Pular para o conteúdo principal

No interior do interior

Macabéia é um dos personagens mais singulares da Literatura Brasileira. A moça que vem do interior para a cidade grande na tentativa de realizar grandes sonhos. Grandes sonhos não significam a mesma coisa para todo mundo. Os de Macabéia são basicamente encontrar o grande amor e ser feliz para sempre, mesmo que essa felicidade seja com um cara simplório, que fala difícil sobre parafuso e sonha ser deputado.
O sonho de Macabéia acaba abruptamente sob as rodas de um carro, justo quando ela saía da casa de uma cartomante que lhe predissera um futuro brilhante. Não lembro detalhes do livro, não o tenho aqui, mas em linhas gerais a narrativa se concentra em uma moça simples com uma vida monótona, que ouve rádio à noite depois de um dia repetitivo de tarefas em um escritório.
Todos nós conhecemos alguma Macabéia, aquela pessoa que sai do interior, mas não consegue tirar o interior de dentro de si. O desafio da cidade grande não é suficiente para lhe encorajar a vencer limites, buscando um autoconhecimento. Pelo contrário, tudo lhe amedronta, parece-lhe estranho. A duras penas encontra um trabalho limitado, que lhe dá apenas o suficiente para não morrer de fome. Aprende aquela determinada tarefa, não toma iniciativa no trabalho, mas sabe seguir orientações à risca. Nos finais de semana, mal sai, no máximo uma praia depois de uma certa resistência inicial, que água salgada é ruim de engolir.
As oportunidades vêm e não são percebidas. O medo do novo paralisa a vida. Se a vida parece triste, parada, não se reclama; melhor isso, que nada. Geralmente, há duas vidas: a vivida e a sonhada, esta muito mais colorida e atraente que a real, embora proibida porque parece imprópria aos olhos de Deus. A fé em um Deus onipresente não permiti voos, tudo é visto sob o olho do castigo eterno. Felicidade não é coisa fácil, é um bem que não se alcança, não através de prazeres, coisas mundanas.
O casamento está quase sempre no final de um arco-íris. Não casar é atestar uma incapacidade contrária à mulher, destino natural de quem foi abençoada. A mulher infértil é tal qual uma árvore ressequida, nem mesmo tem sombra. Conviver com isso é muito mais difícil que viver um mau casamento. E algumas casam mal, vivem mal até que a morte os separe.
Sempre o mais difícil é tirar o argueiro do próprio olho. No mundo moderno, onde não há espaço para a ociosidade, o trabalho ocupa tanto tempo da nossa vida, acostumamo-nos a tirar o sustento literalmente do suor do próprio rosto, que nos é difícil entender as que fazem opção por um emprego sem expectativa de crescimento, quem enterra a cabeça no chão tal avestruz, quem conduz a fé para esperar que tudo caia do céu sem a necessidade de mover-se.
Não sei se herança do feminismo ou se conseqüência de prover a mim mesma, a vida de quem está parada me parece um desrespeito à própria vida. Independente de crenças religiosas – se não lembramos as passadas nem antevemos a futura – há uma vida por vez e esta é pra ser vivida. Os limites na maioria das vezes são impostos por nós mesmos, somos nós que nos deixamos dominar pelo medo. E há muitos medos hoje. Eu, particularmente, tenho vários. Entretanto, negá-los, não enfrentá-los não criam a mágica de fazê-los desaparecer. Às vezes faz até o monstro agigantar-se.
Não é fácil, é necessário levantar-se a cada manhã com espírito de lutador, porque há vários leões na selva que precisam ser no mínimo afugentados. Apesar de não concordar com o modo de vida de alguns – algumas (também alguns – muitos – não concordam com o meu!), aprendi a não dar conselhos, muito menos pavonear-me com elogios daquelas que paradas contemplam a minha rua, mas não ousam atravessar para o lado de cá.
O livre arbítrio – invenção do homem atribuída a Deus – é magnífico nesse sentido. Cada um que viva da forma que melhor lhe convier, desde que não cometa roubo, assassinato, calúnias. Se acho a vida de alguém uma vida macabéia, possivelmente esse alguém acha que a minha é uma vida Capitu (e aqui deixo a interpretação para vocês!).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

