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De livro e inquietações

Terminei de ler As Codornas e o Outono, livro do egípcio Nagib Marfuz, Nobel de 1988. Uma coisa chama à atenção no livro: a identidade que construímos intimamente ligada à profissão que exercemos. O personagem, funcionário público, vê-se no meio do redemoinho provocado pelas mudanças políticas ocorridas durante um período no Egito, as quais ele não se adapta, desejando uma retomada à situação quando vivia no círculo dos poderosos. Aos poucos, Issa – esse o nome do personagem – vai perdendo prestígio, uma filha que não reconheceu, a mulher que não soube amar, ganhando vícios, dívidas, perdendo chão.
Não sei dizer se gostei do livro, pois ele me causou uma inquietação pelo momento em que vivo. Perdendo chão, ou um pedaço dele, por deixar um local onde por muitos anos trabalhei.
O trabalho em escola me absorveu durante todo esse tempo e, mesmo com todas as dificuldades e desilusões que a profissão carrega, não vejo nada que se compare ao convívio com alunos, aquele mundo de gente de todas as cores, tamanhos, que não faz do aprender prioridade, com quem falo vezes sem conta para só tempos depois ter uma resposta adequada aos padrões educados. Aprendi com o tempo que quem menos dá trabalho em escola é aluno, pois seus comportamentos, irreverências são frutos da idade, da falta de maturidade, gerenciados com o tempo depois de muita falação, sendo, portanto, comportamentos previsíveis. Aprendi também que a condição humana com suas mesquinhezas, manipulações, descompromissos não está ausente em um mundo repleto de educadores e ideais afins.
A parte tudo isso, o chão me falta, mesmo que a decisão de deixar a escola depois de 25 anos de trabalho, da sala de aula à direção, tenha sido minha. Vejo minha rotina mudar e acordo com a sensação de que algo me falta, porque não tenho que sair correndo para uma reunião, não carrego mais na pasta milhares de papel, o celular não toca solicitando minha intervenção, até mesmo onde ela não era imprescindível. É a síndrome da abstinência, a falta da utilidade! E que Deus me livre de me achar amada ou capaz só pela utilidade que possa ter!
No início deste ano letivo, causei espanto numa reunião com professores ao afirmar que não estamos educando nossos alunos, que não nos iludamos que nosso trabalho não tem o peso, a valoração que deveria ter e nisso muitos fatores contribuíram, um deles sendo a nossa própria baixa auto-estima, nossa descrença no que fazemos. Mesmo achando que não atingimos mais os objetivos que deveríamos alcançar, não desacredito da profissão, pois a considero ímpar nesse mundo tão caótico, em que o valor humano perde todos os dias para valores volúveis e voláteis.
No entanto, não educamos mais porque nos perdemos nas miudezas e deixamos de ensinar o que vale, que são as competências básicas para o indivíduo pensar, agir sabendo dominar a escrita, a leitura, o cálculo. Estamos medicando com os mais variados remédios um paciente a quem bastaria um simples analgésico, desde que forte o suficiente para tirar-lhe o pensamento da dor central, desviando sua atenção para sua potencialidade, dizendo-lhe continuamente que ele pode.
Não sou saudosista em achar que antigamente o ensino era melhor. Era diferente, porque as exigências do mundo eram diferentes. Eu não perdia tempo na internet, no MSN conversando com minhas amigas; não tinha shopping para ir "azarar" ninguém; minha mãe trabalhava em casa e, mesmo meu pai viajando a trabalho, ai de mim, depois meu irmão, se não fizéssemos as tarefas, se a fizéssemos ir à escola escutar reclamação por algo que fizéramos de errado. Mesmo há 27 anos quando comecei a lecionar, os alunos não tinham as facilidades e "tentações" que têm hoje. Tentações que na verdade não são o problema. O problema é que família e escola não acompanharam o ritmo vertiginoso das mudanças e, inseguras ambas, nem sempre sabem orientar os jovens que – aí sim – tentados por quem não lhes passam sermões, sentem-se à vontade longe da escola, longe da família!
Com todas essas reflexões, intimamente ainda não sei se fiz um bom trabalho e essa dúvida, segundo meus amigos, vem da minha procura constante pela perfeição. Coisa besta, pois a tal não existe! Na verdade, o chão me falta porque sempre "ando à procura de espaço/ para o desenho da vida./ Em números me embaraço/ e perco sempre a medida./ Se penso encontrar saída,/ em vez de abrir um compasso,/ projeto-me num abraço/ e gero uma despedida./ Se volto sobre o meu passo,/ é já distância perdida" (Cecília Meireles).
A inquietação me assalta pela ausência da convivência com muitos que agora se tornaram esparsos; por ter diante de mim uma grande interrogação; por ter tempo, depois de muito tempo, para mim mesma; por ver que minha casa agora não é apenas um lugar onde venho dormir; por dormir sem hora programada para acordar, uma vez que além de férias, tenho a frente uma licença até o final do ano. Sei, no entanto, que essa vida não é a que me segurará, pois daqui a pouco estarei começando tudo de novo com o mesmo ímpeto, apontando lanças pelas estradas em busca de castelos de vento e dragões para matar, visto que não me enquadro nos versos finais do poema:

"Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida."
**************
A imagem deste post é um quadro pintado pela mãe de Claúdia, amiga virtual que mora em Porto Alegre, a quem agradeço a gentileza.

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