Pular para o conteúdo principal

Miserere

Sentado sobre o muro, pernas balançando, observa a rua. Com gesto de cinema, muda a aba do boné para trás. A luz do sol confere ao rosto do garoto uma alegoria de pierrô. Camiseta, da bermuda larga sobressaem as pernas compridas balançantes, nervosas sobre o muro. Espera.
O muro não é tão alto. Em pé na calçada, bastou-lhe um impulso para alcançá-lo. Em casa, os irmãos assistem a desenho animado, a mãe prepara o almoço. Seus onze anos parecem pesar-lhe no olhar perdido no fim da rua. Quando pensa na vida, não sabe se pensa na vida. A maturidade não lhe chega a tanto. Olhar fixo na rua lá embaixo muda seu pensar para um prédio em construção, um carro de mão pesado de areia, barro, cimento no movimento de tábua acima, tábua abaixo. Um homem suado, boné do time vermelho e negro, camisa aberta.
Antes da escola, levava a marmita ao pai. Pegava ônibus, passava por baixo da roleta e se tinha lugar, sentava-se à janela. A cidade é linda, a avenida correndo perto do mar, aquele vento no rosto. Nem se lembrava de casa, de livros, cadernos, queria ser marinheiro e viajar naquele navio. Todos os dias ida e vinda. O pai orgulhoso de ele já andar sozinho, freqüentar a escola para ter um futuro, não quer o filho comendo cimento, respirando cal.
Quando não tinha aula, ficava mais tempo na construção. Com o carrinho que levara, as tábuas eram pistas de corrida; montes de areia, os obstáculos que faziam o carro voar; as telhas, escuros túneis. O amigo do pai lhe dera um carrão com controle remoto e a brincadeira se tornara melhor. Fazia aquela miniatura de ferrari correr, bater, dá ré com velocidade, girando pra lá e pra cá. Esquecia o mar e sonhava-se piloto de Fórmula 1.
O pai trabalha até o meio-dia do sábado. Domingo é dia de praia, tão perto que vão de bicicleta, sol queimando, pelada na beira d'água, ginga com tapioca. O amigo do pai compra picolé, pipoca, brinca n'água no meio das crianças. É cheio de moda, em todas passa bronzeador sob as graças do pai que manga do colega sem filhos.
Sentado no caixote observava o pai comer da marmita, quando começou a se sentir mal, correndo pra trás dos tapumes. Foi aqueles pastéis, tem certeza. O Deda correra, segurando-o, apoiando-lhe a barriga. Além do mal estar, sentiu outra coisa espinhando-lhe as pernas. Ergueu-se rápido e quis correr. Deda o puxara e dissera para não ter medo. Entregou-lhe dinheiro para sarar e nada de contar ao pai que pode perder o emprego. É segredo deles.
Quando entra no ônibus só pensa naquele navio, pois quebrou o carrão que ganhara. Quer ficar perto do pai, mas ele manda-o ao andar de cima com Deda onde a vista é bonita. De lá não vê nada, as pernas querendo derrubá-lo de tanto tremor. No caminho dá a moeda ao mendigo. Na escola não escuta nada que a professora diz, na hora do recreio danou o murro em Pedrinho que veio tirar onda. Vai de castigo, em casa ainda tem mais, a boca fechada, os olhos queimando de sal. É João e Maria perdido na floresta.
Ele diz que não quer ir deixar a marmita, mas a mãe diz que vai e acabou-se a estória. Senta-se à janela e o mar parece chuva forte na calçada. O pai briga pelas notas vermelhas na escola, pedindo que Deda dê conselhos a esse menino que de uma hora pra outra não liga mais pra nada, parece doente, toda noite acorda gritando e nada diz. O amigo pede calma e leva o menino pra conversar nos andaimes, puxa sua cabeça sobre o colo e alisa-lhe os cabelos. Agora vai ser diferente, é só um carinho, depois mal respira sob o peso da mão naufragando. Tosse e vomita. Desce feito bala, cego, surdo. Doído.
É domingo, dia de praia. Espera. Com gesto de cinema, pula do muro ao ver subindo a rua um homem suado, boné do time vermelho e negro, camisa aberta. Corre, corre, dobra na segunda esquina e entra. O que lhe fizeram tem um nome difícil, ele viu ontem na reportagem da televisão, mas não esqueceu e chega com ele na ponta da língua na frente do polícia.

