Pular para o conteúdo principal

Mata o papai

Dia desses, precisamente em 07 de setembro, sem ânimo e patriotismo para ver Parada Militar, fui com amigos comer ginga com tapioca na Redinha. E constatei o quanto praia é território livre e democrático.
Avessa à água, pra mim só a de chuveiro!, enquanto saboreava o par tapioca-ginga, observava o vai e vem da pequena multidão. Uma variedade de tons e sons me fazia pensar o quanto somos elitistas, o quanto o povo se contenta com pouco - ou pelo menos se diverte com pouco! Talvez não seja o caso de usar o verbo contentar-se, porque minha parca psicologia não inferia se havia contentamento de verdade, aquele contentamento que transborda e deixa uma sensação de felicidade quando tudo se acalma e o divertimento se vai - havia, sim, um contentamento instantâneo, inegável pelas risadas, cervejas, requebros.
E por que somos elitistas? Professor tem a mania de não se considerar povo. Povo é aquela pessoa que não é letrada - não que seja analfabeta, mas não alcançou o letramento conceituado por Magda Soares. A forma de lazer do povo é diferente da pequena burguesia ferrada que se acha! 
Confesso que na maioria das vezes também não me livro dos meus modos machadianos, de cortar carne colocando a faca na mão direita, de tomar vinho com água, mas não me envergonho de dizer que por esses dias tenho ouvido a trilha sonora das novelas Cheias de Charme e Avenida Brasil. Não que tenha comprado os cds ou que os escute diariamente. Faço (para ser pedante, poderia usar a forma "fá-lo", corretíssima!) para saber o que os jovens tanto curtem e porque o fazem.
Curtem porque as músicas são dançantes, pegajosas, têm refrões que não saem da cabeça. Poesia? Qual o quê! Que poesia há em "assim você mata o papai"? Há a realidade de um homem mais velho que quase morre ao se relacionar com uma jovem - tão comum em nossa realidade social. Que respeito há em "cachorro, perigoso, safado, carinhoso e pronto pra te dar amor, louco pra fazer amor"?  Há mulheres que não se importam se ele vive doido por um rabo de saia, desde que seja amante apaixonado.
Voltando à praia. Havia uma miscigenação de gente tão grande, que me alarmou. No meu mundo família - casa - trabalho - professores - leituras - internet não há visões de corpos magros, gordos, suados, celulites à mostra, pouca roupa, muito corpo, peles brancas, negras queimadas. As pessoas vão à praia de uma forma livre como não o são em nenhum outro lugar.
Não importa o corpo, importa usar a moda exibida pelo corpo magérrimo da modelo, da atriz que se pretende imitar - quer dizer, seguir. A própria vida é cinza em comparação as mostradas nas revistas, na tv e seja necessário fugir dela, também criando uma personagem, exibindo-a em praia - talvez a cor cinza seja apenas dada por mim pela minha soberana crítica à razão impura de uma professora pseudo intelectual e a um preconceito mal disfarçado.
Além de praia, somente ônibus é território livre, embora não tão democrático, porque quando se economiza, o primeiro bem a ser adquirido é um carro, muitas vezes antes de uma casa, apartamento. Como nem sempre sou igual a todo mundo, ando de ônibus todo santo dia e há muito desisti de comprar carro - garanto a vocês que por essas ruas, é melhor não ser motorista.
Entretanto, em que pese os pré e os conceitos, as pessoas precisam encontrar suas formas de lazer, de desenvolver a sua auto-estima. Todos nós temos o direito de gostar da música que quiser, ouvi-las, dançar, beber aguardente 51 ou licor 43. Não nos cabe desrespeitar alguém pelo seu gosto musical, por sua cor, raça - no máximo, rir de algumas cenas que vemos, e saber que alguém também rir de nós!


