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Uma ROSA é uma rosa

Quando a conheci, tinha o cabelo penteado de modo casual para parecer despenteado, não muito longo, de uma cor que hoje não sei mais precisar. Possivelmente louro, mas não o convencional para se associar à famigerada fama de loura burra. De burra não tinha nada; aliás, não tem.
Era abril de 1991 e sua chegada provocou um verdadeiro terremoto em um lugar acostumado à mesmice, onde quem tinha muitos anos de trabalho se vangloriava do tempo, do amor pelo lugar, mas preferia que nada fosse alterado. Alterar era questionar, inquietar-se, possivelmente trabalhar mais. Incisiva, não demorou a anunciar a que tinha ido. Não estava ali pelos seus belos olhos claros, mas para colocar em prática suas idéias sobre o que seria uma educação de qualidade.
Tinha em si uma força e uma coragem ímpares, embora em alguns momentos parecesse desiludida com a natureza humana, com os discursos distanciados da prática. Contudo, não perdia os rumos. Cautelosa, observou o espaço, as pessoas, dando-lhes tempo para a poeira do terremoto se esvair no vento. Passado o tempo que a si mesma se deu para as acomodações, impulsiva pôs mãos na massa furando o bloqueio da indiferença, da raiva fermentada que em alguns atravancava o fazer.
Passamos a partilhar os desafios que o trabalho nos impôs. A ela, tacharam de autoritária por querer o cumprimento de horários e funções, por não aceitar uma prática que não alcançava os alunos; a mim, de traidora por não compactuar com os desmandos, pretensamente me desviando do grupo a quem cabia uma oposição, quaisquer que fossem os direcionamentos. O lema cubano virou moeda corrente: si hay gobierno, soy contra. Por um tempo, ainda foi possível no perder la ternura. Depois, não.
De tanto vê-la na ânsia de acertar, mudar o que parecia pedra e fogo, preguei-lhe na sala um cartaz com os dizeres de Drummond: “Lutar com palavras é a luta mais vã. No entanto, luto mal rompe as manhãs.” Era um lembrete para a perseverança da esperança necessária a todo educador, que ela se lembrasse que educação é um fazer complexo, demorado e árduo por que complexas são as pessoas e o domar a mesmice não é tarefa que se faz em dedos contados.
Na convivência, descobrimos o gosto por Chico Buarque e um bom vinho. Perdíamos a noção do tempo entre papéis e conversas à noite, atualizando documentos, idéias de trabalho e o encantamento singular que toda amizade tem. Via nela uma fome de vida, uma pressa em viver tudo a que tinha direito de uma vez só, uma inquietação que não a deixaria ali por muito tempo. Nem ali nem na vida que à época vivia. Imaginava-se em longas travessias, sorvendo de uma única vez o que a vida lhe reservaria, mãos e braços abertos para o que viesse. E a vida não lhe seria aquelas salas, aquela gente.
Muitas vezes me falava que não deveríamos estar na profissão de professora, que éramos inteligentes demais para aquela mesmice (modéstia dela e minha), para uma profissão que dez anos depois ainda teria quase que os mesmos resultados. Sonhava montar uma empresa, um restaurante, um negócio que lhe desse prazer e dinheiro. O mundo era muito vasto.
Quando as palavras já não surtiam efeito, ela se foi. Eu fiquei e lá permaneci para também sair quatro anos depois. Ela realizou os sonhos dos negócios e do prazer de ter restaurante. Aumentou a família, divorciou-se. A exuberância continua e acredito que não passe indiferente pela vida de ninguém. Eu continuei educadora, não aumentei a família, divorciei-me.
De caminhos paralelos temos feito a nossa vida. Há anos não nos encontramos, não tomamos o vinho, não ouvimos as velhas músicas de Chico. No entanto, a qualquer dia recomeçaremos a conversa de onde paramos, pois de longe há muito perto a identidade que nos fez colegas de trabalho ao mesmo tempo amigas onde estejamos.
PS.: Parabéns, Rosa Macedo.

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