Pular para o conteúdo principal

Panis et circenses

Velho, sobe as escadas com pés inchados de cansaço o segundo degrau depois do quinto. Arrasta-se ainda pelo corredor até a porta pintada de azul, extravagância da filha que queria um céu ao entrar. Dedos trêmulos mal conseguem colocar a chave. Ao abrir a porta, o assombro: toda a sala fora tomada por pombos que entraram pela janela.
Com cuidado fecha a porta atrás de si. Na cozinha, coloca as compras sobre a mesa. Abre o armário e de lá retira o saco há tempo guardado e com ele à mão, puxa a poltrona até o umbral da janela, senta-se e sobre si derrama todo o milho. Agora é esperar que os pombos ergam-no.

******
O som da tv sai pela porta incomodando os outros que naquele corredor não ousam abrir as portas para reclamar. Dentro da sala, o som passa despercebido à mulher que de frente para a parede branca, vassoura à mão, bate freneticamente na teia que toma toda a parede agora já acinzentada pelos vários anos de umidade. Ela tem que limpar, arrancar aqueles fios que se entrelaçam ameaçando alcançar a porta do quarto.
Procura a aranha engenheira daquele emaranhado de fios, mas não encontra. Aborrecida, larga a vassoura, puxa uma cadeira e jogando mãos e pés ao mesmo tempo agarra-se à parede, subindo na teia em direção ao teto, onde se deixa ficar quente e quieta.
******
No chão os livros espalhados refletem a monotonia de uma manhã de sábado passada na faxina semanal. O velho piso de tacos amarelados exaustivamente encerados apresenta pequenas partículas de pó deixadas pelas formigas e cupins que noite adentro fazem banquetes. Sentada no chão, um grande livro repousa nas mãos da mulher visto pelos grandes óculos de aros finos que escondem pequenos olhos.
Na gravura de um colorido surreal a figura mítica de um centauro parado sob um raio de sol que se infiltra pelas grandes árvores da floresta lhe observa. A cabeça erguida revela um selvagem criado nos montes atenienses. Seus olhos se prendem na figura e num súbito levantar, ergue as ancas e corre para a página ao encontro loucamente esperado.
******
O copo na mesinha de cabeceira guarda ainda o líquido rosado do vinho bebido na noite anterior. O cheiro de cigarro impregna o quarto e imagina na boca seca a mesma sensação saariana pela falta de água, gosto de terra. Sabe-se acordada, mas não se atreve a abrir os olhos pelo medo da claridade diária que lhe invade, forçando-a a levantar-se e cumprir o dia. Melhor ficar em completa hibernação, dando somente os passos necessários para ir até a cozinha, abrir a geladeira, jogar água e gelo num copo, tomar e voltar.
Ao pegar o copo de alumínio sente-lhe a frieza ao som das pedras de gelo. A água desce causando-lhe de imediato um choque térmico nas têmporas. Ao deixar o copo sobre a pia, suas mãos apertam a cabeça, mas já era tarde. Com assombro vê seus pensamentos fugindo em direção a geladeira ainda aberta, ocupando formas vítreas, deixando-a nua de corpo e alma.
******
A roupa sobre a cama lhe olha majestosa ansiosa pela festa que se anunciara desde a semana anterior. Todos os acessórios combinam entre si, nada destoante fará a noite não ser o que dela se espera. Daquilo, nada tinha sido já usado, tudo novo comprado no cartão que presenteara a si mesmo com um limite de gasto considerável. Até mesmo ao salão fora à tarde, retocando cabelo e barba caprichosamente, manicure e pedicure massageando-lhe mãos e pés.
Veste cada uma das peças antegozando o prazer dos amigos e da mulher ao vê-lo impecável na hora de receber o tão cobiçado prêmio. Sabe que mereceu, trabalhara muito para isso, a recompensa lhe parece natural caminho para novos e rentáveis negócios. Ao terminar de arrumar-se, sem sequer olhar-se no espelho, abre a gaveta da cômoda. A caneta de ouro brilha no estojo aveludado. Ao colocá-la no bolso externo do paletó, a caneta pula de sua mão de repente, derrubando-o sobre a cama sob o peso de várias palavras que se formam flourescentes sobre suas roupas, rosto, escrevendo magicamente todas as promessas não cumpridas a seus filhos.

Comentários

Fantasma disse…
Meu Deus, que inspiração foi essa? Precisaria Dali para ilustrá-la. Vc não pára de me surpreender. Parabéns pelo estilo. Encantador.

