Pular para o conteúdo principal

EnFIM, a diva!

Depois de seis anos, dolorosa ausência para os ardorosos fãs, a diva Marisa Monte apresentou-se dia 09 no Machadinho para uma platéia bem comportada que cantou todas as músicas, mesmo as dos discos mais novos que não têm um hit popularizado por novela, como Velha Infância, que abusou, apesar da beleza da música (música posta em novela é uma praga: beneficia o cantor por um lado e estraga nosso ouvido por outro!).
A tão malfadada acústica do ginásio não prejudicou em nada a apresentação daquela moça mirradinha, cor de leite, que durante o show passou várias vezes as mãos pelo cabelo numa tentativa de domar a mata em meio a um calor de verão e de refletores. A acústica não prejudicou por uma razão simples e direta: quem sabe, canta; quem não sabe, põe a culpa no equipamento, no local e etc. (Acústica deficiente só foi sentida num pequeno solo de trompete, que ficou parecendo um retinir agudo de apito de trem).
A iluminação, criativa e esteticamente bela, adaptada para um show em ginásio, encantou os desavisados que costumeiramente vão ao Machadinho e foi razoável aos assíduos shows da Vila, do Imirá, onde a iluminação feérica e o público todo em pé fascinam porque se pula e se dança, às vezes até numa pseudo-idéia de show "massa".
Marisa Monte tem construído uma carreira, ao longo de 19 anos, caracterizada como eclética, adjetivo que colou nela como chiclete e que ela, sabiamente, aproveita criando mistérios artísticos e pessoais. Quem sabe o nome do filho da Marisa, hoje com quatro anos? Mano Vladimir (quem me disse foi um colega fã de carteirinha!); o nome do pai da criança, do atual namorado? Dona de sua própria gravadora, grava o que quer, quando quer e com quem quer. E a parceria Arnaldo Antunes, artesão da palavra por natureza, tem rendido boas letras, embora o virtuosismo às vezes atrapalhe. Mas o que importa?
No palco o que importa é ouvir aquela voz refinada em aulas de canto lírico, que no primeiro disco ao cantar South American Way nos fazia lembrar a voz de Billie Holiday, ídolo confessa da cantora, e fazer acreditar que teríamos uma cantora especialista em jazz, mesmo que no mesmo disco houvesse Chocolate e Negro Gato, populares até dizer basta!
O que afirma outra característica da cantora que a moça é: o popular ao ser interpretado por aquela voz aveludada (olha o clichê aí, gente!) transforma qualquer música num clássico, como também aconteceu com a música de pastoril Borboleta.
No público, coisas de sempre: fulaninho emburrado numa evidência que estava ali só para agradar a namorada, preferindo ter gasto os 50 reais dos dois ingressos em outro programa; outro fumando apesar dos declarados abanos de mãos dos vizinhos; um outro que bebeu todas e quase cai arquibancada abaixo, se não fosse amparado pela namorada; gente ligada na rua, nas pessoas, escutando a música sem ouvir, olhando o show sem ver, pensamento em outras dores; outra, enlouquecida, procurando alguém, celular na mão, em pé acenando à escuridão e à multidão, e ainda quem reclamasse de todas as músicas, já que não sabia cantar nenhuma! Eu, por mim, fiquei rouca de cantar, braços doídos de balançar e feliz da vida pelo show e pela companhia. Aliás, um crédito à companhia: se não enchesse tanto a minha cabeça para ir, não teria ido! Sorte minha que não fui teimosa!
Ao final do show, um até breve para a esperança dos fãs que esperam vê-la em tempo menor do que esses seis anos passados. Mas, fã quanto mais demora a ver o ídolo, mas fã fica, pois é necessário continuar acreditando que
"Ela vai voltar, vai chegar/E se demorar, I'll wait for you/Ela vem, e ninguém mais bela/Baby, I wanna be yours..."
Forever.
Ave, Marisa!

OBS.: O google, pai de todas nossas necessidades virtuais, registra mais de 3 mil fotos da cantora. Todas devidamente protegidas, queridos! Mas, aguardem, scanner existe para quê? Como disse anteriormente, fã que é fã é uma praga! tanto fez que me conseguiu uma foto do show. A foto é de Canindé Soares, fotógrafo natalense, e a procura deve-se a Flávia que insistemente ficou fuçando e hoje, dia 11 de março, eu ponho aí.

Comentários

Anônimo disse…
"Mais uma vez eu vou te deixar
Mas eu volto logo pra te ver
To com saudades no meu coração

Mando notícias de algum lugar..."

Delícia de show! Salve salve Marisa!!!!!!

