sábado, dezembro 29

À sombra

Sempre diante de algo que não compreendo, penso em algum quadro de Salvador Dali. É o incompreensível belo, aquela coisa que se olha, olha na tentativa de entender. E não se entende. É bonito de se ver, sente-se que ali se desenha algo a ser entendido, mas a compreensão está muito além. É como algumas coisas da e na vida. Está bem ali, frente aos meus olhos, e olho, olho, dou voltas tal peru e não compreendo. Não que não compreenda totalmente; o que compreendo é ferro, é amargo. Melhor seria não compreender.
Na semana uma amiga me manda um bilhete e nele me avisa que é na sombra que melhor se produz. Ela poderia estar se referindo a uma produção composta de palavras ordenadas em laudas e laudas, embora desconfie que não, pois ela é dada a umas reflexões acertivas nas entrelinhas daquilo que escreve. No primeiro caso, ela errou. Há semanas uma estória ronda a minha cabeça e não consigo terminar. A idéia original tomou tantos rumos que parei e espero um insight. Tomou tantos rumos porque muito autobiográfica e a alma acha feio o que é espelho. No segundo caso, sem saber ela acertou, porque a produção se fez dentro de mim num torvelinho de sal, horas de silêncio, voltando páginas do livro nas mãos.
O porquê é antigo. Nossas dores maiores são as antigas, as que não criam limo, polidas incessantemente pela nossa falta de sabedoria em enterrá-las. Quando as pensamos enterradas, eis que de repente elas se agigantam, tais espectros saindo de covas rasas onde as pusemos fingindo resolvidas. Mesmo antigas, doem como vez primeira.
Na impossibilidade de resolvê-las - e hoje sei assim ser! - o bom senso me manda suportá-las, sublimá-las, na verdade. Encontrar aquele jeito de com elas conviver de modo que não fiquem atravancando meu caminho. Sublimar uma dor é criar outra, esvaziada apenas por meio de uma catarse feito imaginária cachoeira sobre terrenos áridos, pois se áridos, água não têm. Se já andaram em busca de espaço para o desenho da vida, ando à procura de água.
Tenho uma sede que não cala; uma fome que não cessa. Meus pés nem querem andar tantas estradas, mas a cabeça ainda pensa soltar-se, assim como patos selvagens puxados pelo pequeno príncipe. Nem chorar choro tanto, vulcão preso ao peito rebentando-se em músculos pesados, noites mal dormidas. Minhas mãos tentam e pelos dedos escorrem antigas vozes de recriminações. Pessoas há exímias fabricadoras de culpa sem que pecado algum tenha sido cometido. A conta nunca é saldada por que reside um ativo infinito de força que, embora sugado, multiplica-se.
Acerto ponteiros para solidões. Arrumo a casa e a mesa, cama posta. Livros serão incêndios; discos, fragmentos de plásticos. Cacos e restos. Nada mais.

sábado, dezembro 1

Rendição

Mal percebe as pessoas a sua volta. A alta umidade acentua a sensação claustrofóbica da sala abarrotada de flores. Olha em torno e vê tudo através de densa névoa. A sensação de flutuação permanece como se estivesse prestes a cair. De repente, lembra-se: há oito horas que não ingere nada sólido, um açude de dor alimentando sua vida sedenta, insalubre e insípida. Uma mosca bate-lhe no rosto e num aceno rápido tenta alcançar-lhe, afastando-a. Inútil. A mão não obedece ao seu comando, dormentemente assentada sobre o peito. Tentando movimentar o braço, de repente as lembranças lhe jogam a um passado que pensara esquecido.
A sopa esfria sem fome depois que a mosca sentara na beira do prato insinuando-se sem pudor. Toma o café, escolhendo o pão mais queimado da cesta sobre a mesa. Todos à mesa calados, exceto o pai. Os irmãos não ousam nada dizer, a mãe ocupa-se em dar colheradas à irmã menor que mal alcança a altura da mesa. O pai seguindo a rotina de todos os dias espalha no ar seus gritos, sua agonia. Hoje a reclamação cai sobre sua falta de fome, suas brincadeiras com o pão, tirando-lhe a casca, molhando o miolo no café, deixando a xícara com bolotas de trigo que naufragam. Náufrago, sente-se náufrago naquele mar em que se transformou o que antes era um lar depois que o pai se dera à bebida como quem se dá a uma amante, faminto, instintivo, trôpego e cego.
Sente saudade do pai carinhoso, aquele que nos sábados à tarde levava a família para passear, do pai que fazia o domingo ser de praia, refrigerante e frango assado, a velha Rural Willys aos solavancos por ruas esburacadas. O mar abria suas águas oferecendo-lhes também um mundo mágico de felicidade imorredoura. Ilusões. Tudo acabara quando o pai se entregou à bebida definitivamente, deixando-a triste, os filhos perdidos espectadores de brigas, até o tapa final marcando o rosto e a vida da mãe. Saíra de casa pra nunca mais.
Sua infância se transformou de repente em responsabilidade no cotidiano de assumir papel de adulto perante os irmãos na incapacidade da mãe que se dera aos remédios como se dá a um amante, faminta, instintiva, trôpega e cega. Inútil ilusão. Amantes ambos os pais de realidades coloridas e fantasmagóricas. Não havia bebida, remédios que pudessem realizar milagres de cuidar dos irmãos, de si. À falta de opção reagira com qualquer trabalho que desse dinheiro, comida, calçado. Cresceram.
O mal-estar aumenta à medida que os pensamentos se aprofundam na dor antiga. O lugar desconfortável não lhe permite um segundo de relaxamento, quanto mais que percebe os olhares de alguns em si. Hienas, urubus! Será a sobremesa de todas as conversas amanhã. De todos ali, a quem pode chamar de amigo, a quem confiar sua angústia? Toda a vida sentira-se só arrodeada das solicitações dos irmãos, das necessidades do marido e dos filhos.
Perguntara vezes sem conta como sobrevivera a tanto. Perdição de pai e mãe deixara sinais no rosto e na alma. A família produzira de doutores a bandidos. Ela, ao casamento se vendera por viagens, carros, mansão, mascarados pelo tratamento da mãe. Há muito a mãe sob luxo de mármore, pai sob terra anônima. Da futilidade da vida, os filhos não a salvaram, entregando-se faminta, instintiva, trôpega e cega a amantes. Ilusões.
Os rostos dentro da névoa parecem perplexos, os óculos escuros refletindo o sol da tarde lá fora. Pairando sobre a sala, escuta pedaços de conversas. Uma fisgada no estômago lhe relembra da falta de alimento. Ao forçar a mente, vê-se na noite anterior matando a sede na bebida, a fome no colorido dos comprimidos que engolira a mancheia. Deixara o marido depois dos filhos crescidos e à bebida e aos remédios se entregara faminta, trôpega e cega na substituição dos amantes. Inútil.
Vê a filha mais velha se aproximando e tenta afagar-lhe o rosto banhado em lágrimas que não entende, mesmo sabendo-a dona de uma sensibilidade à flor da pele. A mão ainda sobre o peito não lhe obedece. Intrigada, abre a boca, grita pela filha, mas som algum lhe escapa. De repente se lembra: de todas as entregas que fizera na vida, esquecera de se entregar ávida, mármore e ferro, confiante à vida. Inútil! Preferira entregar-se trôpega e cega à morte como se dera ao amante!