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

oSSevA

Corro pela lama, atravesso o sol e a lua distante me observa irônica zombando-me. Arrepia-me pensar na inutilidade da carreira, da volta, da linha reta sobre o trilho, sobre a rua sob a lua. Escapa-me o sentido de duas ruas, quatro prédios ladeira acima e abajo. Recuso-me a ser uma rede social de futilidades e palavras institucionalizadas, diários coletivos ao vento, em traços virtuais dando conta do banho, do jantar, da comida sobre o fogão ou a falta de sono, de dinheiro, de amor, excesso de trabalho. Sou além de ondas computadorizadas, estou além de rótulos, modismos. Abusada, não me contenho na lata do siri que pula, bate e não sai do canto. Meu canto é mais amplo, mais livre porque meu sem alarde.

No interior do interior

Macabéia é um dos personagens mais singulares da Literatura Brasileira. A moça que vem do interior para a cidade grande na tentativa de realizar grandes sonhos. Grandes sonhos não significam a mesma coisa para todo mundo. Os de Macabéia são basicamente encontrar o grande amor e ser feliz para sempre, mesmo que essa felicidade seja com um cara simplório, que fala difícil sobre parafuso e sonha ser deputado. O sonho de Macabéia acaba abruptamente sob as rodas de um carro, justo quando ela saía da casa de uma cartomante que lhe predissera um futuro brilhante. Não lembro detalhes do livro, não o tenho aqui, mas em linhas gerais a narrativa se concentra em uma moça simples com uma vida monótona, que ouve rádio à noite depois de um dia repetitivo de tarefas em um escritório. Todos nós conhecemos alguma Macabéia, aquela pessoa que sai do interior, mas não consegue tirar o interior de dentro de si. O desafio da cidade grande não é suficiente para lhe encorajar a vencer limites, buscando um aut...

Miolo de quartinha e carga d'água

Não adianta. Não adianta colocar os dedos sobre o teclado e fazer um download que me leve à inspiração quando os acontecimentos me travam para o escrever e preencher o espaço do blog esta semana. Já pensei numa série de coisas, fictícias ou reais, e nada. Já li alguns jornais em busca de uma notícia que merecesse um comentário e nada. E olha que encontrei um bocado de coisa: no Paraná, um cinegrafista morreu atropelado por um avião. O rapaz de apenas 26 anos, olhando pela angular da câmera, não percebeu que o avião estava verdadeiramente próximo e sofreu o impacto fatal. Um marinheiro russo, servindo em um submarino, foi preso porque plantou maconha em uns jarrinhos perto da escotilha e estava "abastecendo" os colegas (isso sim é que visão capitalista!); o estilista famoso da Luciana Giminez, Ronaldo não sei das quantas, foi preso no cemitério roubando dois vasos de flores. Ele se explicou cientificamente: disse que estava tomando um remédio antidepressivo que o fazia comete...

CONjugaSÓS

Eu te conheço tu me conheces nós nos desconhecemos. Eu te amo tu me amas nós nos sufocamos. Eu te confio tu me confias nós nos duvidamos. Eu te prometo tu me prometes nós nos esquecemos. (Imagem: Eros e Psiquê - Edward Munch. Galeria Mun. de Arte - Oslo)

CriAnÇa teM caDa Uma

Ontem em almoço com familiares, minha mãe relembrava a vez que o neto prendera a cabeça entre um cano de orelhão e a parede. Nem ele nem ela lembraram que idade ele tinha, mas ela lembrava como torceu e torceu a cabeça dele para sair daquele sufoco – literal pode se dizer! – e que já estava pensando em chamar o bombeiro para serrar o cano. Nas festas natalinas do ano passado, a filha de uma amiga de uma amiga, sentou-se no colo de Papai Noel lá no Midway e pediu uma bicicleta. O Papai Noel, sem saber das intenções da mãe – principalmente suas condições financeiras – disse para a garota de três anos que talvez ela não ganhasse o que estava pedindo, porque ele tinha muitos pedidos para atender, mas que ela não ficasse triste. Ela ganharia algo, mas ele não tinha certeza que seria uma bicicleta. A garota ouviu, não disse nada, levantou-se e caminhou em direção à mãe. A uma boa distância do Papai Noel virou-se e mandou: - Papai Noel, se você não mandar minha bicicleta, você tá fudido!!! ...