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

Ressaca sem carnaval

Sem tempo, sem inspiração, sem saco para escrever sobre as ruas vazias no carnaval, sobre o céu nublado que vejo da janela, sobre a cerveja da qual bebi só um copo, do filme recomendado que verei hoje à tarde, do trabalho que trouxe para fazer e não fiz, das minhas tristezas antecipadas por uma ausência que ainda não é, pratico o não escrever. Por isso tudo, é melhor pensar em nada. É melhor lembrar com saudade de um tempo quando as frases de O Pequeno Príncipe tinham significado. Hoje, diante de tanta violência, de tanto consumismo, de tantos ups, palavras e atitudes deletáveis, o Exupéry não teria cacife para competir com o mundo virtual (do qual me sirvo), talvez nem mesmo com o Paulo Coelho & Cia. Uma pena, pois o essencial ainda continua invisível aos olhos!

Entre Ser e o SeR

Todos os dias ao acordar, a angústia amenizada pelos dois lexotans tomados à noite volta com carga renovada assaltando-o de supetão. Parece uma mão empurrando-lhe peito adentro uma desesperança que no decorrer do dia quase não o deixa realizar as tarefas normais do trabalho, as conversas banais com os colegas. Sabe-se um homem antigo. Não de idade. Antigo por dentro como se nele vivessem todas as dores do mundo, além de suas próprias. Herança possível de um tempo adolescente quando vivia entre monges naquele casarão antigo e úmido, onde o pai lhe enfiara, tentando encaminhá-lo para viver sonhos que não eram os dele. Não teve voz. E até hoje duvida se tem alguma! A rotina entre preces e meditações fizera-lhe um jovem taciturno, não temeroso a Deus, mas verdadeiramente acovardado diante de uma figura barbuda, velha, sentada com um cajado à mão esquerda, julgando, julgando. (Muitos anos depois, ao ver em um livro o deus mitológico, viu que a figura correspondia exatamente à idéia que faz...

Represa

Quando Isaura enlouqueceu, todos se surpreenderam. Nada em seu comportamento prenunciava a escuridão. Eles não sabiam que se enlouquece sem alarde, sem deixar rastros nas calçadas, sem gritar em amplificadores. Eles não sabiam que se enlouquece nas sombras. A camisola sobre a cabeça joga Isaura na normalidade construída cuidadosamente diante do espelho. Água no corpo, roupa limpa, desenhada no rosto a fantasia de há muito. O cheiro do café invade os cômodos ecoando os gritos de quem já se foi. Na imensa casa, apenas a mãe, ela e os empregados. Três: algoz, vítima, testemunhas; cozinheira, arrumadeira, jardineiro. Pagos pelos irmãos como paga a quem restou. Não é mais do que isto, não há ali mais do que isto: restos. Espremida entre os mais velhos e os mais jovens, foi ficando quando as despedidas se tornaram comuns. No quarto antes dividido com duas irmãs foi sobrando espaço preenchido com livros, papéis, caixas, um velho baú herdado da avó. À chave guardava ali o seu pranto, seu canto...

Lady Lu

Tenho uma amiga que não conheço, com quem tenho, contra todas as previsões contrárias possíveis, algumas afinidades, por assim dizer, "mediúnicas" (quem me perdoem os kardecistas). Seu nome é luz, a origem latina significando luminosa, por que luz ela é. A poucos metros da sua casa baiana, ela alcança o mar, onde lava os pés, às vezes mergulha, e rotineiramente o contempla como se contemplam as coisas grandiosas da vida: maravilhada e inquisitivamente. Naquele espelho d'água, ela espera vê Deus e se pergunta vezes sem conta o porquê da crueldade, dos desatinos humanos; também agradece as surpresas boas, as dádivas que a vida lhe oferece e ali, naquela contemplação, sente-se pequenina, pequenina diante do poder divino. Minha amiga tem o dom da diplomacia. Não pode ver fogo, seja verbal, "escritural", cara a cara, que sai logo apartando os contendores armada de uma mangueira imensa carregada de palavra afáveis, conciliadoras. Nunca a "li" com raiva, tamp...

LeTRitude

Depois de vários meses, terminei a leitura do livro " A menina que roubava livros " do australiano Markus Zusac . Mesmo gostando da narrativa, não sei por que demorei tanto para concluir sua leitura, atropelando-a com outros livros. A estrutura do livro é soberba, uma aula de teoria literária para os que acreditam em Paulo Coelho como o mago das letras neste século! Não há uma temática nova. Relatos ficcionais ou não sobre a vida nos países em guerras, sejam elas as de agora ou as de antanho, proliferam aos milhares. O que o nazismo causou à população mundial, notadamente à européia, e amargamente aos judeus e às minorias, sempre será um assombro e a personalidade de Hitler já rendeu tratados tanto sócio-políticos como psicanalíticos. O fato de a narradora ser a morte não é assombroso, embora seja inusitado. E aí reside o primeiro mérito do livro: não adianta correr para as inovações tecno-científicas em busca de elixires da imortalidade, um dia ela virá e nos colocará sobre...