sábado, novembro 24

Miserere

Sentado sobre o muro, pernas balançando, observa a rua. Com gesto de cinema, muda a aba do boné para trás. A luz do sol confere ao rosto do garoto uma alegoria de pierrô. Camiseta, da bermuda larga sobressaem as pernas compridas balançantes, nervosas sobre o muro. Espera.
O muro não é tão alto. Em pé na calçada, bastou-lhe um impulso para alcançá-lo. Em casa, os irmãos assistem a desenho animado, a mãe prepara o almoço. Seus onze anos parecem pesar-lhe no olhar perdido no fim da rua. Quando pensa na vida, não sabe se pensa na vida. A maturidade não lhe chega a tanto. Olhar fixo na rua lá embaixo muda seu pensar para um prédio em construção, um carro de mão pesado de areia, barro, cimento no movimento de tábua acima, tábua abaixo. Um homem suado, boné do time vermelho e negro, camisa aberta.
Antes da escola, levava a marmita ao pai. Pegava ônibus, passava por baixo da roleta e se tinha lugar, sentava-se à janela. A cidade é linda, a avenida correndo perto do mar, aquele vento no rosto. Nem se lembrava de casa, de livros, cadernos, queria ser marinheiro e viajar naquele navio. Todos os dias ida e vinda. O pai orgulhoso de ele já andar sozinho, freqüentar a escola para ter um futuro, não quer o filho comendo cimento, respirando cal.
Quando não tinha aula, ficava mais tempo na construção. Com o carrinho que levara, as tábuas eram pistas de corrida; montes de areia, os obstáculos que faziam o carro voar; as telhas, escuros túneis. O amigo do pai lhe dera um carrão com controle remoto e a brincadeira se tornara melhor. Fazia aquela miniatura de ferrari correr, bater, dá ré com velocidade, girando pra lá e pra cá. Esquecia o mar e sonhava-se piloto de Fórmula 1.
O pai trabalha até o meio-dia do sábado. Domingo é dia de praia, tão perto que vão de bicicleta, sol queimando, pelada na beira d'água, ginga com tapioca. O amigo do pai compra picolé, pipoca, brinca n'água no meio das crianças. É cheio de moda, em todas passa bronzeador sob as graças do pai que manga do colega sem filhos.
Sentado no caixote observava o pai comer da marmita, quando começou a se sentir mal, correndo pra trás dos tapumes. Foi aqueles pastéis, tem certeza. O Deda correra, segurando-o, apoiando-lhe a barriga. Além do mal estar, sentiu outra coisa espinhando-lhe as pernas. Ergueu-se rápido e quis correr. Deda o puxara e dissera para não ter medo. Entregou-lhe dinheiro para sarar e nada de contar ao pai que pode perder o emprego. É segredo deles.
Quando entra no ônibus só pensa naquele navio, pois quebrou o carrão que ganhara. Quer ficar perto do pai, mas ele manda-o ao andar de cima com Deda onde a vista é bonita. De lá não vê nada, as pernas querendo derrubá-lo de tanto tremor. No caminho dá a moeda ao mendigo. Na escola não escuta nada que a professora diz, na hora do recreio danou o murro em Pedrinho que veio tirar onda. Vai de castigo, em casa ainda tem mais, a boca fechada, os olhos queimando de sal. É João e Maria perdido na floresta.
Ele diz que não quer ir deixar a marmita, mas a mãe diz que vai e acabou-se a estória. Senta-se à janela e o mar parece chuva forte na calçada. O pai briga pelas notas vermelhas na escola, pedindo que Deda dê conselhos a esse menino que de uma hora pra outra não liga mais pra nada, parece doente, toda noite acorda gritando e nada diz. O amigo pede calma e leva o menino pra conversar nos andaimes, puxa sua cabeça sobre o colo e alisa-lhe os cabelos. Agora vai ser diferente, é só um carinho, depois mal respira sob o peso da mão naufragando. Tosse e vomita. Desce feito bala, cego, surdo. Doído.
É domingo, dia de praia. Espera. Com gesto de cinema, pula do muro ao ver subindo a rua um homem suado, boné do time vermelho e negro, camisa aberta. Corre, corre, dobra na segunda esquina e entra. O que lhe fizeram tem um nome difícil, ele viu ontem na reportagem da televisão, mas não esqueceu e chega com ele na ponta da língua na frente do polícia.

terça-feira, novembro 13

De escritos e fogueiras

Não tenho lembrança de quando comecei a escrever, mas foi aí por volta dos 12 anos. Era um caderno tipo brochura, capa verde, pequeno e eu escrevia só de um lado da folha. Achava ruim escrever no verso. Usava caneta e achava o máximo, escrevendo com cuidado redobrado para não precisar apagar. Minha letra não era semelhante com a que tenho hoje; eu treinava arduamente para imitar a letra de uma professora da quarta série que tinha uma letra desenhada, não era feita à mão de tão perfeita. Claro que não conseguia fazer igual. Anos depois mudar a letra foi o primeiro sinal de identidade consciente: comecei a colocar letras maiúsculas no meio da palavra, coisa que faço até hoje e dando aula era a primeira lição aos meus alunos: não escrevam como eu; esta letra colocada aqui é um erro! Inútil! Nem eu deixei de escrever assim, tampouco livrei alguns de pegarem a mania da professora!
Eu escrevia de tudo. Passou na cabeça, pousou no papel. Não deixava ninguém ler, embora desconfiasse que minha mãe o fizesse quando eu não estava por perto. Depois tive certeza que ela lia, porque vinha com aquelas conversas arrodeadas, querendo saber o que eu nem falado tinha. Mãe é tudo igual, filha e privacidade são coisas que não combinam! Esse foi o primeiro AI-5 da minha vida. Após a confirmação das leituras desautorizadas, o que escrevia já tinha um certo encobrimento, metáforas sem saber que eram. Mas, continuei. De tanto escrever já não podia me dar ao luxo de fazê-lo só de um lado da folha, pois dinheiro para gastar com caderno era raro!
Da mesma forma que tenho as fases de escrever, tenho as fases de rasgar. Não tenho nada daquela época! Lá pelos 20 anos fiz a primeira fogueira do que tinha escrito, dos cartões, páginas de revistas, bilhetes que tinha guardado, enchendo gavetas. Não era mais aquela menina, não me reconheci naqueles escritos e não me doeu queimá-los. Embora não tivesse mais a preocupação de que alguém fosse ler, já casada, meu marido não mexia em nada que pertencesse só a mim, escrevia com um sensor interno, aloprada pela doença e morte do meu pai, pelas aulas no curso de Letras, o início na profissão, acreditando que autores, planos de aula, teorias literárias, freudianas iriam me dar a leitura necessária para a minha escrita. Depois, muito depois, compreendi que a leitura ajuda, mas a escrita é um ato solitário, tanto a que se faz no papel quanto a que se vai rabiscando pela vida!
O hábito de escrever me ancorava nas voltas do que eu pensava. A palavra escrita me dava a sensação de ter onde me segurar, caso eu me desequilibrasse (e quando eu desequilibrava!). Era o que eu refletia, extremamente subjetivo, mas era meu, era o meu rumo na tentativa de não errar, de não me deixar ser pega de surpresa. Paradoxalmente, as palavras me ensinaram a não temer o erro, a compreender que surpresas, além de inevitáveis, são necessárias! Escrever era uma catarse e dúvidas, tristezas, anseios jaziam no papel; vivas, as palavras denunciavam a vida de uma jovem senhora à beira de um ataque de nervos.
O ataque veio em 1985 em plena leitura de
A Insustentável Leveza do Ser, quando uma noite acordei e vi um tigre sentado à beira da cama, olhando-me, olhos de fogo na escuridão. O cão da estória do Kundera assumira duplamente o papel de uma cadela que eu tinha na época e dos medos a me arrodear. No dia seguinte, fui ao médico e pílulas goela abaixo dormi bem uns dias. Quando a primeira cartela terminou, joguei fora o resto e encarei o tigre. Entre outras coisas, fiz outra fogueira com os escritos e também não me doeu. Eu parecia cobra mudando de pele! (E o livro na minha estante conserva a sensação num poema escrito na última página!).
A cada mudança, uma fogueira queimava papéis e aquilo que andara me consumindo. Escrevia basicamente meu estado d'alma, um lado melancólico à moda Álvares de Azevedo. Não perdi o hábito de escrever, mudei a disposição, a forma, o meio. Quando bate a melancolia, hiberno e no máximo leio. Escrevo apenas dentro de mim, entrando e saindo de labirintos formados de palavras silenciosas. E quando me animo a escrever, vou nas palavras, nos personagens que construo, porque continuo cobra, mudando de pele e fazendo fogueiras. Hoje mostro o que escrevo, não sem alguma preocupação, pois esta se transformou nas metáforas conscientes que construo. Costurar os escritos em livro não me passa pela cabeça, embora dois livros digitados, encadernados com capa francesa existam: um de poemas com uma amiga; outro de crônicas memórias da minha infância dado ao meu sobrinho quando ele passou no vestibular para Jornalismo. Volumes únicos, eles (as pessoas e os livros) são donos dessas palavras, pois os originais não existem. O que escrevo no blog depois é impresso. Possivelmente material para a próxima fogueira.

sábado, outubro 27

Êh, vida de gado!

