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Caso de verão

A areia quente da praia não permite um andar vagaroso. A falta de firmeza a impede de correr. Às 8 da manhã já percorria a orla indo e vindo e até agora muitos nãos. Meio dia, a hora mais adequada para que consiga o que quer. Caso não se arranje até as três horas, o jeito será desistir, dobrando-se cansada, guardando-se para amanhã.
Nessa época a cidade é um amontoado pelas praias, pelas ruas. Os bares cheios a toda hora, carros tomando ruas e calçadas. Os bares não têm o que procura, nem mesmo aqueles à beira-mar, não querem o que está oferecendo. Nas ruas não encontra pretensa companhia, mesmo com tanta gente. O melhor lugar é a praia. Como há muitas, tem que escolher a cada dia aonde vai, pois o dinheiro não dá para pegar condução de uma zona a outra da cidade. Quando escolhe o litoral - sul ou norte - percorre todas as praias à beira d'água, molhando-se em parte, o que a deixa pesada, quase se arrastando pela areia.
Todo o verão vive isso. Teimosamente resiste contrária às opiniões que lhe dizem para não insistir nesse tipo de oferta, que não vai encontrar quem a queira. No inverno, talvez, quem sabe. Não escuta. Sempre foi teimosa e não foi feita para ficar à toa, sozinha sem par. Alguém há de querê-la. Afinal, não dizem que não falta uma bota para um pé inchado? Então! Também lhe avisam do perigo que corre se oferecendo por aí. Perigo até de doença que deixa manchas, que mata. Ela se protege e também a quem com ela está, não é boba.
Não pode viver do tanque para o varal como se não houvesse um corpo com quem a vida partilhar. Admite que não seja mais vistosa, já tenha seus próprios vincos, marcas de tanto uso. É considerada velha, mas ainda serve, tem gente que daria tudo para tê-la. A essa gente não procura, é orgulhosa, não quer ficar colada o tempo todo em alguém que mal se sustenta de pé. Quer pelo menos um ar apresentável, sabendo que será usada, como sempre o foi, não conhece forma diferente e até a isso se acostumara. Melhor isso a ser deixada de lado.
Às vezes pensa em sair da cidade que é do sol o ano inteiro, morar num lugar mais frio. Aí pensa que teria outro problema, não foi feita para tanto frio, quase raquítica, pele azulada de veias amostras. O orgulho mais uma vez lhe atravessa o caminho, pois sabe que não conseguiria viver escondida sob casacos de pele, longos sobretudos, cachecóis vistosos brilhando mais do que ela. Nem olhariam para ela e isso ela não suportaria.
Cansada, resolve arriscar uma vez mais. Se nada conseguir, vai embora e quem sabe amanhã. Aproxima-se de um grupo sentado na areia. Timidamente, oferece-se. O espanto de todos já lhe diz o não. Insiste, não adianta. De tão espantados, nada falam. Um entre o grupo arrisca a dizer o que ela já sabe, como sabe que o verão inteiro ouvirá a mesma resposta:
- Tá doida? Nem pensar em ficar com você! A última coisa que a gente quer agora é uma calça!

Comentários

Anônimo disse…
vc é suspreendente!(Maria Olimpia)
Fantasma disse…
Não maltrate essa sua pobre amiga. Tive que ler com o nariz encostado no monitor. Mas valeu a pena!

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