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

De amOR e de temPO

    Ainda quando estudava o antigo ginasial, uma professora de Português, interessada em que os alunos gostassem de ler e apreciassem os clássicos, passou como tarefa de avaliação uma redação sobre o texto  AMOR MENINO par te II do Sermão do Mandato – mas isso só soube muito depois já na faculdade - do Pe. Antonio Vieira. Agora, imaginem a dificuldade de adolescentes nos idos final dos anos 60 em cumprir essa tarefa. O que sabíamos do amor? Nada. Do tempo muito menos. O amor era em preto e branco nas fotonovelas que eu comprava no sebo na banca da feira livre, hábito também o das minhas amigas com quem trocava livros e revistas, caso contrário não leríamos nada. Apesar dessas imagens de amor, não lembro se as conversas já rondavam assuntos de namoro, casamento. Acho que não, pois éramos àquela época imaturas para tais assuntos. O universo ainda girava em volta de livros, estudar para provas, sorvetes, ouvir música e meninos não faziam parte do grupo. Aliás, eram olhados...

SuSSuRRo

  A   mão corta a escuridão do quarto no afastar da cortina. A luz do poste lança sombras na parede. Sobre a cama uma indumentária de cigana a contempla. Não sabe como chegara ali.  Sonho.  Como sempre o relógio a acorda às 7 horas. E como de costume, pula da cama, termina de acordar sob o chuveiro, veste-se apressada, come alguma coisa, toma duas xícaras de café para acordar e sai. Não mais que 40 minutos se passara. Faz a maquiagem entre uma parada e outro nos sinais. Sons de buzina, freadas colaboram para o seu despertar. Depois de 40 minutos entre carros, 20 minutos dando voltas no quarteirão em busca de uma vaga, estaciona, desce do carro, bate a porta e caminha em direção ao prédio. Ao atravessar a rua, percebe que está sem bolsa. Assustada, pensa que foi assaltada, mas se dá conta que mal saíra do carro. Sem bolsa, o pensamento pula para a chave. Onde deixara? Dentro da bolsa, dentro do carro. Retorna. Porta destravada, pois a chave ficara na bolsa. No banco...

Onda

"Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar quando caí." Cecília Meireles. ******* "Para quem quer se soltar... invento o mar, invento em mim o sonhador". Milton Nascimento & Ronaldo Bastos

Ressaca sem carnaval

Sem tempo, sem inspiração, sem saco para escrever sobre as ruas vazias no carnaval, sobre o céu nublado que vejo da janela, sobre a cerveja da qual bebi só um copo, do filme recomendado que verei hoje à tarde, do trabalho que trouxe para fazer e não fiz, das minhas tristezas antecipadas por uma ausência que ainda não é, pratico o não escrever. Por isso tudo, é melhor pensar em nada. É melhor lembrar com saudade de um tempo quando as frases de O Pequeno Príncipe tinham significado. Hoje, diante de tanta violência, de tanto consumismo, de tantos ups, palavras e atitudes deletáveis, o Exupéry não teria cacife para competir com o mundo virtual (do qual me sirvo), talvez nem mesmo com o Paulo Coelho & Cia. Uma pena, pois o essencial ainda continua invisível aos olhos!

DiFERente

A TV repete a novela Eita, Mundo bom! Nela, o jargão é que tudo que acontece de ruim é para melhorar. Será ou apenas uma lição à la Pollyana? Não sei. Poucas certezas temos na vida. As certezas não são mais duradouras, têm o tempo de um click.  Na verdade, nunca foram, mas insistimos que eram, que podíamos planejar a vida até uns 80 anos. Depois disso, era lucro. Ainda é lucro. A diferença é que as mudanças hoje são vertiginosas. Não só nos aparatos tecnológicos, nas Ciências. Em nossa vida. Se pensamos planejar a longo prazo, corremos o risco de estatelar no chão diante de um imprevisto que muda tudo. Se não planejamos, também cairemos ao chão porque a grande surpresa, o completamente inesperado tem a capacidade de nos derrubar e nos pôr na dificuldade de se erguer. Entre pensar, planejar ou nada, a vida não pede licença. Apenas segue. E com ela, vamos. Não há outra alternativa a não ser ir. Quer dizer, há outra forma. Interrompê-la deliberadamente. Aí, é...