--> EsCRiToS N'ÁgUa

EsCRiToS N'ÁgUa

"Porque não mais espero retornar, porque não espero, porque não espero retornar, a este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto, não mais me empenho no empenho de tais coisas (Por que abriria a velha águia suas asas?), por que lamentaria eu, afinal, o esvaído poder do reino trivial?" - T. S. ELIOT

Sexta-feira, Junho 5

Palavras, ó palavras

Esta é uma máxima contida no livro Ilusões de Richard Bach que li há 31 anos atrás. Pode? Tenho um tempo enorme de palavras a me perseguir!
O livro é uma espécie de Pequeno Príncipe, uma estória contada por um camarada que gosta de voar e um dia encontra um outro camarada que lhe dá alguns ensinamentos a conta gota para melhor encarar a vida. Pode-se dizer que o livro foi o precursor de tantos da linha auto-ajuda, os Paulo Coelhos & Cia ilimitada.
Gostei do livro à época e não posso negar que me ajudou bastante e às vezes ainda me pego repetindo alguns dos seus conselhos, mesmo que a vida vá nos mostrando que determinados aforismos não são tão certos, quer dizer, nem sempre servem quando chega a hora de a onça beber água. Como metáfora, é um exemplo ímpar de escrever para a multidão sedenta de palavras bonitas a serem gastas em conversa de bar.
O livro é semelhante aos inúmeros otimismos em gotas que tanto sucesso ainda fazem. O diferencial é que há uma preocupação em incutir no leitor uma fé, é necessário se ter uma fé para se viver, para os enfrentamentos diários de todos nós. E nisso ele não errou, mesmo que as palavras com açúcar sejam questionáveis.
Por exemplo: “Não existe um problema que não ofereça uma dádiva para você. Você procura os problemas porque precisa das dádivas por eles oferecidas.” Freud já dizia bem antes dele, mas sem a poesia. Outro: “Nunca lhe dão um desejo sem também lhe darem o poder de realizá-lo. Você pode ter de trabalhar por ele, porém.” Esse é ótimo para as pessoas que ficam sentadas vendo a banda passar, esperando que apareça alguém que lhe ofereça um emprego, uma solução para algum problema, que ficam de olhos postos no céu esperando a graça de Deus, quando do céu só cai chuva. Se tiverem coragem, movem-se e possivelmente aconteça uma mudança.
Mudar nunca é do dia pra noite (mas até que pode ser da noite pro dia, pois a noite sempre traz mistérios e revelações). É necessário saber compreender o tempo (ingrato), saber arregaçar as mangas (no calor, melhor camiseta regata), correr atrás do que se quer e não ficar ao Deus dará. Deus dará, se também nos dermos a determinação.
Ao ler o livro não se precisa ler mais nenhum dos tais que fazem sucesso por aí, pois se descobre que com algumas alterações de palavras, a idéia é a mesma. Na verdade, não sei bem porque livros de auto-ajuda fazem tanto sucesso, vendem tanto. Parece que as pessoas querem encontrar nas palavras dos outros o que deveriam encontrar em si mesmas, no silêncio que acompanha a reflexão. Ou, são jovens e querem experiência através dos feitos alheios; ou, são vividos (né cumadi?) e querem descobrir o algo mais para continuar.
Afinal, tudo está dentro de nós. Entretanto, palavras nunca são demais. Algumas hão de ficar e plantar-se, embora Cecília Meireles já pontificasse: "Não nascem lírios de lua pelos corações de pedra”!

