessa falta, transfiro chamego para o meu sobrinho, gritos e afagos para meus alunos); quero ter pena dos que morrem assim no caminho de casa (mesmo sabendo que a hora da morte para nós nunca é a hora certa); quero ter raiva dos que ficam encostados aos outros, sugando-lhes o talento; quero achar uns merdas os que gastam muito com amenidades e não ajudam ninguém, os que adoram o deus dinheiro; quero continuar achando que não existe droga leve, que todas fazem mal.
O que eu queria mesmo eu já consegui: coloquei os dedos no teclado e escrevi o que tinha de escrever. Agora, vocês que leram que se virem!












** O título é uma expresão nordestina que significa conversar à toa.

Comentários

Anônimo disse…
É.
Só não estou em condições de me virar por hoje. Mas o tempo...
Anônimo disse…
"A lua iluminou
a dança, a roda, a festa.
Vira, vira, vira..."

Pode deixar. A gente se vira daqui como pode, e vc como deve: escrevendo essas coisas gostosas de se ler.
Quisera eu escrever dessa maneira. Da imenso prazer ler um texto tão bem escrito.

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