terça-feira, setembro 25

LeTRitude

Depois de vários meses, terminei a leitura do livro "A menina que roubava livros" do australiano Markus Zusac. Mesmo gostando da narrativa, não sei por que demorei tanto para concluir sua leitura, atropelando-a com outros livros. A estrutura do livro é soberba, uma aula de teoria literária para os que acreditam em Paulo Coelho como o mago das letras neste século!
Não há uma temática nova. Relatos ficcionais ou não sobre a vida nos países em guerras, sejam elas as de agora ou as de antanho, proliferam aos milhares. O que o nazismo causou à população mundial, notadamente à européia, e amargamente aos judeus e às minorias, sempre será um assombro e a personalidade de Hitler já rendeu tratados tanto sócio-políticos como psicanalíticos.

O fato de a narradora ser a morte não é assombroso, embora seja inusitado. E aí reside o primeiro mérito do livro: não adianta correr para as inovações tecno-científicas em busca de elixires da imortalidade, um dia ela virá e nos colocará sobre os ombros, percebendo que cores temos, pois, em suas próprias palavras: "em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços." Assim, "Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate". No entanto, tratar a morte como coleguinha nem pensar! E acredito que o livro não teve a pretensão de suscitar uma reflexão sobre a morte, pois disso filósofos tratam há séculos. A vida não nos torna indiferentes à morte, mas é melhor pensá-la longe, distante, de preferência apenas passeando nas alamedas do Pere-Lachaise.
O livro tem muitos atrativos. Não suaviza a dramaticidade da guerra, mas ridiculariza Hitler, "um homenzinho estranho que decidiu três detalhes importantes sobre sua vida", os quais foram repartir o cabelo de modo ridículo, usar um bigode igualmente ridículo, dominar o mundo, o que não foi nada ridículo, sabendo o que aconteceu depois dessa idéia. Numa pequena fábula – lindamente narrada por um dos personagens – o sucesso do Führer se deveu a sua plantação de palavras, jogadas todos os dias árvores abaixo pelos sacudidores de palavras, formando um grande exército de ouvintes, seguidores. Até que um dia uma outra semente – amizade – cresce, transformando-se em árvore, dominando todas as demais. (Para saber o final, é melhor vocês lerem o livro!). Os horrores da guerra não são solucionados por amizade, amor, solidariedade, mas são, sim, amenizados por sentimentos assim, pois mostram que não há exclusivamente monstros à solta.
O livro tem as mais ricas metáforas que li esse ano em qualquer publicação, tornando-se sinestésico, pois sua linguagem suscita cores, gostos, imagens. Como não se deliciar lendo que "a empolgação pôs-se de pé dentro dela", "o rosto... parecia ter as venezianas fechadas", "um sorriso de papelão", "conseguiu inserir as palavras pela brecha do vão da porta"? A linguagem é um personagem à parte, tão ou mais fascinante do que a própria narrativa.
No livro há uma crítica sutil aos que pelas atrocidades do nazismo condenaram todo o povo alemão, aos que negam que muitos ficaram sem opção de reagir. Reagir era morrer, visto que o regime não admitia controvérsias. Como no livro, deve ter havido inúmeras famílias que ficaram à beira de um ataque de nervos porque esconderam ou ajudaram judeus de alguma forma, porque não quiseram ser alemães de carteirinha do III Reich. A narrativa é um libelo a uma solidariedade prática, seca, às vezes até mascarada pela indiferença, mas extremamente necessária à situação por que impregnada de pequenos gestos que fazem a diferença quando no caos.
É um livro para ser relido, marcado em vários trechos. É uma bela história de vida, mesmo que tenhamos muito comumente para os nossos semelhantes a mesma idéia que a morte tem: "Os seres humanos me assombram".

Livros também me assombram!

5 comentários:

FATIMA MOTA disse...

Só o livros assombram? Acho que o seu modo de escrever também.
Uau!!!

maria olimpia disse...

Adorei a sua resenha. Li este livro também e por incrível, também demorei a terminar.

Eva disse...

Olá. Como andam os escritos? Ainda encharcados?

Concordo com você quando fala das metáforas. Também demorarei a esquecê-las. Nunca tinha ouvido falar nesse autor e fique extasiada com o livro. Não pela história em si - mais uma vez, piedade com os judeus - mas sim com o modo brilhante de escrita. Fabuloso!

Abraço. E continue mergulhando fundo.

Cláudia Duarte disse...

Ed, eu terminei de lê-lo ontem... demorei mais de um mês (o que raramente acontece), mas certamente foi um livro que deu pena de terminar... a maneira do Zusac escrever me encantou e amei teus comentários, como sempre!
bjs, Cláudia

Rosa Maria disse...

Estou pensando lê-lo!
Mas esse tipo de livro me amedronta!!

Seus comentários me ajudarão a decidir, com certeza.
Gosto muito do que vc escreve!
Beijo, Rosa