sexta-feira, setembro 7

ViSÕes

Ao seu redor várias peças, chaves, martelo, alicates, parafusos e fios amarelo, azul, verde. Sobre a mesa, intacto o controle remoto abastecido com duas potentes pilhas ao lado da caixa vazia onde antes existia um televisor. Estendera no chão uma lona vermelha para que nada se espalhasse e se perdesse pela sala. Aproveita que está sozinho para pôr em prática uma idéia que há dias formiga em sua cabeça. Sua única diversão é a televisão, agora que pouco sai de casa. Não importa a qualidade dos programas, o que lhe interessa são as imagens. Não precisa mais do som agora que uma surdez faz ninho em seus ouvidos. Muda de posição, apoiando-se na parede, pega o capacete que pedira ao neto motoqueiro e lembrando-se da antiga profissão de técnico eletrônico monta todos os circuitos e com a pequena luz azulada solda uma peça na outra. Feito, desarma a oficina improvisada, guarda as ferramentas. Senta-se na poltrona, pega o controle remoto, ajusta o capacete na cabeça. Fecha os olhos e aciona o controle. Sua cabeça é instantaneamente inundada. Não precisa mais brigar para ter a televisão só para si.
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Deitado no chão contempla as formigas nos espaços do rodapé quebrado. Uma formiga vai, outra vem, batem-se e prosseguem. Espicha os olhos, mas não consegue ver o que cada uma transporta. Coloca a mão dos seus quatro anos espalmada no chão na tentativa de impedir o caminho, mas as formigas lhe rodeiam e passam. Pega no bolso do short os óculos tirados da avó enquanto ela dormia, põe sobre o nariz, mas não vê maior as formigas. De repente, vê um carro preto numa estrada poeirenta passando ao lado de vacas. Assustado, levanta-se de um pulo, livrando-se do carro e das vacas. Nunca vira aquele carro, muito menos vacas passeando nas ruas. No pulo, os óculos caíram-lhe do rosto. Olha em volta desconfiado, mas continua sozinho ali, os barulhos presos na cozinha. Pega os óculos e, de olhos fechados, temeroso da visão desabalada do carro, põe aquelas lentes que dão ao seu infantil rosto um aspecto palhaço. Deitado como antes, abre os olhos e vê o carro continuando na mesma estrada, as vacas pastando. A avó sentada no banco ao lado do motorista exibe o cabelo preto e sorri ao homem que dirige. Na tentativa de enxergar melhor, encosta a cabeça na parede, sentindo-a como chiclete fazendo bola. Assustado, levanta-se de um pulo, livrando-se da poeira e das vacas, gritando aos avós que parem o carro e levem-no.

2 comentários:

Eva disse...

Parece Marina Colasanti (é assim que escreve o nome??).

Bela escrita.
Abraço.

Lucila disse...

Uau, que viagem!