Não sei a quantos anos li A Face Oculta de Eva, livro da egípcia Nawal El Saadawi, que falava sobre a situação feminina na Índia, no Egito e em alguns países africanos, principalmente à operação para que das mulheres fosse negado o prazer sexual através da mutilação do clitóris. Prática ainda hoje em voga apesar de tanto conhecimento, tecnologia e da eficiente medicina do nosso tão exaltado século XXI.
O livro foi editado no início dos anos 70 e devo ter lido na mesma década. E já naqueles anos fiquei indignada por tal prática acontecer com a decantada liberação feminina em efervescência. No início desse ano li Uma Distância entre nós, da jornalista indiana
Thrity Umrigar e, por razões só um pouquinho diferentes, também fiquei indignada. Neste não há mulher sendo mutilada, mas o poder do macho é alarmantemente respeitado, esteja sua conduta certa ou errada. Para completar, li hoje (lá no salão, que é onde encontramos revistas vencidas e completamente dispensáveis) na revista Elle de agosto a matéria "A Índia perde suas meninas". Aí resolvi escrever.
Segundo a matéria, cerca de quinhentos fetos comprovadamente femininos são abortados por ano, porque as famílias pobres não podem se dar ao luxo de criar filhas, pois não há lucro nesse "investimento". Pelo contrário, para casar uma filha, a família tem que desembolsar ao noivo uma quantia que pode chegar até a 500 rúpias (equivalente a uns vinte mil reais!). O aborto não está sendo praticado apenas por mulheres pobres. As pobres é que estão aumentando o índice de morte por complicações decorrentes de abortos feitos em ambulâncias que percorrem o país realizando exames de ultra-som. Pós-exame, o veredicto: macho, vive; fêmea, morre! Muitas vans percorrem o país anunciando: Gaste cinco mil rúpias hoje para economizar cinqüenta mil amanhã! Quer dizer, é melhor pagar por um aborto do que pagar a exorbitância de um dote!
No país, o aborto é legalizado, mas diagnosticar o sexo do feto é uma prática ilegal desde 1994 e vários médicos que informam às mães sobre o sexo do bebê são processados. Pagar para casar é legalizado, altamente rendoso ao homem; tanto que alguns casam, matam a mulher e casam de novo, de novo recebendo nova bolada. Atualmente se calcula que anualmente cerca de sete mil mulheres são assassinadas por seus maridos no chamado "vítimas do dote". Mulher é mercadoria e as próprias estão acabando com isso, abortando quando sabem que vão ter filhas, deixando a Índia com uma população masculina em número bastante superior ao ponto de especialistas já opinarem que daqui a vinte anos, 10 milhões de meninas terão desaparecido. Com quem casarão os homens? O que será da mulher indiana que está perdendo tragicamente seu direito de ser uma pessoa?
A sociedade indiana é dividida em castas há mais de três mil anos. É ano pra burro! Lá, quem pode, pode; quem não pode, é intocável. Não que intocável lá seja o mesmo que aqui; pelo contrário, é a população das castas mais baixas, os que fazem os serviços mais humildes. O governo indiano não acha que isso seja segregação, racismo. É apenas a tradição do país, e, embora a discriminação por castas seja proibida, no dia-a-dia isso não vale. O governo, como todos los gobiernos del mundo, criou por lá uma espécie de bolsa-família para facilitar educação e empregos "aos menos favorecidos". Pode ser poético e exótico vê indianas belas carregando potes, pessoas banhando-se no rio Ganges, romanticamente se emocionar com a estória do
Taj Mahal, mas não é bonito saber que 25% da população vive abaixo da linha de pobreza, isso num país que tem mais de um bilhão de habitantes, que as mulheres são quase nada. Ponto final. Vírgula: Até que ponto uma tradição vale mais do que uma vida digna?
Os estudiosos das múltiplas culturas existentes pelo mundo dizem que não há uma cultura melhor do que a outra: apenas são diferentes em suas particularidades, pois não se pode dissociá-las da história do povo. Eles têm razão se considerarmos que não posso discriminar um negro por ser negro, um pobre por ser pobre, um HIV positivo por estar contaminado, um travesti, um homossexual, um umbandista, um muçulmano ou até mesmo um ateu confesso. Isso é discriminação pura e simples ignorância. Mas, não compreendo os fundamentalistas que morrem e matam em nome de Alá; não compreendo as índias yanomamis que matam suas filhas ao nascer; não compreendo os crimes de honra; não compreendo um país que protege uma vaca quando há milhares de pessoas morrendo de fome; não compreendo um governo que não vende, arrenda, seja lá o que for, terras produtivas e abandonadas a agricultores. Para essas facetas culturais sou obtusamente aculturada.
Tem muita coisa que não compreendo. E na minha santa ignorância não sei se quero compreender. Meu sogro, apesar de divorciada sou daquelas que só tenho ex-marido, todo o restante da família continua sendo, um dia me disse que não precisava saber de muita coisa. A ele bastava, como homem do campo que ainda é, saber se ia chover ou não. Lírico o que ele me dizia. Mas, a mim não me basta. Ele não sofre por questões sem respostas. E sem respostas eu ainda continuo perguntando. Eu não compreendo. E o que não compreendo me dói.

sábado, outubro 13

AuTRan

"En su llama mortal la luz te envuelve.
Absorta, pálida doliente, así situada
contra las viejas hélices del crepúsculo
que en torno a ti da vueltas." ----- Pablo Neruda.

domingo, setembro 30

Janela adentro

A poltrona colocada frente à janela mostra uma rua sossegada, pouco movimento de carros e gente. Nela, Zuleide observa a rua sem ver. Seus olhos se apertam devido a claridade que vem de fora; ouvidos surdos ao vozerio que vem do interior da casa. Filhos e netos falam animados da festa que há um mês preparam com a ansiedade de casamento. A festa vai comemorar seu aniversário, mas pouco ligam para a aniversariante. Fará 85 anos.
Não sabe se fala com Miguel ou se espera ele se aproximar. A vergonha de ser falada inibe sua vontade e fica sentada na praça, um olho lá, meio ouvido aqui. E se ele não se decidir? Esperar agoniada outro domingo, passar outra semana ouvindo em casa o pai elogiar o governo de Getúlio Vargas, fazendo comida, lavando roupa no rio bacia na cabeça? Não, tem que fazer alguma coisa. Tem 15 anos e muita pressa em viver. Não vai ficar pra titia de jeito nenhum. Se Miguel não se mexer, o jeito é ficar falada.
As imagens são takes na cabeça de Zuleide. As conversas no portão vigiadas pela irmã mais velha, a timidez de Miguel, os dois anos arrumando-se para casar, a convivência difícil com a sogra até irem para uma casa só deles, o nascimento de Paulo Neto. Aquelas primeiras dores rasgando-lhe as entranhas nunca foram esquecidas, embora seguidas de mais quatro. Criara todos os filhos, três homens, duas mulheres, praticamente sozinha de cidade em cidade quando o marido encasquetava de mudar-se no comércio de comprar e vender tudo em que colocasse as mãos. Primeiro, foram as viagens que os afastaram; depois, as mulheres. Onde ficara aquele rapaz tímido, carinhoso e que esperara suas iniciativas?
O som das conversas se mistura ao som interno de Dona Zuleide. Ao virar-se na cadeira, vê Paulo Neto guardando umas cervejas na geladeira e mais uma vez vê o falecido marido naquele rosto cuspido e escarrado tal como dizem. Tem hoje a mesma idade do pai quando morreu vítima de um ataque cardíaco que o fulminou na casa da amante. Remexe-se inquieta na cadeira e grita com o filho, chamando-o de Miguel, reclamando que ele só vive com as mulheres, que não sabe dá valor à família.
A poltrona colocada frente à janela mostra um jardim florido, telhados baixos, casas e gente conhecidas. A boca saliva da umbuzada com leite tirado na hora, o trem chegando na estação parecendo trovão, o barulho do jepp de Miguel aproximando-se pela rua preparando-se para nova briga ou nova mudança. Perdera a noção de em quantas casas vivera, a quanto tivera que se fingir de cega e surda na esperança do amor e no compromisso perante Deus e os homens. Na sombra crescera ritmando a vida dos filhos e a de si própria nas longas ausências, discussões, dissimulações. Falada não ficaria!
Sabe que preparam seu aniversário, isso não esquecera. Ninguém lhe pede opinião para nada, a empregada rodeando-lhe pra ver se precisa de alguma coisa, um filho morando em outro país, outro sob a terra vítima de acidente. As filhas indo e vindo na vida como passageiros em estações. Ora fica na casa de um, ora na casa de outro, dividindo-se no trabalho que dá a cada um, a paga pelo que fez. O filho da neta mais velha é a única alegria que tem. Não é mais mãe nem avó. É Bisa. É velha. Não pensa na vida nem na morte. Às vezes acha até que nem pensa, as imagens se atropelando na cabeça, dando-lhe o medo da loucura. Aqueles remédios de cores e formatos variados devem lhe causar toda essa confusão. Se os alcançasse na prateleira lá de cima onde os colocam, jogava todos na privada. Mas, não tem tamanho; durante toda a vida tivera altura. Hoje, nem isso!
(PS.: A segunda foto foi gentilmente cedida por Rosa Santana, amiga orkuteira de Goiânia. Obrigada, professora!)

terça-feira, setembro 25

LeTRitude

Depois de vários meses, terminei a leitura do livro "A menina que roubava livros" do australiano Markus Zusac. Mesmo gostando da narrativa, não sei por que demorei tanto para concluir sua leitura, atropelando-a com outros livros. A estrutura do livro é soberba, uma aula de teoria literária para os que acreditam em Paulo Coelho como o mago das letras neste século!
Não há uma temática nova. Relatos ficcionais ou não sobre a vida nos países em guerras, sejam elas as de agora ou as de antanho, proliferam aos milhares. O que o nazismo causou à população mundial, notadamente à européia, e amargamente aos judeus e às minorias, sempre será um assombro e a personalidade de Hitler já rendeu tratados tanto sócio-políticos como psicanalíticos.

