sábado, abril 21

Vida de Algodão

Entardece. Pelas frestas das pequenas ripas que formam a barricada do alpendre, o sol escorre sua luz, escondendo-se por entre nuvens. Sentada no chão batido, as costas cansadas apoiadas à parede, a mulher olha o espetáculo e não lhe percebe a magia. Seus dedos maquinalmente tecem os fios de algodão que desde a manhã transpassam por seus dedos. É o seu dia-a-dia desde que a colheita se fizera. O sol não lhe causa admiração, mas uma dor ofuscante nos olhos, agora já cansados de tudo quanto já vira e vivera. Olhar ao redor sem ver tem sido o seu hábito nesses últimos meses. Como máquina acorda, prepara e toma um ralo café, colhe o algodão, percorre o caminho com passos duros e firmes – como as pedras que pisa – a comida é preparada e engolida pelo costume de comer, insípido prato, insípida vida.
Tece. O algodão se desmembra nas mãos da mulher, tomando outra forma, moldado com maestria adquirida após tantos anos, tantos fios. Vez em quando os olhos se erguem e vagam pelo terreiro, vendo o que ali não está. Por detrás de qual árvore se esconde aquela jovem de outrora, cujo sonho era correr mundo, ver o mar – inimagináveis de tão grandiosos e misteriosos que lhe pareciam – ser alguém diferente das pessoas do lugar? Em que pedras se esconderam os risos, as promessas feitas a si mesma, a vontade de voar feito ave de arribaçã, não voltar? Não mais se pergunta. Apenas deixa o pensamento vagar, dono de si mesmo indo a qualquer parte sem que a sua dona saia do lugar. Aquele terreiro, aquele chão, um sol que não descansa, assim é o seu lugar.
Tece e destece. A cada fio que pelos dedos se forma, vê a vida se desenrolando como imagens coloridas de filmes nunca vistos. O sol faz o seu percurso indiferente. Indiferente, a mulher não sente o amenizar do calor dando vez a um frio tão destoante da quentura de então. Seu corpo queima, sua alma se enregela de tanta amargura pelo que poderia ter sido e não foi. E não mais será. Acende a velha lamparina sobre o fogão de barro e a luz reflete um pequeno ponto em sua pupila negra. É o único brilho percebido naquele lugar.
Anoitece. A pequena claridade é mais do que suficiente para ela que conhece todos os caminhos daqueles cômodos agora vazios. O ritual do café se repete, mas em seu mundo tal palavra não existe. Prepara uma massa de fubá, usa da pouca água que dispõe, uma pitada de sal, acomoda na velha tampa de lata, cobre-a com um pano e na boca da chaleira deixa-a para cozinhar. Sua comida será minguada: café e cuscuz. A noite lhe aliviará as dores das costas, livrará os pés das pedras do caminho que todo dia percorre. A noite lhe trará em sonho uma moça com um vestido todo branco, um broche em formato de coração no lado esquerdo do peito, sapatos igualmente brancos que lhe apertam os pés a caminho da igreja, um moço em roupa adomingada na praça e que a pretexto da missa lhe espera. Doces palavras de promessas.
Tecera. E a tais palavras e ao dono se dera, dando-se a um destino que sonhava encantado, bem maior que aquelas casas, ruas empoeiradas, maior mesmo que a sua família, os pais resignados à vida, o irmão embrutecido pela bebida, a irmã tomada por uma renca de filhos, largada pelo marido em busca de um destino melhor em outras terras.
Destecera. As promessas formaram os vários fios de sua vida até perceber que o novelo ia se desfazendo, mas a vida não mudava. O futuro prometido permanecia em palavras, o moço já não a esperava todos os domingos e sumira de vez ao saber que daí a pouco aquele vestido branco já não poderia ser usado, pois ela abrigava em si outras formas, outra vida.
A vida tecera por ela a sua própria teia e nela abrigava agora um novo ser. A linha mais áspera tinha que ser conduzida através do tecido mais cruel e solitário. Envergonhada, a cabeça sob a vida, escolhia a agulha mais fina e tecia e tecia vários pontos na tentativa de desfazer o nó em que se transformara a costura daqueles sonhos. Os olhos sempre duros para esconder a angústia não lhe deixavam perceber que pontos dava e às cegas tecia e tecia até o esgotamento.
Destecera. Em uma só noite, de um gole só, sozinha na beira do açude, trincando os dentes e os dedos agarrando-se às raízes por perto, vira a vida dela se desfazer numa poça vermelha, arrancando-lhe a alma, condenando-a aos infernos para sempre. Na mancha que ficara na terra, ficaram sua vergonha, seus sonhos, sua danação.
E no tear da vida, o irmão encontrara a morte no fio amolado da faca de um companheiro de farra, a irmã sumira com um homem que lhe ocupara com mais um filho, os pais sucumbiram um após outro às agruras da vida, da miséria, da resignação. A ela restara a casa vazia, uma plantação para cuidar, minguados animais, algum dinheiro que não a deixa de inanição morrer. Tecera e destecera. Tece e destece. O algodão amanhã passará por entre os dedos como a vida lhe passara por entre sonhos, promessas, o amor que nunca viu, o sol que lhe queima e não mais é percebido.
PS: Atendendo a pedido de alguns amigos que já conheciam este conto, coloco-o aqui.

Um comentário:

Lucila disse...

A autora aniversaria e nós somos brindados. O que é bem escrito deve ser lido à exaustão, mas não vou negar que ficou um gostinho de quero mais.