De amOR e de temPO

    Ainda quando estudava o antigo ginasial, uma professora de Português, interessada em que os alunos gostassem de ler e apreciassem os clássicos, passou como tarefa de avaliação uma redação sobre o texto  AMOR MENINO par te II do Sermão do Mandato – mas isso só soube muito depois já na faculdade - do Pe. Antonio Vieira. Agora, imaginem a dificuldade de adolescentes nos idos final dos anos 60 em cumprir essa tarefa. O que sabíamos do amor? Nada. Do tempo muito menos. O amor era em preto e branco nas fotonovelas que eu comprava no sebo na banca da feira livre, hábito também o das minhas amigas com quem trocava livros e revistas, caso contrário não leríamos nada. Apesar dessas imagens de amor, não lembro se as conversas já rondavam assuntos de namoro, casamento. Acho que não, pois éramos àquela época imaturas para tais assuntos. O universo ainda girava em volta de livros, estudar para provas, sorvetes, ouvir música e meninos não faziam parte do grupo. Aliás, eram olhados...

SuSSuRRo

  A   mão corta a escuridão do quarto no afastar da cortina. A luz do poste lança sombras na parede. Sobre a cama uma indumentária de cigana a contempla. Não sabe como chegara ali.  Sonho.  Como sempre o relógio a acorda às 7 horas. E como de costume, pula da cama, termina de acordar sob o chuveiro, veste-se apressada, come alguma coisa, toma duas xícaras de café para acordar e sai. Não mais que 40 minutos se passara. Faz a maquiagem entre uma parada e outro nos sinais. Sons de buzina, freadas colaboram para o seu despertar. Depois de 40 minutos entre carros, 20 minutos dando voltas no quarteirão em busca de uma vaga, estaciona, desce do carro, bate a porta e caminha em direção ao prédio. Ao atravessar a rua, percebe que está sem bolsa. Assustada, pensa que foi assaltada, mas se dá conta que mal saíra do carro. Sem bolsa, o pensamento pula para a chave. Onde deixara? Dentro da bolsa, dentro do carro. Retorna. Porta destravada, pois a chave ficara na bolsa. No banco...

Ressaca sem carnaval

Sem tempo, sem inspiração, sem saco para escrever sobre as ruas vazias no carnaval, sobre o céu nublado que vejo da janela, sobre a cerveja da qual bebi só um copo, do filme recomendado que verei hoje à tarde, do trabalho que trouxe para fazer e não fiz, das minhas tristezas antecipadas por uma ausência que ainda não é, pratico o não escrever. Por isso tudo, é melhor pensar em nada. É melhor lembrar com saudade de um tempo quando as frases de O Pequeno Príncipe tinham significado. Hoje, diante de tanta violência, de tanto consumismo, de tantos ups, palavras e atitudes deletáveis, o Exupéry não teria cacife para competir com o mundo virtual (do qual me sirvo), talvez nem mesmo com o Paulo Coelho & Cia. Uma pena, pois o essencial ainda continua invisível aos olhos!

Onda

"Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar quando caí." Cecília Meireles. ******* "Para quem quer se soltar... invento o mar, invento em mim o sonhador". Milton Nascimento & Ronaldo Bastos

DOIDera

Tem alma reclusa, dessas que se basta ao sentar e ler um livro em vez de sair, tomar cerveja no calorão da cidade. Os amigos não entendem e por não compreenderem pararam os convites para as noitadas. Só de ano em ano, aniversário, confraternização de natal é que se lembram de convidar-lhe. Cinema no mais das vezes vai sozinha que a companhia não é companhia para as horas que ela pode e também porque não é mais riso pra ninguém. A turma, a outra, é bem mais animada. Há dias em que pensa que é melhor usar uma capa de invisível e passar pela vida sem ser vista. Mas, é teimosa e insiste em viver. Viver de teimosia é seu lema há um tempão, desde aquele dia longínquo quando se deu conta de que era só, mesmo que vivesse arrodeada de gente. Já tentou, bem que tentou se livrar dessa sensação, mas não conseguiu. Festa de casamento, nascimento de filho, enterros, formatura, tudo que junta gente só lhe faz aumentar a dor de se saber só. Quando adoece, adoece por inteiro, começando na cabeça...