sábado, junho 30

A vida da palavra

"Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota..."
(MEIRELES, Cecília. Das Palavras Aéreas. In.: Romanceiro da Inconfidência.)

A cada batida do coração o homem pensa que ama. Se a palavra não existisse, como amaria o homem? A cada lágrima que do rosto cai, o homem diz que sofre. Se a palavra não existisse, como choraria o homem? A cada abraço apertado, imagina o homem a amizade. Se não se fizesse a palavra, como se irmanaria o homem? A cada palavra pronunciada finge o homem revelar-se. Se não houvesse palavras, que significado teria o homem?
Que significados teria o homem se as palavras fugissem do pensamento, migrassem de nossa alma, deixando-nos à deriva num oceano de silêncio, de gestos intraduzíveis? Seríamos menos homens. Seríamos um nada perdido numa escuridão inefável em busca de sons que pudessem nos traduzir, de letras que pudessem nos desenhar. Não seríamos homens.
A palavra nos distingue dos animais, dando-nos o meio ideal de expressão, forma que nos faz criar, descobrir, viver num mundo de sons criado para exaltar nossa diferença e superioridade. Superioridade que aliada à harmonia e compreensão projeta a paz; aliada ao egoísmo e à intolerância, fabrica a guerra. Pela liberdade defendemos a palavra da tirania, pelo pacifismo alardeamos a palavra amor.
Quando amamos, a intensidade do amor traduz em palavras nosso deslumbramento; ao sentir medo, buscamos na palavra o primeiro socorro; a alegria encontra sua manifestação traduzida em interjeições; o ser amado é mais amado ao ver no papel decifrado os seus dons; a violência é palavra mal escrita, o ódio é inexprimível em seu âmago, perversa alquimia da palavra grafitada em muros sujos que atestam nossa indignação diante da irracionalidade humana.
As inquietações da alma encontram na palavra o seu alívio numa terapia de descobertas, sustentando-se além de si na coragem para prosseguir. A palavra se agita e num redemoinho de emoções encontra refúgio, e na ânsia de salvar-se o homem sobrepuja-se à dor, tornando-se mais humano. Somos um amálgama daquilo que podemos expressar e do que no recôndito de nós se esconde, misto de privacidade e medo, pelo respeito que a palavra suscita, conscientes de sua importância.
O eco da palavra nos acompanha vida afora. Não sabemos do nome que receberemos, mas a palavra impregnada em nós dirá o que somos, dará rumo aos nossos passos e deles prestará contas a um criador que nos dirá a última palavra, a qual ressoará ad infinitum, transformando-nos nas palavras lembrança e saudade.
Sem palavras seríamos menos que mudos, menos que surdos – a estes as palavras bailam pelos olhos, dançam nas mãos, dando-lhes sons mágicos; seríamos menos que terra, menos que ar – a estes as palavras brilham nas gotas de chuva, nas cores do arco-íris, oferecendo-lhes dádivas da natureza; seríamos menos que fogo, menos que água – a estes as palavras se revestem de brilho, oferecendo-lhes ousadia e transparência. Sem a palavra seríamos meros expectadores espantados pelo maravilhoso espetáculo que a palavra vida encena sem que dele pudéssemos participar.

sábado, junho 23

METAde




Eu estou aqui.
Às vezes estou inteira
Às vezes em pedaços.
E cada pedaço de mim
me emociona
e me apavora
e me faz crer
que a vida não é só isto
que se vê por entre
frestas/festas.
É um pouco mais de pedaços
que se unem entrecortados
e que partem amedrontados
às vezes até emocionados.


