Pular para o conteúdo principal

Not now

Quando puder, escreverei.
Agora, não.
Agora letras teimosas insistem em palavras
que não quero sentir.
Quando puder, escreverei.
Agora, não.
Agora palavras quero esquecer
preciso amontoá-las em sacos pretos
à espera do caminhão.
Quando puder, escreverei.
Agora, não.
Agora quero criar pontas de asas.
Quando puder, voarei.
Como já voei, caí e levantei.
Agora, não.
Quando puder.

Comentários

Ivana Lucena disse…
Muito bem dito!!!! O que há para se comentar de um poema? talvez apenas a revelação de que foi tocada por ele e se encantou.
Um abraço.

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

Filosofia a granel

   Essa semana conversei com um colega sobre o livro "A Caverna" , escrito por José Saramago , pois nele há um lugar chamado de Centro, onde as pessoas vivem isoladas do mundo, tendo ao seu dispor alguns entretenimentos, sendo, no entanto, monitoradas por câmeras. Também comentamos o enredo do filme A Vila , dirigido por Night Shyamalan em 2004 e que mostra uma comunidade totalmente isolada do resto da civilização, vivendo no ano de 1897. Em determinado ponto, os mais jovens questionam por que não podem atravessar o bosque e ver o que tem além. Em meio a ataques de estranhas criaturas (ao final, apenas um êngodo ameaçador para que ninguém se atreva a sair), cabe a uma jovem cega a tarefa de ir em busca de ajuda naquilo que seria uma cidade além dos limites da floresta. E eis que a garota encontra uma rodovia no Estado da Pensilvânia totalmente urbanizada, civilizada, numa demonstração que o povo da vila parara no tempo com medo do progresso, do conhecimento. E, cega, nada po...

VIda LOUca Vida

A gravura acima, colhida no álbum do papai Google, anônima, é atribuída ao surrealismo que surgiu nas primeiras décadas do século XX e que foi por "excelência a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente". Assim, apele ao seu inconsciente e tente descobrir o que você vê. Será que você vê, por exemplo, nosso ouvido interno, o chamado labirinto, aquele tal cuja inflamação provoca tonturas? Talvez você veja um focinho de porco, um olho deformado, um cogumelo gigante cheio de tentáculos. Você pode não vê nada disso ou ainda vê o que ninguém mais verá. Preste atenção mais uma vez. Force sua vista e tente ver o que eu mencionei. Você tem olhado para a vida ultimamente? Não a sua. A vida de todos nós, essa que está nos circundando, enlouquecida numa cantiga ao nosso redor? Se tem, há de lembrar-se o quanto essa circunavegação diária tem nos feito aportar em lugares sombrios, quanto das roupas que as pessoas estão usando na roda estão encardidas, imp...

Miolo de quartinha e carga d'água

Não adianta. Não adianta colocar os dedos sobre o teclado e fazer um download que me leve à inspiração quando os acontecimentos me travam para o escrever e preencher o espaço do blog esta semana. Já pensei numa série de coisas, fictícias ou reais, e nada. Já li alguns jornais em busca de uma notícia que merecesse um comentário e nada. E olha que encontrei um bocado de coisa: no Paraná, um cinegrafista morreu atropelado por um avião. O rapaz de apenas 26 anos, olhando pela angular da câmera, não percebeu que o avião estava verdadeiramente próximo e sofreu o impacto fatal. Um marinheiro russo, servindo em um submarino, foi preso porque plantou maconha em uns jarrinhos perto da escotilha e estava "abastecendo" os colegas (isso sim é que visão capitalista!); o estilista famoso da Luciana Giminez, Ronaldo não sei das quantas, foi preso no cemitério roubando dois vasos de flores. Ele se explicou cientificamente: disse que estava tomando um remédio antidepressivo que o fazia comete...

Janela adentro

A poltrona colocada frente à janela mostra uma rua sossegada, pouco movimento de carros e gente. Nela, Zuleide observa a rua sem ver. Seus olhos se apertam devido a claridade que vem de fora; ouvidos surdos ao vozerio que vem do interior da casa. Filhos e netos falam animados da festa que há um mês preparam com a ansiedade de casamento. A festa vai comemorar seu aniversário, mas pouco ligam para a aniversariante. Fará 85 anos. Não sabe se fala com Miguel ou se espera ele se aproximar. A vergonha de ser falada inibe sua vontade e fica sentada na praça, um olho lá, meio ouvido aqui. E se ele não se decidir? Esperar agoniada outro domingo, passar outra semana ouvindo em casa o pai elogiar o governo de Getúlio Vargas, fazendo comida, lavando roupa no rio bacia na cabeça? Não, tem que fazer alguma coisa. Tem 15 anos e muita pressa em viver. Não vai ficar pra titia de jeito nenhum. Se Miguel não se mexer, o jeito é ficar falada. As imagens são takes na cabeça de Zuleide. As conversas no po...

Lady Lu

Tenho uma amiga que não conheço, com quem tenho, contra todas as previsões contrárias possíveis, algumas afinidades, por assim dizer, "mediúnicas" (quem me perdoem os kardecistas). Seu nome é luz, a origem latina significando luminosa, por que luz ela é. A poucos metros da sua casa baiana, ela alcança o mar, onde lava os pés, às vezes mergulha, e rotineiramente o contempla como se contemplam as coisas grandiosas da vida: maravilhada e inquisitivamente. Naquele espelho d'água, ela espera vê Deus e se pergunta vezes sem conta o porquê da crueldade, dos desatinos humanos; também agradece as surpresas boas, as dádivas que a vida lhe oferece e ali, naquela contemplação, sente-se pequenina, pequenina diante do poder divino. Minha amiga tem o dom da diplomacia. Não pode ver fogo, seja verbal, "escritural", cara a cara, que sai logo apartando os contendores armada de uma mangueira imensa carregada de palavra afáveis, conciliadoras. Nunca a "li" com raiva, tamp...