Sexta-feira, Maio 15

Uma ROSA é uma rosa

Quando a conheci, tinha o cabelo penteado de modo casual para parecer despenteado, não muito longo, de uma cor que hoje não sei mais precisar. Possivelmente louro, mas não o convencional para se associar à famigerada fama de loura burra. De burra não tinha nada; aliás, não tem.
Era abril de 1991 e sua chegada provocou um verdadeiro terremoto em um lugar acostumado à mesmice, onde quem tinha muitos anos de trabalho se vangloriava do tempo, do amor pelo lugar, mas preferia que nada fosse alterado. Alterar era questionar, inquietar-se, possivelmente trabalhar mais. Incisiva, não demorou a anunciar a que tinha ido. Não estava ali pelos seus belos olhos claros, mas para colocar em prática suas idéias sobre o que seria uma educação de qualidade.
Tinha em si uma força e uma coragem ímpares, embora em alguns momentos parecesse desiludida com a natureza humana, com os discursos distanciados da prática. Contudo, não perdia os rumos. Cautelosa, observou o espaço, as pessoas, dando-lhes tempo para a poeira do terremoto se esvair no vento. Passado o tempo que a si mesma se deu para as acomodações, impulsiva pôs mãos na massa furando o bloqueio da indiferença, da raiva fermentada que em alguns atravancava o fazer.
Passamos a partilhar os desafios que o trabalho nos impôs. A ela, tacharam de autoritária por querer o cumprimento de horários e funções, por não aceitar uma prática que não alcançava os alunos; a mim, de traidora por não compactuar com os desmandos, pretensamente me desviando do grupo a quem cabia uma oposição, quaisquer que fossem os direcionamentos. O lema cubano virou moeda corrente: si hay gobierno, soy contra. Por um tempo, ainda foi possível no perder la ternura. Depois, não.
De tanto vê-la na ânsia de acertar, mudar o que parecia pedra e fogo, preguei-lhe na sala um cartaz com os dizeres de Drummond: “Lutar com palavras é a luta mais vã. No entanto, luto mal rompe as manhãs.” Era um lembrete para a perseverança da esperança necessária a todo educador, que ela se lembrasse que educação é um fazer complexo, demorado e árduo por que complexas são as pessoas e o domar a mesmice não é tarefa que se faz em dedos contados.
Na convivência, descobrimos o gosto por Chico Buarque e um bom vinho. Perdíamos a noção do tempo entre papéis e conversas à noite, atualizando documentos, idéias de trabalho e o encantamento singular que toda amizade tem. Via nela uma fome de vida, uma pressa em viver tudo a que tinha direito de uma vez só, uma inquietação que não a deixaria ali por muito tempo. Nem ali nem na vida que à época vivia. Imaginava-se em longas travessias, sorvendo de uma única vez o que a vida lhe reservaria, mãos e braços abertos para o que viesse. E a vida não lhe seria aquelas salas, aquela gente.
Muitas vezes me falava que não deveríamos estar na profissão de professora, que éramos inteligentes demais para aquela mesmice (modéstia dela e minha), para uma profissão que dez anos depois ainda teria quase que os mesmos resultados. Sonhava montar uma empresa, um restaurante, um negócio que lhe desse prazer e dinheiro. O mundo era muito vasto.
Quando as palavras já não surtiam efeito, ela se foi. Eu fiquei e lá permaneci para também sair quatro anos depois. Ela realizou os sonhos dos negócios e do prazer de ter restaurante. Aumentou a família, divorciou-se. A exuberância continua e acredito que não passe indiferente pela vida de ninguém. Eu continuei educadora, não aumentei a família, divorciei-me.
De caminhos paralelos temos feito a nossa vida. Há anos não nos encontramos, não tomamos o vinho, não ouvimos as velhas músicas de Chico. No entanto, a qualquer dia recomeçaremos a conversa de onde paramos, pois de longe há muito perto a identidade que nos fez colegas de trabalho ao mesmo tempo amigas onde estejamos.
PS.: Parabéns, Rosa Macedo.

Terça-feira, Maio 12

Lição de casa

Vinte e cinco anos passei trabalhando em um mesmo lugar, na mesma escola. Para ser exata, foram 9.484 dias de serviço, segundo está escrito na placa que a mim foi dada pela atual direção da Escola, quando de lá saí. Passei metade da minha vida na Escola Mun. Iapissara Aguiar. Saí da escola há dois anos e a escola ainda não saiu de mim.
Não sei se algum dia sairá. Acho que não. Acho que ela sairá de mim quando em mim não restar memórias e ainda assim temo que ela será uma das lembranças que se misturarão ao turbilhão de imagens provocado pela velhice. Eu espero envelhecer.
Escrevo isso hoje, porque fui na página do Orkut de uma aluna que hoje aniversaria e em uma das fotos em seu álbum ela está com uns colegas sentada sobre a mesa do refeitório, os pés sobre o banco, um colega sentado adequadamente no banco. E lágrimas me vieram quando li a legenda posta na foto: saudades. Ela sente saudades dos colegas e do tempo que passou lá naquela escola. Eu também.
Não sei se o que me faz sentir saudades e chorar é o espaço físico da escola que vi crescer, a falta da balbúrdia que toda escola tem e não é mais do que vida, se é a falta do convívio com os amigos que fiz por lá. Desses, alguns ainda me acompanham onde for, onde estou, cimentam a amizade que lá nasceu. Possivelmente, choro sentindo falta de mim, da professora idealista que um dia chegou acreditando mudar o mundo. O mundo eu não mudei, mas tenho consciência que mudei alguns alunos e mais consciência ainda de que eles me fizeram mudar.
Aprendi com eles, e nunca deixarei de reconhecer isso, muito mais do que fui capaz de ensinar-lhes. Alguns quando me encontram me agradecem até mesmo pelas reprimendas, pelos "castigos" (castigo maior era chamar a mãe e dizer do comportamento, até que eles me ensinaram que o melhor seria conversar e com eles mesmos negociar uma mudança, fazendo-os reconhecer o erro, "pagar" pelo mal feito).
Não me perguntem se tinha uma linha construtivista, piagetiana, ou de algum outro teórico. Tinha apenas a clara noção que se deve ensinar responsabilidade, que a vida não é fácil, que pagamos um preço por tudo, sejam nossos acertos e/ou erros, mas nem por isso a vida precisa ser só dever de casa, brincadeira, tirar dez. Pode-se sim, tirar somente a média para passar, pode-se brincar, "ficar" com alguém nos bancos da escola sem necessidade do escurinho do muro. Pode-se achar a escola um lugar bom onde também se estuda. Também, porque alguns alunos acham que escola é lugar pra tudo, menos pra estudar!
Vez em quando vou lá. Sou recebida muito bem, festejam-me e é bom. Mas, paro e contemplo as árvores que plantei, (das que encontrei lá há vinte e sete anos atrás, não resta nenhuma) e vejo, sinto que não é a mesma coisa. Poucas vezes voltei ao turno vespertino, que foi sempre o meu xodó, pois nele fui professora, coordenadora antes de ser diretora. As minhas maiores lembranças estão naquele horário das 13 às 17:30, antes até 17, 18 horas, começando mais cedo, mais tarde. Não tenho coragem de enfrentar o entardecer sentada em dos bancos olhando a quadra se encher de alunos para mais um treino, alunos sentados nos bancos fazendo hora pra ir embora, correndo, fazendo "arte".
Também me aborreci lá. Muitas vezes. Dores menores, maiores, de todas as cores e faces. Fui desrespeitada, ignorada, agredida na minha integridade, pessoas me decepcionaram, feriram-me profundamente. Tão profundamente que ainda lembro da dor, embora os detalhes já apareçam nublados. Muitas vezes chorei, quis sair e não voltar e voltava. Até que saí de vez.
Saí acreditando no que fazia, saí pelo esgotamento físico e emocional de lidar com coisas e pessoas que andavam e davam voltas, a impressão que nada mais valia ser feito. Era a hora de deixar para outros a tarefa, deixar a alguns, especialmente, a brecha que tanto reclamavam para respirar sem ter uma "autoridade". O tempo, senhor de todos os males e bens, dirá a resposta. A mim, ele já me disse e diz que o poeta tinha razão: "Quem quer passar além da dor, tem que passar além do Bojador. Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena".


Terça-feira, Abril 21

Gira mundo

Ao acessar hoje a página da UOL, deparo-me com as fotos dando conta que os israelenses pararam durante dois minutos em respeito aos seis milhões de judeus mortos durante a Segunda Guerra. É o dia da Shoah.
Então, lembrei-me de dois livros lidos há pouco tempo, os dois transformados em filmes, embora só tenha assistido a um deles até agora. Vi O leitor e espero ver O Menino do Pijama Listrado. Ambos abordam o lado germânico da questão sob prismas diferentes. O primeiro no contacto que um adolescente alemão tem com uma mulher mais velha que ele, de quem se torna amante, e que anos depois a vê sentada no banco dos réus como ex-guarda da SS, acusada de participar da morte de várias mulheres judias, presas durante um incêndio em uma igreja. No segundo, um relato emocionante, ingênuo de um garoto, cujo pai leva toda a família para um campo de concentração, analogia a Auschwitz, pelo som do nome, onde será o comandante. Pela janela do quarto, o garoto vê os prisioneiros com seus uniformes listrados e cinzentos e explorando o lugar por entre a cerca encontra um garoto judeu com quem trava amizade.
Israel não esconde suas dores, suas feridas abertas, a morte de judeus durante qualquer período na história mundial. Pelo contrário, faz disso o seu libelo, anunciando para que não volte a acontecer, enquanto sitia, ataca e mata palestinos ou qualquer outros que sejam ameaças ao país e seu povo. Longe de mim, discutir a questão palestina X israelenses porque nisso vai muito mais do que é capaz minha pouca compreensão da política. Eu só ainda não sei se tanta dor e perseguição dão direito ao povo israelense de ir tanto à briga, embora seja difícil não ter empatia por um povo que ao longo da história sofreu tantas perseguições.
Se Israel é o povo escolhido – o próprio nome Israel significa em hebraico aquele que luta com Deus – há muito o que pensar se essa escolha lhe dá direito a lutar até a morte para ter seus direitos respeitados, desrespeitando, por sua vez, os direitos dos outros. No seu blog, numa postagem do mês de fevereiro,
Saramago tece uma crítica veroz a Israel – em que não está sozinho, pois grande parte do mundo condena essa atitude de Israel para com os palestinos.
Voltando aos livros - tema mais bem seguro que a política.

O Leitor é um livro de fácil leitura pelas poucas páginas que tem - apenas 238 - mas que nos leva a pensar como a doutrina hitleriana foi forte ao ponto de não deixar em seus seguidores - notadamente nos que praticaram atos violentos - quase nada de culpa. Havia uma tarefa a ser feita, alguém precisava fazer. Pronto. Ponto. Não havia o quê questionar. Fora do trabalho, havia pessoas normais, que amavam, choravam, sofriam. E é nisso que reside a força do livro, deixada à mostra fabulosamente na interpretação de Ralph Fiennes e Kate Winslet no filme, por mostrar que para os alemães a guerra em sua perseguição aos judeus ainda é um fato dolorido, de difícil superação, mesmo quando há amor entre as pessoas.
O Menino do Pijama Listrado tem um final sensivelmente triste e deixa a marca da inquietação: o que se faz a outrem pode num segundo suceder a nós mesmos. Uma lição que esquecemos com frequência, seja como indivíduos ou como governos. Se crescéssemos com a atitude franca de amizade que as crianças têm, seríamos mais tolerantes com as diferenças, não teríamos tanta ânsia de poder. Mas, isso é uma utopia. Desde que o mundo é mundo que os povos brigam e pela vontade de serem mais fortes encontram qualquer motivo para disputas.

Sábado, Abril 11

Inefável

"Não te doas do meu silêncio.
Estou cansado de todas as palavras:
- Não sabes que te amo?
Pousa a mão na minha testa.
Captarás numa palpitação inefável
O sentido da única palavra essencial
- Amor."