sábado, junho 16

NaveG(E)aNTE

A sacola lhe pesa nos ombros. Na mão direita mais dois pacotes vagabundos em papel pardo lhe escorregam continuamente forçando-a de vez em quando a empurrar-lhes contra o corpo para não deixá-los cair. As compras se resumiram a um amontoado indigesto de enlatados, porque já não tem paciência, tampouco fogão e gás para cozinhar. Caminha pela rua e conta automaticamente os quadrados da calçada que faltam para alcançar a porta do prédio onde mora.
A sacola lhe pesa, mas não a tira nem por um momento do ombro, embora o peso e a alça fina cortante da bolsa já lhe deixem marcas vermelhas. Ali estão coisas que lhe são o mais precioso que tem e ela não deixa nem por breve minuto a bolsa escapar-lhe do alcance da mão e dos olhos. Ali estão vinte e cinco anos de trabalho.
Ao chegar em casa, abre os pacotes, arruma as coisas no armário, prepara um suco rápido e engole o sanduíche natural que comprara na lanchonete a caminho de casa. Coloca a sacola sobre o sofá e vai tomar um banho quente que possa lhe aliviar o cansaço do dia, deixando-se ficar sob o chuveiro, água e lágrimas se misturando, descendo pelo corpo ralo abaixo.
As lágrimas lhe parecem naturais, pois há muito estavam represadas no peito, contidas pelas obrigações do dia-a-dia, subjugadas à ordem dita a si mesma para não sucumbir àquela sensação dúbia de alívio e tristeza que já vinha sentindo. Agora não há por que não chorar, limpando alma e corpo.
Enxuga os cabelos vigorosamente, veste um velho roupão apesar do calor, abre as janelas e senta-se no chão da sala, puxando para perto a sacola. Antes de abrir, contempla sua forma e percebe que não há tanto ali guardado. Ri de si mesma, censurando-se por ter pensado que vinte e cinco anos era um tempo longo para guardar. Coloca a mão dentro da sacola e tateia os contornos das coisas que lá estão antes de tirá-las e arrumá-las uma a uma no chão. Pensa por um momento o que fará com cada coisa, mas, sem chegar a conclusão alguma, deixa para decidir depois.
De repente, a mão pára. Uma súbita agonia lhe atravessa o peito, deixando-a com medo. O que está ali dentro não lhe é desconhecido, pois ela mesma colocara, porém algo lhe turva a mente, uma sensação de finitude tomando-a por inteiro. Retira a mão da sacola e recosta-se na parede. A boca ressecada e uma súbita tontura são sinais de uma crescente ansiedade. Fecha os olhos e respira profundamente.
De que adianta abrir aquela sacola, alinhando no chão e depois numa prateleira o que ali está?, pensa agoniada. Aquele amontoado de coisas é apenas a parte material dos anos acumulados, são coisas perecíveis que o tempo dali a pouco vai corroer. São objetos que vão lhe atravancar ainda mais as prateleiras já cheias de livros, fotos, esculturas. Não, pensando bem, é melhor não ficar diante de tanta coisa espalhada impregnada de estórias. Basta a lição guardada dentro de si. Bastam-lhe as alegrias, as agonias, as amizades, o riso, o choro sentidos durante todo o tempo e que jamais lhe deixarão.
Levanta-se, fecha a sacola, envolve-a num saco plástico, fechando-o bem. Pendura a bolsa no prego mais alto na área de serviço, deixando à mostra aquele logotipo do lugar que para sempre estará com ela. E lembra de uma canção de Caetano Veloso, cujos versos a remetem ao poeta Fernando Pessoa:
"O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração, o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso...".

sábado, junho 9

ArrE!!!

Há anos que Roberto Carlos canta que "além do horizonte deve ter um lugar bonito pra viver em paz" e vez por outra o que queremos mesmo é fugir, deixar esse dia-a-dia em busca de um novo horizonte.
O danado é que o horizonte nunca está fixo, anda e anda, à medida que dele nos aproximamos. Nesse distanciamento queremos o horizonte quando o que está perto nos parece insosso, sem sentido, aborrecido, inclusive nós mesmos. Assim como o horizonte, também nossas carências e quereres nunca são os mesmos, mudando, mudando.
Podemos nos aborrecer pelas coisas mais corriqueiras ou por coisas vultosas. É aquela estória de se engasgar com uma formiga e engolir um elefante, dependendo muito de nossa resistência, do quanto de paciência já foi usado. É aquela gota que faz o copo transbordar.
Em momentos assim, melhor não escrever, não conversar, nem mesmo namorar, porque termina sobrando para quem está muito próximo. Trabalhar é um sacrifício porque as coisas cotidianas enchem o saco, ler é um virar de página para trás que dá dó! Melhor dormir!
Boa noite!

domingo, junho 3

La vérité

Ontem comprei o dvd de um filme lançado em 1957: Doze homens e uma sentença (com título em inglês bem sugestível à situação - 12 angry men), cuja sinopse é assim apresentada no site Cine Player: "Doze jurados devem decidir se um homem é culpado ou não de um assassinato, sob pena de morte. Onze têm plena certeza que ele é culpado, enquanto um não acredita em sua inocência, mas também não o acha culpado. Decidido a analisar novamente os fatos do caso, o jurado número 8 (Henry Fonda) não deve enfrentar apenas as dificuldades de interpretação dos fatos para achar a inocência do réu, mas também a má vontade e os rancores dos outros jurados, com vontade de irem embora logo para suas casas."
Já tinha visto o filme há cerca de três anos e ficara fascinada com o jogo de possibilidades para um mesmo fato que um dos jurados, no caso o oitavo, interpretado por Henry Fonda, vai desmontando e reconstruindo à medida que põe em dúvida as conjecturas apresentadas pelos demais. Evidencia-se a cada discussão que cada jurado opina tendo por base suas próprias vivências, suas mágoas e dificuldades, num jogo de transferência, uma vez que cada um vai vendo no acusado ora aquilo que condena, ora aquilo que gostaria de fazer com alguém, ou ainda o que sofreu de alguém. Preconceitos de toda ordem vão surgindo em meio a discussões que ficam cada vez mais acaloradas, pois os jurados terminam entrando em conflito um com o outro.
O que chama a atenção no filme, no entanto, é a questão sobre a verdade. O que é a verdade? Segundo Nietzsche não se pode definir a verdade, uma vez que não podemos ter certeza sobre nada, a verdade sendo um mero ponto de vista. Para alguns filósofos a verdade é uma propriedade; para outros, apenas uma ferramenta da nossa linguagem para que não nos percamos em tantas ilusões, sendo necessário um ponto de equilíbrio, se não completo, pelo menos referencial. Aristóteles pregou que a verdade é a adequação entre o que acontece na realidade e o que acontece na mente. Quer dizer, o pensamento cartesiano "cogito ergo sum" é aplicável, uma vez que se duvidamos, pensamos é porque existimos (ou vice-versa), fazendo com que a nossa verdade apareça a partir daí. Se o que está na minha frente é pau, visto pelos olhos como pau, registrado na minha mente como pau, então pau é! Caso insista em dizer que é pedra, melhor fazer como o sapo e ficar pela eternidade na beira da lagoa brigando que é areia, é água, é areia, é água.
Nesse nosso mundo onde tudo se tornou relativo, a verdade mais do que qualquer coisa, pois atrelada a um egocentrismo alarmante, é bom rever nossa escala de valores e tentar descobrir o que estamos colocando em cada patamar da pirâmide, pois contruir a própria vida sobre uma mentira, ou sobre ilusões, não levará a auto-realização nenhuma. E na ânsia de instituir nossa verdade como a única, ressuscitamos a torre de babel onde a cacofonia impera tomando a vez da tolerância e do respeito às diferenças.
Nesse sentido, voltamos ao conceito do que é verdade. Judas quando traiu Cristo será que achou que estava fazendo o certo a ele, Cristo? Pedro acompanhou Cristo um tempão, mas na hora do pega pra capar, disse que não o conhecia. Medo da verdade? Como, se ele era um dos mais entusiasmados pelos ensinamentos? Quais foram as verdades de Judas e de Pedro? Quais foram as verdades, em tempos mais modernos, de todos que desconfiavam, sabiam do Holocausto e mesmo assim fecharam os olhos? Que verdade existe quando nossos jovens matam desumanamente bebês, arrastando-lhes por ruas e a lei não os consideram ainda "maduros" para enfrentar um julgamento?
Nem Aristóteles, nem Nietzsche, muito menos os Busch da vida saberão nos dizer o quê nem por onde a verdade anda. Como responder a isso, se a verdade essencial vive apartada de nós que estamos muito mais preocupados com nossos umbigos, olhando nossos caminhos como se somente eles, por serem nossos, sejam a verdade absoluta? Nas miudezas de que a vida é feita, esquecemos constantemente das leis fundamentais riscadas a fogo por Deus no Monte Sinai, embora até isso possa ser questionado porque o homem sempre teve a dúvida como cerne de muitas conquistas e angústias. Para Allan Kardec, a lei mosaica no que se refere aos dez mandamentos era divina, enquanto que todo o resto dito ao povo durante o exôdus foi criado por Moisés para controlar um povo "ainda turbulento e indisciplinado", no qual um "senso moral e o sentimento de uma delicada justiça eram ainda pouco desenvolvidos".
Mesmo que tenhamos uma verdade e que possamos impôr a ela um atenuante quando se tratar do respeito à verdade do outro, estaremos sempre num dilema porque nenhuma garantia de certeza nos será dada, principalmente quando da vida também aprendemos suas matreirices traduzidas na capacidade de manipulação. E aí está uma outra grande façanha do filme: o oitavo jurado era o único a ter dúvida sobre a culpabilidade do réu e naquelas horas, confinados na sala para a decisão final, ele consegue fazer com que todos mudem suas convicções. Até que ponto ele estava certo em defender a inocência do rapaz? Quem poderia garantir que ele não manipulou todos os argumentos para salvar o réu substituindo culpa por inocência criando uma outra verdade?
No final, somente a lucidez poética do grande Drummond é capaz de esclarecer um tema como a verdade:
"A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada uma optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia."