domingo, junho 3

La vérité

Ontem comprei o dvd de um filme lançado em 1957: Doze homens e uma sentença (com título em inglês bem sugestível à situação - 12 angry men), cuja sinopse é assim apresentada no site Cine Player: "Doze jurados devem decidir se um homem é culpado ou não de um assassinato, sob pena de morte. Onze têm plena certeza que ele é culpado, enquanto um não acredita em sua inocência, mas também não o acha culpado. Decidido a analisar novamente os fatos do caso, o jurado número 8 (Henry Fonda) não deve enfrentar apenas as dificuldades de interpretação dos fatos para achar a inocência do réu, mas também a má vontade e os rancores dos outros jurados, com vontade de irem embora logo para suas casas."
Já tinha visto o filme há cerca de três anos e ficara fascinada com o jogo de possibilidades para um mesmo fato que um dos jurados, no caso o oitavo, interpretado por Henry Fonda, vai desmontando e reconstruindo à medida que põe em dúvida as conjecturas apresentadas pelos demais. Evidencia-se a cada discussão que cada jurado opina tendo por base suas próprias vivências, suas mágoas e dificuldades, num jogo de transferência, uma vez que cada um vai vendo no acusado ora aquilo que condena, ora aquilo que gostaria de fazer com alguém, ou ainda o que sofreu de alguém. Preconceitos de toda ordem vão surgindo em meio a discussões que ficam cada vez mais acaloradas, pois os jurados terminam entrando em conflito um com o outro.
O que chama a atenção no filme, no entanto, é a questão sobre a verdade. O que é a verdade? Segundo Nietzsche não se pode definir a verdade, uma vez que não podemos ter certeza sobre nada, a verdade sendo um mero ponto de vista. Para alguns filósofos a verdade é uma propriedade; para outros, apenas uma ferramenta da nossa linguagem para que não nos percamos em tantas ilusões, sendo necessário um ponto de equilíbrio, se não completo, pelo menos referencial. Aristóteles pregou que a verdade é a adequação entre o que acontece na realidade e o que acontece na mente. Quer dizer, o pensamento cartesiano "cogito ergo sum" é aplicável, uma vez que se duvidamos, pensamos é porque existimos (ou vice-versa), fazendo com que a nossa verdade apareça a partir daí. Se o que está na minha frente é pau, visto pelos olhos como pau, registrado na minha mente como pau, então pau é! Caso insista em dizer que é pedra, melhor fazer como o sapo e ficar pela eternidade na beira da lagoa brigando que é areia, é água, é areia, é água.
Nesse nosso mundo onde tudo se tornou relativo, a verdade mais do que qualquer coisa, pois atrelada a um egocentrismo alarmante, é bom rever nossa escala de valores e tentar descobrir o que estamos colocando em cada patamar da pirâmide, pois contruir a própria vida sobre uma mentira, ou sobre ilusões, não levará a auto-realização nenhuma. E na ânsia de instituir nossa verdade como a única, ressuscitamos a torre de babel onde a cacofonia impera tomando a vez da tolerância e do respeito às diferenças.
Nesse sentido, voltamos ao conceito do que é verdade. Judas quando traiu Cristo será que achou que estava fazendo o certo a ele, Cristo? Pedro acompanhou Cristo um tempão, mas na hora do pega pra capar, disse que não o conhecia. Medo da verdade? Como, se ele era um dos mais entusiasmados pelos ensinamentos? Quais foram as verdades de Judas e de Pedro? Quais foram as verdades, em tempos mais modernos, de todos que desconfiavam, sabiam do Holocausto e mesmo assim fecharam os olhos? Que verdade existe quando nossos jovens matam desumanamente bebês, arrastando-lhes por ruas e a lei não os consideram ainda "maduros" para enfrentar um julgamento?
Nem Aristóteles, nem Nietzsche, muito menos os Busch da vida saberão nos dizer o quê nem por onde a verdade anda. Como responder a isso, se a verdade essencial vive apartada de nós que estamos muito mais preocupados com nossos umbigos, olhando nossos caminhos como se somente eles, por serem nossos, sejam a verdade absoluta? Nas miudezas de que a vida é feita, esquecemos constantemente das leis fundamentais riscadas a fogo por Deus no Monte Sinai, embora até isso possa ser questionado porque o homem sempre teve a dúvida como cerne de muitas conquistas e angústias. Para Allan Kardec, a lei mosaica no que se refere aos dez mandamentos era divina, enquanto que todo o resto dito ao povo durante o exôdus foi criado por Moisés para controlar um povo "ainda turbulento e indisciplinado", no qual um "senso moral e o sentimento de uma delicada justiça eram ainda pouco desenvolvidos".
Mesmo que tenhamos uma verdade e que possamos impôr a ela um atenuante quando se tratar do respeito à verdade do outro, estaremos sempre num dilema porque nenhuma garantia de certeza nos será dada, principalmente quando da vida também aprendemos suas matreirices traduzidas na capacidade de manipulação. E aí está uma outra grande façanha do filme: o oitavo jurado era o único a ter dúvida sobre a culpabilidade do réu e naquelas horas, confinados na sala para a decisão final, ele consegue fazer com que todos mudem suas convicções. Até que ponto ele estava certo em defender a inocência do rapaz? Quem poderia garantir que ele não manipulou todos os argumentos para salvar o réu substituindo culpa por inocência criando uma outra verdade?
No final, somente a lucidez poética do grande Drummond é capaz de esclarecer um tema como a verdade:
"A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada uma optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia."
















































































































































































2 comentários:

Lucila disse...

Uau!

maria olimpia disse...

A Lucila disse Uau e eu fiquei muda. Vi este filme e o tratamento que você deu ao artigo sobre ele é excepcional. Vou reler. quando gosto muito é isso que faço.