O fato de a narradora ser a morte não é assombroso, embora seja inusitado. E aí reside o primeiro mérito do livro: não adianta correr para as inovações tecno-científicas em busca de elixires da imortalidade, um dia ela virá e nos colocará sobre os ombros, percebendo que cores temos, pois, em suas próprias palavras: "em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços." Assim, "Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate". No entanto, tratar a morte como coleguinha nem pensar! E acredito que o livro não teve a pretensão de suscitar uma reflexão sobre a morte, pois disso filósofos tratam há séculos. A vida não nos torna indiferentes à morte, mas é melhor pensá-la longe, distante, de preferência apenas passeando nas alamedas do Pere-Lachaise.
O livro tem muitos atrativos. Não suaviza a dramaticidade da guerra, mas ridiculariza Hitler, "um homenzinho estranho que decidiu três detalhes importantes sobre sua vida", os quais foram repartir o cabelo de modo ridículo, usar um bigode igualmente ridículo, dominar o mundo, o que não foi nada ridículo, sabendo o que aconteceu depois dessa idéia. Numa pequena fábula – lindamente narrada por um dos personagens – o sucesso do Führer se deveu a sua plantação de palavras, jogadas todos os dias árvores abaixo pelos sacudidores de palavras, formando um grande exército de ouvintes, seguidores. Até que um dia uma outra semente – amizade – cresce, transformando-se em árvore, dominando todas as demais. (Para saber o final, é melhor vocês lerem o livro!). Os horrores da guerra não são solucionados por amizade, amor, solidariedade, mas são, sim, amenizados por sentimentos assim, pois mostram que não há exclusivamente monstros à solta.
O livro tem as mais ricas metáforas que li esse ano em qualquer publicação, tornando-se sinestésico, pois sua linguagem suscita cores, gostos, imagens. Como não se deliciar lendo que "a empolgação pôs-se de pé dentro dela", "o rosto... parecia ter as venezianas fechadas", "um sorriso de papelão", "conseguiu inserir as palavras pela brecha do vão da porta"? A linguagem é um personagem à parte, tão ou mais fascinante do que a própria narrativa.
No livro há uma crítica sutil aos que pelas atrocidades do nazismo condenaram todo o povo alemão, aos que negam que muitos ficaram sem opção de reagir. Reagir era morrer, visto que o regime não admitia controvérsias. Como no livro, deve ter havido inúmeras famílias que ficaram à beira de um ataque de nervos porque esconderam ou ajudaram judeus de alguma forma, porque não quiseram ser alemães de carteirinha do III Reich. A narrativa é um libelo a uma solidariedade prática, seca, às vezes até mascarada pela indiferença, mas extremamente necessária à situação por que impregnada de pequenos gestos que fazem a diferença quando no caos.
É um livro para ser relido, marcado em vários trechos. É uma bela história de vida, mesmo que tenhamos muito comumente para os nossos semelhantes a mesma idéia que a morte tem: "Os seres humanos me assombram".

Livros também me assombram!

sexta-feira, setembro 7

ViSÕes

Ao seu redor várias peças, chaves, martelo, alicates, parafusos e fios amarelo, azul, verde. Sobre a mesa, intacto o controle remoto abastecido com duas potentes pilhas ao lado da caixa vazia onde antes existia um televisor. Estendera no chão uma lona vermelha para que nada se espalhasse e se perdesse pela sala. Aproveita que está sozinho para pôr em prática uma idéia que há dias formiga em sua cabeça. Sua única diversão é a televisão, agora que pouco sai de casa. Não importa a qualidade dos programas, o que lhe interessa são as imagens. Não precisa mais do som agora que uma surdez faz ninho em seus ouvidos. Muda de posição, apoiando-se na parede, pega o capacete que pedira ao neto motoqueiro e lembrando-se da antiga profissão de técnico eletrônico monta todos os circuitos e com a pequena luz azulada solda uma peça na outra. Feito, desarma a oficina improvisada, guarda as ferramentas. Senta-se na poltrona, pega o controle remoto, ajusta o capacete na cabeça. Fecha os olhos e aciona o controle. Sua cabeça é instantaneamente inundada. Não precisa mais brigar para ter a televisão só para si.
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Deitado no chão contempla as formigas nos espaços do rodapé quebrado. Uma formiga vai, outra vem, batem-se e prosseguem. Espicha os olhos, mas não consegue ver o que cada uma transporta. Coloca a mão dos seus quatro anos espalmada no chão na tentativa de impedir o caminho, mas as formigas lhe rodeiam e passam. Pega no bolso do short os óculos tirados da avó enquanto ela dormia, põe sobre o nariz, mas não vê maior as formigas. De repente, vê um carro preto numa estrada poeirenta passando ao lado de vacas. Assustado, levanta-se de um pulo, livrando-se do carro e das vacas. Nunca vira aquele carro, muito menos vacas passeando nas ruas. No pulo, os óculos caíram-lhe do rosto. Olha em volta desconfiado, mas continua sozinho ali, os barulhos presos na cozinha. Pega os óculos e, de olhos fechados, temeroso da visão desabalada do carro, põe aquelas lentes que dão ao seu infantil rosto um aspecto palhaço. Deitado como antes, abre os olhos e vê o carro continuando na mesma estrada, as vacas pastando. A avó sentada no banco ao lado do motorista exibe o cabelo preto e sorri ao homem que dirige. Na tentativa de enxergar melhor, encosta a cabeça na parede, sentindo-a como chiclete fazendo bola. Assustado, levanta-se de um pulo, livrando-se da poeira e das vacas, gritando aos avós que parem o carro e levem-no.

sexta-feira, agosto 24

AMARelinha

Desenhado a giz na calçada o jogo da amarelinha escancara a palavra céu. Suas pernas pulam casa por casa movimentando em harmonia o corpo no jogar/pegar a pedra. O sol se reflete no concreto secando o chão da chuva. Ao seu lado, as colegas esperam a vez de jogar.
A calçada é sua. Naquela rua de pedras e buracos com canteiros de lixo, sua casa é das poucas que tem calçada, trabalho do pai pedreiro. Sobre ela reúnem-se diariamente as amigas após o horário escolar. O giz amarelo, tirado da caixa da professora, amplia a mágica no desejo de ganhar o céu. Ali, pular leva ao céu; cair, ao inferno, palavra riscada com o giz vermelho tirado da mesma caixa.
Tem oito anos e o mundo é todo seu. Escuta todo dia em casa que a vida não é fácil. O significado só pode ser porque se tem pouco dinheiro, o pai nem sempre tem trabalho e a roupa que a mãe lava das donas lá do outro bairro cada dia fica menos, porque parece que as senhoras não têm mais dinheiro pra pagar e outras não confiam em lavadeiras e mandam para as lavanderias chiques, onde tem lavagem a seco. Para lavar não é preciso molhar?
Todo dia aproveita a merenda da escola para comer e repetir seja lá o que for servido, pois assim come menos em casa, deixando mais para os outros dois irmãos ainda sem idade escolar. Fora a merenda, a escola é uma agonia, não entende o que a professora fala, aqueles desenhos lá no quadro não compreende direito, mas faz tudo bem bonitinho no caderno para não levar grito. Na hora de ler, é um danado de aperreio, gaguejando as letras, às vezes não sabe nem o que disse. Mas, vai aprender, vai mostrar pra aquela sabichona da sala que vai ler de carreirinha.
Distraída, erra o quadrado. Encosta-se na parede da casa, dando vez à colega no ritmo de pegar/jogar a pedra. São quase seis horas. Dali a pouco todas as mães vão chamá-las para tomar café, e brincadeira só amanhã, pois ninguém fica na rua à noite. De uns tempos pra cá, quase toda noite zunido de bala vai e vem entre polícia e aqueles homens lá de cima da ladeira. Deles só sabe o que entreouve, porque isso não é conversa de criança. Dizem que são bandidos, vendem drogas, armas. Se são bandidos, por que não vivem na cadeia em vez de correr, apitar com os carrões para lá e pra cá na maior carreira?
Ao observar a amiga pular para alcançar o céu, um zunido alto corta o ar, tirando Magda das suas inocentes perguntas. De início pensa que Clarinha pisou forte demais e caiu, mas ao se aproximar vê um fio vermelho manchando a camiseta. Os gritos se misturam a barulho de carros passando como raios pela rua. Bandido na frente, polícia atrás. Inútil. Magda não compreende, mas sabe que a amiga não vai atender o chamado da mãe, nem caminhar com ela todos os dias para a escola. Não vai jogar amarelinha, tentando alcançar o céu, temendo o inferno. Aquele círculo tracejado em vermelho na calçada já a alcançou.
Desenhado a giz na calçada o jogo da vida escancara a palavra injustiça, o giz amarelo se dissolvendo, misturando-se ao vermelho inocente. Nunca mais amarelinha. Agora Magda sabe que a vida não é fácil tem outro sentido.

quinta-feira, agosto 9

Pé de jurema

É um homem vazio. Depois de um sono inquieto, esse é o primeiro pensamento que vem à cabeça de Paulo: sou um homem oco, perdido. Isso o faz rir, pois se lembra imediatamente do verso "eu sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores" da música de Roberto Carlos, modelo que sonhava seguir. No meio do sorriso, uma tristeza lhe invade a alma. Uma saudade que insiste em invadir-lhe o coração turva os olhos, e deseja nessa tarde chuvosa ficar à deriva na cama, lembrando um passado, coisas que poderiam ter sido.
Levanta-se, e a água fria do chuveiro alivia um pouco a sensação de peso. Sabe que tem de ir. Os colegas o esperam para uma noite de sábado. Não pode escolher uma roupa qualquer, por isso quantas tire do armário, quantas coloca sobre a cama, desprezando a combinação de cores, tentando visualizar o melhor efeito.
Homem vazio. A idéia fica martelando em sua cabeça. O vazio se instalou desde aquele longínquo dia quando aos doze anos saiu de casa levando a pouca roupa num velho saco de papel de embrulho. A surra do pai fora o motivo e, ainda sem saber, o princípio do homem que se tornaria. Sob o abrigo dos olhos e carinhos da avó crescera, freqüentando a escola, onde comia aquela mistura sem sal, sem sabor, sem nome.
Lembra-se nitidamente do dia que o pai fora buscá-lo e do pé de jurema onde se escondera, teimando em não voltar. Não voltou. E o que era visto como teimosia se transformou em determinação em sair daquele lugar, ser alguém, mostrar que não nascera para vida de sítio submetido às lamboradas, às ordens do pai. Viera para a capital onde até hoje mora. E a cidade grande o esperava para mostrar-lhe as gentes, as ruas, as vilas, as garras.
Na vila conhecera uma espécie diferente. Aquela gente perto dos seus conhecidos lá do sítio formava uma fauna humana que causaria um olhar atravessado do pai, uma censura muda dos irmãos tão tradicionais, para quem todos os diferentes eram errados, pecadores sem salvação. Espremido numa pequena casa conjugada entre um viciado e um travesti, trabalhava, estudava, estudava, trabalhava e só comia bem até o décimo dia do mês, pois o aluguel lhe levava a metade do salário. O mês passava entre bolachas secas engolidas com água, pastéis na hora do almoço. À noite ao chegar do colégio encontrava a solidariedade do vizinho travesti que muitas vezes lhe deu um prato de macarrão, uma sopa.
Aquela amizade no início lhe assustara. As estórias interioranas ecoavam em sua cabeça, criando um medo em Paulo muito maior do que a curiosidade de saber como era a vida do novo colega. Poderia um desconhecido lhe ajudar sem querer-lhe o corpo? Tal era a fama do travesti no bairro.
Não demorou muito para deixar a escola, pois trabalhava ou morria de fome. Ficou trabalhando em dois lugares ao mesmo tempo, sendo pau-mandado, pau pra toda obra. À noite, chegava morto em casa, juntando-se a Xavier, nome de guerra do colega travesti, na cerveja, no macarrão de fim de noite, nos churrascos de fim de semana à custa dos clientes ricos que em bares privados faziam suas festas. O colega, ganhando muito mais do que ele, insistia para que ele deixasse de trabalhar e formassem uma dupla na noite. Dizia não ter perigo nem de tiros nem de vírus.
Mas ele não acreditava. A figura do velho padre naquela igreja lá do fim do mundo onde morara assombrava seus pensamentos com a imagem do inferno, queimando-se vivo em chamas em meio a risadas. Melhor não arriscar em vírus nem tiro muito menos a danação.
Os estudos ficaram para trás pela idade, pela falta de tempo e agora pela falta de vontade em mudar. De trabalho em trabalho, amealhara o suficiente para comprar um bar, que depois se transformara em outro e mais outro, até que vieram os estrangeiros querendo investir no que hoje é a boate mais badalada da cidade. Os bens materiais lhe enchem a garagem, o guarda-roupa, a cama e a mesa, até mesmo os hotéis luxuosos quando viaja. Esse mesmo apego lhe tirou o medo de vírus, de tiros e, principalmente, da danação. Não precisa mais disso, pois tem sua própria danação, sua própria arma e do vírus sabe que é apenas uma questão de tempo. A tudo dera adeus, mesmo que lá em algum recanto sinta saudade do menino que foi e do homem que sonhara ser.
Sabe-se vazio sem salvação. Sabe que onde está não há mais pé de jurema algum.

quarta-feira, agosto 1

Turn, turn, turn

To everything - turn, turn, turn/There is a season - turn, turn, turn
And a time for every purpose under heaven
A time to be born, a time to die/A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal/A time to laugh, a time to weep
To everything - turn, turn, turn/There is a season - turn, turn, turn
And a time for every purpose under heaven
A time to build up, a time to break down/A time to dance, a time to mourn
A time to cast away stones/A time to gather stones together
To everything - turn, turn, turn/There is a season - turn, turn, turn
And a time for every purpose under heaven
A time of war, a time of peace/A time of love, a time of hate
A time you may embrace/A time to refrain from embracing
To everything - turn, turn, turn/There is a season - turn, turn, turn
And a time for every purpose under heaven
A time to gain, a time to lose/A time to rend, a time to sew
A time to love, a time to hate/A time of peace, I swear it's not too late!
O texto é uma música lançada em 1965 pelo grupo de rock
The Byrds. Não sei nada do grupo, escutei a música meio por acaso e ela me chamou a atenção por apresentar aquele ritmo/mensagem meio Bob Dylan/Joan Baez - ícones dos anos rebeldes. Ao descobrir a letra original, achei apropriada para hoje (e não me perguntem o porquê!).
Ao escrever isso, a rádio on line – no canal classic hits - coloca novamente o grupo, agora cantando
Mr. Tambourine Man.
Se tiverem curiosidade, vejam o grupo e seus fãs dançantes há 40 anos atrás. Que singelo!

domingo, julho 29

SoNHo de Ícaro





Na mitologia grega, o céu era a morada dos deuses, sendo inalcançável aos pobres mortais. Na ânsia de fugir do labirinto na Ilha de Creta, Dédalo cola penas dos pássaros nas asas que construiu e instrui seu filho Ícaro a não subir muito, pois o sol derreteria a cera, tampouco ficar muito junto ao mar, a umidade faria as asas pesarem demais. Empolgado pelo prazer de voar, Ícaro não ouve o pai e cai, morrendo. Manifestava-se ali o desejo do homem de ser sempre mais, ir além dos seus próprios limites.
Por desobediência, Ícaro estatela-se no chão. Por desobediência, Adão e Eva são expulsos do Paraíso, pois não lhes bastara aquele conhecimento dado por Deus e ao querer mais provaram da árvore do conhecimento e se deram mal (nunca entendi porque uma maça, fruta insípida - linda, é verdade, mas sem gosto - poderia ter sido uma deliciosa jaca ou uma manga!).
Assim, da mitologia à crença cristã, caminha a humanidade sempre à procura de algo mais, seguindo na superação dos seus limites. Voar no sentido real há muito deixou de ser encarado como possível, porque a ciência de Santos Dumont à Apolo XI já mostrou que ao homem só será dado voar através de um meio de transporte, seja avião, aeronave, ônibus espacial. Entretanto, no sentido simbólico, despendemos muita energia treinando vôos.
A propósito de vôos e desobediência tenho três coisas a dizer:
1. É preciso desobedecer, transgredir. Caso contrário, ficaremos estagnados caminhando sob uma reta que nem sempre será atraente e motivacional o suficiente para nos provocar uma mudança, o alcance de novas metas, pois "todos nós deparamos com lugares que se tornam estreitos em determinado momento. Estes lugares, que outrora serviram para nosso desenvolvimento e crescimento, se tornam apertados e limitadores" (A alma Imoral, Nilton Bonder). Essa movimentação para a mudança traz inquietação, medo, mas é interessante observar o quanto tememos o que vai acontecer, achando-nos incapazes do novo, do diferente, sem que tenhamos dado um passo sequer, visto que "o maior inimigo é que está dentro de nós. É o subversivo capaz de estragar a festa..." (Bonder). Na caminhada, de repente percebemos que já demos os passos mais difíceis, que não morremos, que o novo caminho se torna conhecido, e que dentro de nós nova força vital brota impulsionando-nos. É de pessoas que desobedecem - que não temem as leis que lhe dizem não, a cultura que lhes diz vocês não podem, não devem, não têm mais idade - que o mundo é feito e continua girando.
2. O ato de desobedecer só tem sentido se intimamente ligado a vôos, porque não adianta desobedecer e ficar no chão. É preciso alicerçar a alma para que ela imponha à pessoa um enfrentamento tendo em vista uma barreira intransponível que só será superada com verdadeiros vôos, uma nova confiança, e é "esse profundo ato de confiança em si e no processo da vida (que) garante a passagem pelo vazio que magicamente se concretiza em chão sob nossos pés. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível" (Bonder). Voar é concretizar, fazer valer o ato da desobediência, é criar asas onde antes não era possível, é saber-se capaz, saber que a qualidade de vida e a possibilidade de continuidade só são viáveis se ousarmos alterar aquilo que nos dizem como verdades absolutas.
3. Desobediência e vôo. Por acreditarem que suas razões eram as certas, por transgredirem a lei que lhes dizia que nada mais poderia ser feito, que deveriam se recolher ao crochê feito em suas salas de estar e não na porta do governo, por acreditarem que precisavam voar em busca de um sonho, foi que as tricoteiras de Porto Alegre subiram naquele avião. O vôo não era apenas uma viagem a Brasília, não era um mero protesto para se ganhar uns mil reais a mais, não era uma viagem turística programada para os da terceira idade. Era uma transgressão à crítica de que senhoras com mais de 70 anos devem cuidar somente dos netos, era a alma em efervescência dizendo-lhes para tirar o pé do chão, não sucumbirem à resignação, era o lugar comum ir à luta! O vôo não era o andar de avião, vencendo o medo, os problemas de saúde que porventura tivessem. Era o vôo do renovar de esperanças, era mais um ato de vida. A elas de nada adiantarão as discussões sobre as causas do acidente. Nem mesmo nossa solidariedade será de grande valia e o que devemos é reconhecer que "há justos que, tão logo tenham cumprido a tarefa de suas vidas neste mundo, são chamados a abandoná-lo. Porém há os justos que, no momento em que concluem sua tarefa neste mundo, recebem uma nova tarefa e vivem até sua realização" (...) A nova tarefa que estende a existência e gera uma sobrevida é a capacidade de reorientar-se na vida. Dar a volta e encontrar novas tarefas, novos "bons", é receber nova força vital. É através da alma que essas novas tarefas se fazem conhecidas. Quem tem coragem de bancá-las não conhece a depressão" (Bonder).



Durante a vida, elas tiveram muitas vezes a renovação de tarefas, reorientaram-se muitas vezes na vida. A elas, o respeito de todos nós.

terça-feira, julho 24

Palavras X Atitudes

"O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo."
A frase é atribuída ao grande Charles Chaplin, informação que encontro no livrinho O Pensamento Vivo de Chaplin, uma coletânea editada pela Martin Claret lá pelo final dos anos 80. O meu interesse na frase é apenas justificar a imagem ao lado que correu e-mail nessa semana em que se comemorou o Dia do Amigo (não sei de onde veio a imagem).
A frase conclusiva é corretíssima, mas dá uma agonia danada se associada à imagem! Já pensou se nossos amigos agirem assim?

sexta-feira, julho 20

Lady Lu

Tenho uma amiga que não conheço, com quem tenho, contra todas as previsões contrárias possíveis, algumas afinidades, por assim dizer, "mediúnicas" (quem me perdoem os kardecistas). Seu nome é luz, a origem latina significando luminosa, por que luz ela é. A poucos metros da sua casa baiana, ela alcança o mar, onde lava os pés, às vezes mergulha, e rotineiramente o contempla como se contemplam as coisas grandiosas da vida: maravilhada e inquisitivamente. Naquele espelho d'água, ela espera vê Deus e se pergunta vezes sem conta o porquê da crueldade, dos desatinos humanos; também agradece as surpresas boas, as dádivas que a vida lhe oferece e ali, naquela contemplação, sente-se pequenina, pequenina diante do poder divino.
Minha amiga tem o dom da diplomacia. Não pode ver fogo, seja verbal, "escritural", cara a cara, que sai logo apartando os contendores armada de uma mangueira imensa carregada de palavra afáveis, conciliadoras. Nunca a "li" com raiva, tampouco a vi. Imagino que sejam episódios raros, mas daqueles em que se roda a baiana (no caso dela, literalmente!). Além da diplomacia, ao sentir que alguém tá tristinho, assim meio down, ela se arma de todo amor e solidariedade e enche a pessoa de palavras otimistas, citações, poemas, receitas de chazinhos e a boa e apimentada comida baiana, porque saco vazio não se põe em pé, uai (isso do seu lado mineiro)!
Essa amiga diz que às vezes tem crises de depressão, que sente o chão fugir-lhe por sob os pés, tomando um soco que a desnorteia tão fortemente que as estrelinhas da vida se apagam e o que ela vê é uma estrada sombria. Na verdade, o que ela chama de depressão é uma sensação comum a todos que se reconhecem grãos de areia nesse "mundo mundo vasto mundo", a quem sabe que "a vida é louca/ a vida é uma sarabanda/ é um corrupio..."
(
Mário Quintana). A minha amiga sabe que "os ombros suportam o mundo/ e ele não pesa mais que a mão de uma criança", mas isso não lhe salva completamente, não a sossega de todo, porque não há consolo nessa metáfora drummondiana, não há angústia que passe com meias palavras para quem tem uma consciência aguçada de si e do mundo. Não que ela tenha aprendido tudo isso nos tantos livros que sofregamente leu e lê, ou apenas nas dores, alegrias que a vida lhe deu e dá – ela aprendeu isso porque é da natureza dela esse gosto acre da vida.
Mas, se vocês pensam que minha amiga é do tipo de pessoa que se deixa abater, acabrunhando-se, estão enganados! Ao sentir a tristeza se aproximando, ela diz igual a música: "Oh tristeza, me desculpe,/ Tô de malas prontas/ Hoje a poesia veio ao meu encontro/ Já raiou o dia, vamos viajar" (
Paulo César Pinheiro), porque ela é igualzinho a um jatobá: verga, mas não cai; sua determinação alcança uma altura de quase 20 metros e o diâmetro do seu abraço é mais ou menos um metro. Com todas essas dimensões, ela não passa despercebida em fila de Banco, dos Correios (lugares onde vai frequentemente), nas conversas em sala de médicos, clínicas de fisioterapia (isso se não tiver um livro para ler, porque se tiver lendo, o aconselhável é deixá-la quieta, entregue à alguma estória, brigando ou maravilhando-se com algum personagem), em supermercados e no Clube que freqüenta. Onde quer que ela esteja, lá estarão os seus famosos pitacos!
Minha amiga é ímpar, pois aprendeu que "no amor felizmente a riqueza está na doação mútua. O que não significa que não haja luta: é preciso se doar o direito de receber amor. Mas lutar é bom. Há dificuldades que só por serem dificuldades já esquentam o nosso sangue, que este felizmente pode ser doado" (
Clarice Lispector).

