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Entre Ser e o SeR

Todos os dias ao acordar, a angústia amenizada pelos dois lexotans tomados à noite volta com carga renovada assaltando-o de supetão. Parece uma mão empurrando-lhe peito adentro uma desesperança que no decorrer do dia quase não o deixa realizar as tarefas normais do trabalho, as conversas banais com os colegas.
Sabe-se um homem antigo. Não de idade. Antigo por dentro como se nele vivessem todas as dores do mundo, além de suas próprias. Herança possível de um tempo adolescente quando vivia entre monges naquele casarão antigo e úmido, onde o pai lhe enfiara, tentando encaminhá-lo para viver sonhos que não eram os dele. Não teve voz. E até hoje duvida se tem alguma!
A rotina entre preces e meditações fizera-lhe um jovem taciturno, não temeroso a Deus, mas verdadeiramente acovardado diante de uma figura barbuda, velha, sentada com um cajado à mão esquerda, julgando, julgando. (Muitos anos depois, ao ver em um livro o deus mitológico, viu que a figura correspondia exatamente à idéia que fazia de Deus!). Achava-se o maior e pior pecador do mundo, indigno de qualquer perdão, mesmo que não tivesse consciência por quais pecados era responsável (o que lhe parecia maior era a vontade enorme de sair dali, negar tudo que aprendia!).
Às vésperas de ordenar-se, numa visita ocasional à família, tomou diferente ônibus enveredando-se por outro caminho. O dinheiro levado no bolso deu-lhe uma pensão barata, sanduíche como a melhor comida durante uns dias. Nesse tempo, foi à cidade vizinha, escreveu para casa e pediu para o esquecerem, pois não queria aquela vida destinada pelo pai. A resposta foi um capanga batendo na porta do seu quarto, levando-o para casa. Foi todo o caminho calado da mesma forma que calado ouviu os gritos do pai e as chicotadas nas costas, lanhando-o todo. Sua mãe a um canto chorava.
Não voltou ao casarão. Empurraram-lhe um cavalo, uma perneira e um chicote de couro, soltando-o no pasto a tanger gado. Era apenas uma cabeça a mais no grande curral pertencente ao pai. Na verdade, era menos que uma rês. Era a vergonha da família. Calado, pensavam-no até mudo, deixou o tempo passar, maquinando um plano de liberdade, deixando que o rancor crescesse dentro de si. O temor de Deus tinha desaparecido. Agora pouco lhe importava se era pecador, se tinha pecado ou não. Que o mundo explodisse, mesmo que o levasse, não tinha a menor importância.
O contacto com a natureza, observando a vida dos animais e a precária situação dos moradores da fazenda aos poucos lhe afastou da órbita dos próprios problemas, despertando-lhe um humanismo que não sabia nele existir, concretizado nos pequenos auxílios prestados aos moradores, vítimas do autoritarismo do pai. Um tio ensinou-lhe o árduo trabalho, tirava-lhe de casa para ir à cidade ver gente, interessado em fazer-lhe namorar. Em algumas noites de sábado, ia com o tio aos bares, aos cabarés, embora o divertimento só o atingisse por fora. Por dentro, continuava o gosto amargo pela vida! Esse gosto ficou mais acentuado quando o tio começou a reclamar das atitudes que o irmão tomava, falando abertamente que seu pai não devia isso, não devia aquilo. O tio encontrara nele o depositário ideal para o seu próprio veneno!
Aos poucos percebeu quais eram as intenções do tio. Usá-lo descaradamente contra o pai, pois sabia de suas antigas mágoas, do silêncio que se estabelecera entre ambos desde aquele dia longe no tempo. A memória não apagara o fato, o rancor que ainda se abrigava no seu coração, mas não se deixaria usar, não tomaria para si as dores de ninguém, tampouco faria mal a alguém devido à raiva. No dia que fizesse algo, seria por ele. Nem mesmo pela omissão da mãe tomaria uma atitude, pois nela vivia a resignação sob o jugo de um marido prepotente, autoritário, um velho que não admitia nada além de suas próprias ordens.
Do pouco dinheiro que o pai lhe dava, e a mãe às escondidas, juntou o suficiente para escapar dali e tentar outra cidade. Agora o avião seria suas asas. Não era ignorante, para alguma coisa aquelas aulas no mosteiro serviriam, ainda mais que em muitos sábados em vez de ir aos bares, pagava aulas a um professor, fazendo ao final de cada ano exames supletivos que o governo oferecia na cidade. Ninguém sabia, mas ele estudara. Agora era sua vez de voar!
Num sábado foi sozinho à feira, pegou o ônibus para a capital e da rodoviária seguiu direto para o aeroporto. Pensava comprar a passagem lá mesmo. Sabendo que não vendiam, voltou à cidade, dormiu numa pensão e cedinho foi a uma agência onde comprou uma passagem para o primeiro vôo da tarde. Não interessava para onde ia nem o medo que sentia em viajar de avião, que só conhecia lá em cima quando passava assustando o gado. Viajou. Não escreveu, não deu notícia. Há vinte anos não sabe nada de casa.

Todos os dias a água fria do chuveiro lhe dói na carne, despertando-lhe para o barulho das ruas da grande cidade. Não mais tange gado, tem seus próprios empregados, dá suas próprias ordens e às vezes amaldiçoa o pai, pois percebe em seu tom de voz o mesmo autoritarismo paterno usado para os vaqueiros. Ameniza, mas por dentro sabe que não conseguiu tirar tudo de dentro de si. Soube lutar e para todos é um vencedor. Para si, é apenas um corpo envernizado de doutor, uma criança em busca do pai presente nas cicatrizes que lhe desenham as costas, um adolescente à procura de uma mãe que não teve coragem para defendê-lo. Sabe-se numa procura inútil. Sabe que todas as noites serão regadas a remédio, todos os dias serão encobertos pela máscara que há tempos usa.

Comentários

Fantasma disse…
E dizem que inferno não existe. Ora...
Anônimo disse…
De onde tirou a foto das bonecas de massa?

L. Santos
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