Esse é um dos poucos poemas que sei de cor, pois há muitos anos dele me utilizei para dar uma aula. E lia nele pela primeira vez a palavra inefável, tão desconhecida que fui em busca do dicionário para decifrá-la. Desde então, o poema de Manuel Bandeira sintetiza pra mim muitas coisas que há na vida, entre elas o amor sentido e tão difícil de ser expresso por palavras.
Ser inefável bastaria para designar o amor, mas teimamos em desvendá-lo, como se palavras postas no papel ou ditas – às vezes até mal ditas! – a alguém pudessem ser mais precisas do que o sentimento em si. Da mesma forma que erramos quando muito falamos, podemos errar ao ficar calados. Para o amor não deveriam existir palavras, nem mal entendidos, silêncios carregados, choros desesperados ou arrependidos.
Ao amor deveria se bastar nossa verdade sem palavras, “tão contrário a si é o mesmo amor”.
Foto da postagem by José Marafona.

Sábado, Março 28

ATéIA

A cada batida do coração
o homem pensa que ama
(se o amor não existisse
o que seria do homem?).
A cada lágrima que do rosto cai
o homem diz que sofre
(se o sofrimento não existisse
o que se daria ao homem?).
A cada abraço apertado
imagina o homem a amizade
(se não se fizessem amigos
o que se faria do homem?).
A cada palavra pronunciada
finge o homem revelar-se
(se não houvesse palavras
que significado teria o homem?).
E formou-se uma teia
ao redor de todo o homem
tornando-o ao mesmo tempo
viajante e fugitivo no mundo.

Imagem by Arlindo Fernandez.

Sábado, Março 14

Any word

Quando penso em escrever nunca sei sobre o que será. Sento-me e deixo que as palavras apareçam sob as pontas dos meus dedos passeando no teclado. O pensamento anda tão mais rápido que as mãos, que troco letras, deleto e assim vai se formando um texto.
Já perdi muitos devido a problemas com o computador. Outros apaguei na primeira leitura por achá-los bestas, idiotas, eruditos, incompreensíveis, evasivos ou até mesmo invasivos, mostrando o que não quero revelar. Muitos rasguei depois de anos por não combinarem mais com quem sou.
Acho que escrever é um espírito que se põe bem aqui ao meu lado e me faz dedilhar um piano sem som – que tipo de espírito não sei, não sei nem mesmo se todas as vezes – ou se alguma vez! – sou eu mesma.
Como professora de Português, há uma preocupação de construir o período certo, a concordância limpa, as palavras claras e objetivas. Pecado mortal para quem escreve querer ser claro e objetivo, porque quanto mais as mãos dedilham, mas a cabeça acende trazendo palavras não sei de onde.
Enquanto escrevo, não paro para ler, muito mesmo para corrigir. Quando acho que está bom, paro, leio, apago, releio, vou modelando na tentativa de algo que pelo menos eu não sinta vergonha de dizer que escrevi. Não sei se alguns se arrependem por lê-las – é provável – mas, não me dou ao luxo de auto me denominar escritora. No máximo uma escrevinhadora que exorciza os demônios através das letras. O luxo a que me dou é o de pensar que quem me lê pode me conhecer e me reconhecer nas palavras.

Cliquem aqui e leiam o poeta português Mário Cesariny.

Domingo, Março 8

Vivir Morir

Atear fogo às palavras, mentir
atear fogo ao sentimentos, anestesiar-se
atear fogo à vida, fugir
sumir por entre fumaças
saudades
atear fogo ao fogo, consumir-se
deixar brasas pelos cantos
atear fogo à voz, negar-se
atear fogo à angústia, gritar
sem bombeiro sem água
adiar os incêndios
atear fogo à alma, morrer
atear fogo à lembrança, chorar
atear fogo a si mesmo, anular-se
rastros de chamas pela vida
entre o atear e o apagar, viver.