sábado, julho 14

De livro e inquietações

Terminei de ler As Codornas e o Outono, livro do egípcio Nagib Marfuz, Nobel de 1988. Uma coisa chama à atenção no livro: a identidade que construímos intimamente ligada à profissão que exercemos. O personagem, funcionário público, vê-se no meio do redemoinho provocado pelas mudanças políticas ocorridas durante um período no Egito, as quais ele não se adapta, desejando uma retomada à situação quando vivia no círculo dos poderosos. Aos poucos, Issa – esse o nome do personagem – vai perdendo prestígio, uma filha que não reconheceu, a mulher que não soube amar, ganhando vícios, dívidas, perdendo chão.
Não sei dizer se gostei do livro, pois ele me causou uma inquietação pelo momento em que vivo. Perdendo chão, ou um pedaço dele, por deixar um local onde por muitos anos trabalhei.
O trabalho em escola me absorveu durante todo esse tempo e, mesmo com todas as dificuldades e desilusões que a profissão carrega, não vejo nada que se compare ao convívio com alunos, aquele mundo de gente de todas as cores, tamanhos, que não faz do aprender prioridade, com quem falo vezes sem conta para só tempos depois ter uma resposta adequada aos padrões educados. Aprendi com o tempo que quem menos dá trabalho em escola é aluno, pois seus comportamentos, irreverências são frutos da idade, da falta de maturidade, gerenciados com o tempo depois de muita falação, sendo, portanto, comportamentos previsíveis. Aprendi também que a condição humana com suas mesquinhezas, manipulações, descompromissos não está ausente em um mundo repleto de educadores e ideais afins.
A parte tudo isso, o chão me falta, mesmo que a decisão de deixar a escola depois de 25 anos de trabalho, da sala de aula à direção, tenha sido minha. Vejo minha rotina mudar e acordo com a sensação de que algo me falta, porque não tenho que sair correndo para uma reunião, não carrego mais na pasta milhares de papel, o celular não toca solicitando minha intervenção, até mesmo onde ela não era imprescindível. É a síndrome da abstinência, a falta da utilidade! E que Deus me livre de me achar amada ou capaz só pela utilidade que possa ter!
No início deste ano letivo, causei espanto numa reunião com professores ao afirmar que não estamos educando nossos alunos, que não nos iludamos que nosso trabalho não tem o peso, a valoração que deveria ter e nisso muitos fatores contribuíram, um deles sendo a nossa própria baixa auto-estima, nossa descrença no que fazemos. Mesmo achando que não atingimos mais os objetivos que deveríamos alcançar, não desacredito da profissão, pois a considero ímpar nesse mundo tão caótico, em que o valor humano perde todos os dias para valores volúveis e voláteis.
No entanto, não educamos mais porque nos perdemos nas miudezas e deixamos de ensinar o que vale, que são as competências básicas para o indivíduo pensar, agir sabendo dominar a escrita, a leitura, o cálculo. Estamos medicando com os mais variados remédios um paciente a quem bastaria um simples analgésico, desde que forte o suficiente para tirar-lhe o pensamento da dor central, desviando sua atenção para sua potencialidade, dizendo-lhe continuamente que ele pode.
Não sou saudosista em achar que antigamente o ensino era melhor. Era diferente, porque as exigências do mundo eram diferentes. Eu não perdia tempo na internet, no MSN conversando com minhas amigas; não tinha shopping para ir "azarar" ninguém; minha mãe trabalhava em casa e, mesmo meu pai viajando a trabalho, ai de mim, depois meu irmão, se não fizéssemos as tarefas, se a fizéssemos ir à escola escutar reclamação por algo que fizéramos de errado. Mesmo há 27 anos quando comecei a lecionar, os alunos não tinham as facilidades e "tentações" que têm hoje. Tentações que na verdade não são o problema. O problema é que família e escola não acompanharam o ritmo vertiginoso das mudanças e, inseguras ambas, nem sempre sabem orientar os jovens que – aí sim – tentados por quem não lhes passam sermões, sentem-se à vontade longe da escola, longe da família!
Com todas essas reflexões, intimamente ainda não sei se fiz um bom trabalho e essa dúvida, segundo meus amigos, vem da minha procura constante pela perfeição. Coisa besta, pois a tal não existe! Na verdade, o chão me falta porque sempre "ando à procura de espaço/ para o desenho da vida./ Em números me embaraço/ e perco sempre a medida./ Se penso encontrar saída,/ em vez de abrir um compasso,/ projeto-me num abraço/ e gero uma despedida./ Se volto sobre o meu passo,/ é já distância perdida" (Cecília Meireles).
A inquietação me assalta pela ausência da convivência com muitos que agora se tornaram esparsos; por ter diante de mim uma grande interrogação; por ter tempo, depois de muito tempo, para mim mesma; por ver que minha casa agora não é apenas um lugar onde venho dormir; por dormir sem hora programada para acordar, uma vez que além de férias, tenho a frente uma licença até o final do ano. Sei, no entanto, que essa vida não é a que me segurará, pois daqui a pouco estarei começando tudo de novo com o mesmo ímpeto, apontando lanças pelas estradas em busca de castelos de vento e dragões para matar, visto que não me enquadro nos versos finais do poema:

"Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida."
**************
A imagem deste post é um quadro pintado pela mãe de Claúdia, amiga virtual que mora em Porto Alegre, a quem agradeço a gentileza.

sábado, junho 30

A vida da palavra

"Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota..."
(MEIRELES, Cecília. Das Palavras Aéreas. In.: Romanceiro da Inconfidência.)

A cada batida do coração o homem pensa que ama. Se a palavra não existisse, como amaria o homem? A cada lágrima que do rosto cai, o homem diz que sofre. Se a palavra não existisse, como choraria o homem? A cada abraço apertado, imagina o homem a amizade. Se não se fizesse a palavra, como se irmanaria o homem? A cada palavra pronunciada finge o homem revelar-se. Se não houvesse palavras, que significado teria o homem?
Que significados teria o homem se as palavras fugissem do pensamento, migrassem de nossa alma, deixando-nos à deriva num oceano de silêncio, de gestos intraduzíveis? Seríamos menos homens. Seríamos um nada perdido numa escuridão inefável em busca de sons que pudessem nos traduzir, de letras que pudessem nos desenhar. Não seríamos homens.
A palavra nos distingue dos animais, dando-nos o meio ideal de expressão, forma que nos faz criar, descobrir, viver num mundo de sons criado para exaltar nossa diferença e superioridade. Superioridade que aliada à harmonia e compreensão projeta a paz; aliada ao egoísmo e à intolerância, fabrica a guerra. Pela liberdade defendemos a palavra da tirania, pelo pacifismo alardeamos a palavra amor.
Quando amamos, a intensidade do amor traduz em palavras nosso deslumbramento; ao sentir medo, buscamos na palavra o primeiro socorro; a alegria encontra sua manifestação traduzida em interjeições; o ser amado é mais amado ao ver no papel decifrado os seus dons; a violência é palavra mal escrita, o ódio é inexprimível em seu âmago, perversa alquimia da palavra grafitada em muros sujos que atestam nossa indignação diante da irracionalidade humana.
As inquietações da alma encontram na palavra o seu alívio numa terapia de descobertas, sustentando-se além de si na coragem para prosseguir. A palavra se agita e num redemoinho de emoções encontra refúgio, e na ânsia de salvar-se o homem sobrepuja-se à dor, tornando-se mais humano. Somos um amálgama daquilo que podemos expressar e do que no recôndito de nós se esconde, misto de privacidade e medo, pelo respeito que a palavra suscita, conscientes de sua importância.
O eco da palavra nos acompanha vida afora. Não sabemos do nome que receberemos, mas a palavra impregnada em nós dirá o que somos, dará rumo aos nossos passos e deles prestará contas a um criador que nos dirá a última palavra, a qual ressoará ad infinitum, transformando-nos nas palavras lembrança e saudade.
Sem palavras seríamos menos que mudos, menos que surdos – a estes as palavras bailam pelos olhos, dançam nas mãos, dando-lhes sons mágicos; seríamos menos que terra, menos que ar – a estes as palavras brilham nas gotas de chuva, nas cores do arco-íris, oferecendo-lhes dádivas da natureza; seríamos menos que fogo, menos que água – a estes as palavras se revestem de brilho, oferecendo-lhes ousadia e transparência. Sem a palavra seríamos meros expectadores espantados pelo maravilhoso espetáculo que a palavra vida encena sem que dele pudéssemos participar.

sábado, junho 23

METAde




Eu estou aqui.
Às vezes estou inteira
Às vezes em pedaços.
E cada pedaço de mim
me emociona
e me apavora
e me faz crer
que a vida não é só isto
que se vê por entre
frestas/festas.
É um pouco mais de pedaços
que se unem entrecortados
e que partem amedrontados
às vezes até emocionados.


