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Poesia



Os que estudam teoria literária, os que gostam de poesia se atrevem a dar-lhe sentido, investigando o que o autor quis dizer com determinada palavra e não outra. Poesia não se explica, o poema que a tudo esclarece é fato jornalístico (o que foi maravilhosamente dito por Drummond ao afirmar que “não faça versos sobre acontecimentos. (...) Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra/ e te pergunta, sem interesse pela resposta,/ pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?"). A beleza da poesia está na multiplicidade de interpretações, sensações que desperta em quem a ler. E melhor poema, aquele que ao ser lido vezes sem conta, vezes sem conta desperta em nós outras sensações, novas interpretações, descobertas.
Professores se atrevem a afirmar que vão ensinar poesia a seus alunos, a amigos. Como ensinar a alguém um sentimento, uma maneira de sentir? Sentimento se ensina? Seja ele bom ou mau, o sentimento se incorpora ao ser à medida que se vive e se vai experimentando sal, fel, o doce amargo da vida, o beijo de afago que recebemos ou que a nós é negado. Poesia é um estado de alma e letrados há que não passam da significação real da palavra, nunca lhe concedendo metáforas, belezas além da linguagem seca, árida, incolor. Entretanto, atribuir significações é apenas intuir significados, vontades atribuídas por quem escreveu no ato da construção do poema – que muitos pensam, brota do espírito sem qualquer esforço, sem qualquer trabalho, espécie de psicografia.
O ato de escrever principia pela familiaridade com as palavras pelo ato contínuo de ler, embora haja os que leem e não possuem facilidade de escrever. Grandes poetas, escritores dão exemplos, mas não apresentam receitas. Escrever é como capinar, não há como colocar a terra distante da enxada, não há como não fazê-lo antes de o mato crescer de novo. Escrever é exercício mental, pois o escrever se estrutura por inteiro na mente e só depois brota no papel, lapidando-se, cortando, acrescentando, apagando, refazendo. 
Aos professores, não ensinem poesia, ainda que seja necessário discutir gêneros, estruturas narrativas. Leiam poesia, especulem as interpretações, das mais inocentes as mais esdrúxulas, deixem que os alunos beirem o ridículo em suas viagens literárias. Façam um exercício: o que significa “dizer segredos de liquidificador” dito pelo eterno Cazuza na belíssima “Codinome Beija-flor”?
E você, sabe o que significa segredos de liquidificador? Eu não sei e já pensei bastante sobre isso. Segredo pressupõe silêncio, a não propagação do dito; liquidificador pressupõe barulho, mistura. Como se coadunam as duas ideias? Embora não compreenda a intenção do poeta, inegável o valor poético de “que só eu que podia/ dentro da tua orelha fria/ dizer segredos de liquidificador”.

Comentários

Davison Duarte disse…
Gosto muito de poesia.

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