Comentários

maria olimpia disse…
Puxa!Um soco no estômago da gente. Mas tão belo, do jeito que você escreve,

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

Leão ao meio-dia

O leão apareceu no meu caminho ao meio dia em plena avenida, carros e gente passando em linhas retas e transversais. Quando pus o pé na faixa de pedestre, olhei o sinal, levantei o olhar: lá estava a fera, à espreita, prontíssima a me devorar! Sua roupa vermelha alardeava ainda mais suas intenções - não segundas, mas primeira e única: me derrubar ali mesmo. (Se o momento não fosse tão trágico, eu teria rido: aquele leão vestido de vermelho era uma pantomima ridícula de uma tourada servilhana, fazendo da avenida uma arena, certamente esperando ansioso o Olé da multidão!). Atônita pela surpresa, recuei. O pé voltou em câmera lenta para a calçada e meus olhos relâmpagos relancearam ao redor para ver se alguém estava tomando alguma atitude. Nada. Ninguém deu a mínima para o leão, todos passaram a faixa tranquilamente, prestando atenção aos carros, ao semáforo e tomando cuidado para não atrapalhar a travessia do outro. O leão lá. Claro agora que o alvo era eu. Mas, o que diabo aquele leão t...

De amOR e de temPO

    Ainda quando estudava o antigo ginasial, uma professora de Português, interessada em que os alunos gostassem de ler e apreciassem os clássicos, passou como tarefa de avaliação uma redação sobre o texto  AMOR MENINO par te II do Sermão do Mandato – mas isso só soube muito depois já na faculdade - do Pe. Antonio Vieira. Agora, imaginem a dificuldade de adolescentes nos idos final dos anos 60 em cumprir essa tarefa. O que sabíamos do amor? Nada. Do tempo muito menos. O amor era em preto e branco nas fotonovelas que eu comprava no sebo na banca da feira livre, hábito também o das minhas amigas com quem trocava livros e revistas, caso contrário não leríamos nada. Apesar dessas imagens de amor, não lembro se as conversas já rondavam assuntos de namoro, casamento. Acho que não, pois éramos àquela época imaturas para tais assuntos. O universo ainda girava em volta de livros, estudar para provas, sorvetes, ouvir música e meninos não faziam parte do grupo. Aliás, eram olhados...

E por falar em saudade...

Há exatamente 28 anos entrava numa sala de aula pela primeira vez. As aulas do estágio não contam; contam esses anos que vivi rodeada de alunos a quem pude realmente chamar de meus alunos. Como tudo que é novo, naquele dia tive medo. Não sabia o que encontraria e sentia que o aprendido na Universidade não seria bastante. Saber dá aula é completamente diferente do saber o que ensinar. Saber o que ensinar é indispensável, mas saber o como é uma aprendizagem que transcorre no decorrer do tempo, através dos acertos e dos erros cometidos. Na época eu sabia o que ensinar, não como deveria ensinar. As teorias aprendidas eram palavras e palavras que não se aplicavam ali à frente daquele mundo de alunos, que, independente das idades, têm como passatempo predileto tirar o juízo do professor. E se vai tentanto: o bonzinho não dá certo, porque eles levam na bagunça; o tirano não dá certo porque eles fazem de tudo para sair da sala e tirar, no dizer deles, !a moral" do professor. A medida cer...

SuSSuRRo

  A   mão corta a escuridão do quarto no afastar da cortina. A luz do poste lança sombras na parede. Sobre a cama uma indumentária de cigana a contempla. Não sabe como chegara ali.  Sonho.  Como sempre o relógio a acorda às 7 horas. E como de costume, pula da cama, termina de acordar sob o chuveiro, veste-se apressada, come alguma coisa, toma duas xícaras de café para acordar e sai. Não mais que 40 minutos se passara. Faz a maquiagem entre uma parada e outro nos sinais. Sons de buzina, freadas colaboram para o seu despertar. Depois de 40 minutos entre carros, 20 minutos dando voltas no quarteirão em busca de uma vaga, estaciona, desce do carro, bate a porta e caminha em direção ao prédio. Ao atravessar a rua, percebe que está sem bolsa. Assustada, pensa que foi assaltada, mas se dá conta que mal saíra do carro. Sem bolsa, o pensamento pula para a chave. Onde deixara? Dentro da bolsa, dentro do carro. Retorna. Porta destravada, pois a chave ficara na bolsa. No banco...

LeTRitude

Depois de vários meses, terminei a leitura do livro " A menina que roubava livros " do australiano Markus Zusac . Mesmo gostando da narrativa, não sei por que demorei tanto para concluir sua leitura, atropelando-a com outros livros. A estrutura do livro é soberba, uma aula de teoria literária para os que acreditam em Paulo Coelho como o mago das letras neste século! Não há uma temática nova. Relatos ficcionais ou não sobre a vida nos países em guerras, sejam elas as de agora ou as de antanho, proliferam aos milhares. O que o nazismo causou à população mundial, notadamente à européia, e amargamente aos judeus e às minorias, sempre será um assombro e a personalidade de Hitler já rendeu tratados tanto sócio-políticos como psicanalíticos. O fato de a narradora ser a morte não é assombroso, embora seja inusitado. E aí reside o primeiro mérito do livro: não adianta correr para as inovações tecno-científicas em busca de elixires da imortalidade, um dia ela virá e nos colocará sobre...