quarta-feira, fevereiro 4

oSSevA


Corro pela lama, atravesso o sol e a lua distante me observa irônica zombando-me. Arrepia-me pensar na inutilidade da carreira, da volta, da linha reta sobre o trilho, sobre a rua sob a lua. Escapa-me o sentido de duas ruas, quatro prédios ladeira acima e abajo. Recuso-me a ser uma rede social de futilidades e palavras institucionalizadas, diários coletivos ao vento, em traços virtuais dando conta do banho, do jantar, da comida sobre o fogão ou a falta de sono, de dinheiro, de amor, excesso de trabalho. Sou além de ondas computadorizadas, estou além de rótulos, modismos. Abusada, não me contenho na lata do siri que pula, bate e não sai do canto. Meu canto é mais amplo, mais livre porque meu sem alarde.

sábado, setembro 6

Poesia



Os que estudam teoria literária, os que gostam de poesia se atrevem a dar-lhe sentido, investigando o que o autor quis dizer com determinada palavra e não outra. Poesia não se explica, o poema que a tudo esclarece é fato jornalístico (o que foi maravilhosamente dito por Drummond ao afirmar que “não faça versos sobre acontecimentos. (...) Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta,/ pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?"). A beleza da poesia está na multiplicidade de interpretações, sensações que desperta em quem a ler. E melhor poema, aquele que ao ser lido vezes sem conta, vezes sem conta desperta em nós outras sensações, novas interpretações, descobertas.
Professores se atrevem a afirmar que vão ensinar poesia a seus alunos, a amigos. Como ensinar a alguém um sentimento, uma maneira de sentir? Sentimento se ensina? Seja ele bom ou mau, o sentimento se incorpora ao ser à medida que se vive e se vai experimentando sal, fel, o doce amargo da vida, o beijo de afago que recebemos ou que a nós é negado. Poesia é um estado de alma e letrados há que não passam da significação real da palavra, nunca lhe concedendo metáforas, belezas além da linguagem seca, árida, incolor. Entretanto, atribuir significações é apenas intuir significados, vontades atribuídas por quem escreveu no ato da construção do poema – que muitos pensam, brota do espírito sem qualquer esforço, sem qualquer trabalho, espécie de psicografia.
O ato de escrever principia pela familiaridade com as palavras pelo ato contínuo de ler, embora haja os que leem e não possuem facilidade de escrever. Grandes poetas, escritores dão exemplos, mas não apresentam receitas. Escrever é como capinar, não há como colocar a terra distante da enxada, não há como não fazê-lo antes de o mato crescer de novo. Escrever é exercício mental, pois o escrever se estrutura por inteiro na mente e só depois brota no papel, lapidando-se, cortando, acrescentando, apagando, refazendo. 
Aos professores, não ensinem poesia, ainda que seja necessário discutir gêneros, estruturas narrativas. Leiam poesia, especulem as interpretações, das mais inocentes as mais esdrúxulas, deixem que os alunos beirem o ridículo em suas viagens literárias. Façam um exercício: o que significa “dizer segredos de liquidificador” dito pelo eterno Cazuza na belíssima “Codinome Beija-flor”?
E você, sabe o que significa segredos de liquidificador? Eu não sei e já pensei bastante sobre isso. Segredo pressupõe silêncio, a não propagação do dito; liquidificador pressupõe barulho, mistura. Como se coadunam as duas ideias? Embora não compreenda a intenção do poeta, inegável o valor poético de “que só eu que podia/ dentro da tua orelha fria/ dizer segredos de liquidificador”.

sábado, agosto 31

Petra



Quando fui pedra / quarando os choros em beira de rios
Avolumei lágrimas e cansaços.
Quando fui guerra / incendiando os passos em desalentos
Arrebentei amarras e depressões.
Quando fui pedra.

Quarando ternura sobre as pedras / quando fui guerra
Acariciei risos e abraços.
Fui pedra.
Expurgando dores sob os risos/quando fui pedra
Expulsei toda a mágoa e solidão.
Fui guerra.

Inundei toda tristeza e desamparo
Refiz a vida e a receita
Apedrejei toda ausência e traição.
Pedra.
Enganei  a saudade e a maldição
Expus meu riso em largas praças
Mudei de tênis e de calçada.
Guerra.

Quando sou nuvem /  passarinhando por entre os fios
Levito sobre o dossel encantado
Caio, levanto e passo
Estendo o braço e ergo as mãos.
Sou pedra feita de aço.

domingo, agosto 4

ARCo



Se te vejo sob a moldura
meus braços se transformam em emoção
tuas mãos são arcos elevados
amor e sedução.
Quando te sinto bem de perto
teu olho translúcida paixão
transfigura minha alma em desatino
perco arco, deixo o chão.
Se te perco de meu olhar
figura solta em vão de porta
destino se mistura em oração
caminho torto de perdição.
Quando me sinto em comunhão
tua alma água em ebulição
faz em minha fronte santa bênção
perco medo, deixo o chão.

domingo, julho 14

Costura




Quando te pensei costura
A linha se emaranhou em minha mão
Feito lã e gato enovelados.

Quando te pensei poente
O sol se fez inverno em tua face
Feito frio e agasalho acasalados.

Quando te pensei copo
A água se fez mais límpida em meu olho
Feito gelo e calor emparelhados.

Agora que fazes costura em minh’alma
E lavas minha ternura em teu agasalho
Não há frio nem poente.
Não há limpidez maior em minha face
Nem linha em traçado tão caliente.
Agora que em minh’alma calor fazes.

sábado, julho 6

Luta fugaz


As mãos passeam lentas
por um campo minado
de amor.
Fogueiras acendem-se
e na horizontal
labaredas de paixão ascendem
consumidas em carinhos.
As vozes sussurram dentro da noite
suores escorrem entre corpos.
Sou grito estendido e mão contraída.
És respiração ofegante, aperto mais forte.
Ambos guerrilheiros do amor
empenhados em uma luta
que a tudo exalta
e em um instante morre.

quarta-feira, junho 5

Flash

A voz se aquieta em dormente apatia.  
O silêncio cala a angústia
amedronta o amor
e nas armadilhas a paixão emudece.
O olhar contempla aflito e errante
a alma pulsa em compasso desespero.
Os pés, esses cambaleiam na incerteza          
dunas de indiferença e  solidão.
A palavra faz o caminho inverso
afastamento de quem pontua errado
um texto já esquecido, de outrora sentido.
Teimosa a mão se lança no abraço
a cabeça em maresia se eleva
tonta de esperança e fé.
O tempo irá dizer
se insensatez ou comunhão.