sábado, junho 16

NaveG(E)aNTE

A sacola lhe pesa nos ombros. Na mão direita mais dois pacotes vagabundos em papel pardo lhe escorregam continuamente forçando-a de vez em quando a empurrar-lhes contra o corpo para não deixá-los cair. As compras se resumiram a um amontoado indigesto de enlatados, porque já não tem paciência, tampouco fogão e gás para cozinhar. Caminha pela rua e conta automaticamente os quadrados da calçada que faltam para alcançar a porta do prédio onde mora.
A sacola lhe pesa, mas não a tira nem por um momento do ombro, embora o peso e a alça fina cortante da bolsa já lhe deixem marcas vermelhas. Ali estão coisas que lhe são o mais precioso que tem e ela não deixa nem por breve minuto a bolsa escapar-lhe do alcance da mão e dos olhos. Ali estão vinte e cinco anos de trabalho.
Ao chegar em casa, abre os pacotes, arruma as coisas no armário, prepara um suco rápido e engole o sanduíche natural que comprara na lanchonete a caminho de casa. Coloca a sacola sobre o sofá e vai tomar um banho quente que possa lhe aliviar o cansaço do dia, deixando-se ficar sob o chuveiro, água e lágrimas se misturando, descendo pelo corpo ralo abaixo.
As lágrimas lhe parecem naturais, pois há muito estavam represadas no peito, contidas pelas obrigações do dia-a-dia, subjugadas à ordem dita a si mesma para não sucumbir àquela sensação dúbia de alívio e tristeza que já vinha sentindo. Agora não há por que não chorar, limpando alma e corpo.
Enxuga os cabelos vigorosamente, veste um velho roupão apesar do calor, abre as janelas e senta-se no chão da sala, puxando para perto a sacola. Antes de abrir, contempla sua forma e percebe que não há tanto ali guardado. Ri de si mesma, censurando-se por ter pensado que vinte e cinco anos era um tempo longo para guardar. Coloca a mão dentro da sacola e tateia os contornos das coisas que lá estão antes de tirá-las e arrumá-las uma a uma no chão. Pensa por um momento o que fará com cada coisa, mas, sem chegar a conclusão alguma, deixa para decidir depois.
De repente, a mão pára. Uma súbita agonia lhe atravessa o peito, deixando-a com medo. O que está ali dentro não lhe é desconhecido, pois ela mesma colocara, porém algo lhe turva a mente, uma sensação de finitude tomando-a por inteiro. Retira a mão da sacola e recosta-se na parede. A boca ressecada e uma súbita tontura são sinais de uma crescente ansiedade. Fecha os olhos e respira profundamente.
De que adianta abrir aquela sacola, alinhando no chão e depois numa prateleira o que ali está?, pensa agoniada. Aquele amontoado de coisas é apenas a parte material dos anos acumulados, são coisas perecíveis que o tempo dali a pouco vai corroer. São objetos que vão lhe atravancar ainda mais as prateleiras já cheias de livros, fotos, esculturas. Não, pensando bem, é melhor não ficar diante de tanta coisa espalhada impregnada de estórias. Basta a lição guardada dentro de si. Bastam-lhe as alegrias, as agonias, as amizades, o riso, o choro sentidos durante todo o tempo e que jamais lhe deixarão.
Levanta-se, fecha a sacola, envolve-a num saco plástico, fechando-o bem. Pendura a bolsa no prego mais alto na área de serviço, deixando à mostra aquele logotipo do lugar que para sempre estará com ela. E lembra de uma canção de Caetano Veloso, cujos versos a remetem ao poeta Fernando Pessoa:
"O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração, o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso...".

sábado, junho 9

ArrE!!!

Há anos que Roberto Carlos canta que "além do horizonte deve ter um lugar bonito pra viver em paz" e vez por outra o que queremos mesmo é fugir, deixar esse dia-a-dia em busca de um novo horizonte.
O danado é que o horizonte nunca está fixo, anda e anda, à medida que dele nos aproximamos. Nesse distanciamento queremos o horizonte quando o que está perto nos parece insosso, sem sentido, aborrecido, inclusive nós mesmos. Assim como o horizonte, também nossas carências e quereres nunca são os mesmos, mudando, mudando.
Podemos nos aborrecer pelas coisas mais corriqueiras ou por coisas vultosas. É aquela estória de se engasgar com uma formiga e engolir um elefante, dependendo muito de nossa resistência, do quanto de paciência já foi usado. É aquela gota que faz o copo transbordar.
Em momentos assim, melhor não escrever, não conversar, nem mesmo namorar, porque termina sobrando para quem está muito próximo. Trabalhar é um sacrifício porque as coisas cotidianas enchem o saco, ler é um virar de página para trás que dá dó! Melhor dormir!
Boa noite!

domingo, junho 3

La vérité

Ontem comprei o dvd de um filme lançado em 1957: Doze homens e uma sentença (com título em inglês bem sugestível à situação - 12 angry men), cuja sinopse é assim apresentada no site Cine Player: "Doze jurados devem decidir se um homem é culpado ou não de um assassinato, sob pena de morte. Onze têm plena certeza que ele é culpado, enquanto um não acredita em sua inocência, mas também não o acha culpado. Decidido a analisar novamente os fatos do caso, o jurado número 8 (Henry Fonda) não deve enfrentar apenas as dificuldades de interpretação dos fatos para achar a inocência do réu, mas também a má vontade e os rancores dos outros jurados, com vontade de irem embora logo para suas casas."
Já tinha visto o filme há cerca de três anos e ficara fascinada com o jogo de possibilidades para um mesmo fato que um dos jurados, no caso o oitavo, interpretado por Henry Fonda, vai desmontando e reconstruindo à medida que põe em dúvida as conjecturas apresentadas pelos demais. Evidencia-se a cada discussão que cada jurado opina tendo por base suas próprias vivências, suas mágoas e dificuldades, num jogo de transferência, uma vez que cada um vai vendo no acusado ora aquilo que condena, ora aquilo que gostaria de fazer com alguém, ou ainda o que sofreu de alguém. Preconceitos de toda ordem vão surgindo em meio a discussões que ficam cada vez mais acaloradas, pois os jurados terminam entrando em conflito um com o outro.
O que chama a atenção no filme, no entanto, é a questão sobre a verdade. O que é a verdade? Segundo Nietzsche não se pode definir a verdade, uma vez que não podemos ter certeza sobre nada, a verdade sendo um mero ponto de vista. Para alguns filósofos a verdade é uma propriedade; para outros, apenas uma ferramenta da nossa linguagem para que não nos percamos em tantas ilusões, sendo necessário um ponto de equilíbrio, se não completo, pelo menos referencial. Aristóteles pregou que a verdade é a adequação entre o que acontece na realidade e o que acontece na mente. Quer dizer, o pensamento cartesiano "cogito ergo sum" é aplicável, uma vez que se duvidamos, pensamos é porque existimos (ou vice-versa), fazendo com que a nossa verdade apareça a partir daí. Se o que está na minha frente é pau, visto pelos olhos como pau, registrado na minha mente como pau, então pau é! Caso insista em dizer que é pedra, melhor fazer como o sapo e ficar pela eternidade na beira da lagoa brigando que é areia, é água, é areia, é água.
Nesse nosso mundo onde tudo se tornou relativo, a verdade mais do que qualquer coisa, pois atrelada a um egocentrismo alarmante, é bom rever nossa escala de valores e tentar descobrir o que estamos colocando em cada patamar da pirâmide, pois contruir a própria vida sobre uma mentira, ou sobre ilusões, não levará a auto-realização nenhuma. E na ânsia de instituir nossa verdade como a única, ressuscitamos a torre de babel onde a cacofonia impera tomando a vez da tolerância e do respeito às diferenças.
Nesse sentido, voltamos ao conceito do que é verdade. Judas quando traiu Cristo será que achou que estava fazendo o certo a ele, Cristo? Pedro acompanhou Cristo um tempão, mas na hora do pega pra capar, disse que não o conhecia. Medo da verdade? Como, se ele era um dos mais entusiasmados pelos ensinamentos? Quais foram as verdades de Judas e de Pedro? Quais foram as verdades, em tempos mais modernos, de todos que desconfiavam, sabiam do Holocausto e mesmo assim fecharam os olhos? Que verdade existe quando nossos jovens matam desumanamente bebês, arrastando-lhes por ruas e a lei não os consideram ainda "maduros" para enfrentar um julgamento?
Nem Aristóteles, nem Nietzsche, muito menos os Busch da vida saberão nos dizer o quê nem por onde a verdade anda. Como responder a isso, se a verdade essencial vive apartada de nós que estamos muito mais preocupados com nossos umbigos, olhando nossos caminhos como se somente eles, por serem nossos, sejam a verdade absoluta? Nas miudezas de que a vida é feita, esquecemos constantemente das leis fundamentais riscadas a fogo por Deus no Monte Sinai, embora até isso possa ser questionado porque o homem sempre teve a dúvida como cerne de muitas conquistas e angústias. Para Allan Kardec, a lei mosaica no que se refere aos dez mandamentos era divina, enquanto que todo o resto dito ao povo durante o exôdus foi criado por Moisés para controlar um povo "ainda turbulento e indisciplinado", no qual um "senso moral e o sentimento de uma delicada justiça eram ainda pouco desenvolvidos".
Mesmo que tenhamos uma verdade e que possamos impôr a ela um atenuante quando se tratar do respeito à verdade do outro, estaremos sempre num dilema porque nenhuma garantia de certeza nos será dada, principalmente quando da vida também aprendemos suas matreirices traduzidas na capacidade de manipulação. E aí está uma outra grande façanha do filme: o oitavo jurado era o único a ter dúvida sobre a culpabilidade do réu e naquelas horas, confinados na sala para a decisão final, ele consegue fazer com que todos mudem suas convicções. Até que ponto ele estava certo em defender a inocência do rapaz? Quem poderia garantir que ele não manipulou todos os argumentos para salvar o réu substituindo culpa por inocência criando uma outra verdade?
No final, somente a lucidez poética do grande Drummond é capaz de esclarecer um tema como a verdade:
"A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada uma optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia."