Pular para o conteúdo principal

Fiat lux

Precisamente na noite de quarta-feira de cinzas faltou energia aqui no bairro. Se minha avó materna fosse viva diria que era castigo de Deus pelos excessos carnavalescos! (Será que foi?)
Sem computador, sem ler, sem tv, fiquei pensando como seria o mundo sem a eletricidade.
Sem eletricidade o que estou fazendo agora seria impossível. A fruta que rapidamente transformo em suco no liqüidificador e ponho para gelar na geladeira não seria possível. A música que ouço no cd player e mesmo no interior do carro não seria executada. Leria, dormiria a luz de vela. Nos dias frios, meu chuveiro não me daria nem uma nesga de água deliciosamente morna. O porteiro eletrônico do prédio não funcionaria (o que no meu caso não faria muita diferença, pois o existente aqui fica muito tempo quebrado!). Engomar seria uma das tarefas mais árduas de qualquer mulher (a maioria dos homens ainda continua sem ter esse "prazer"). As agonias das novelas não seriam sentidas por milhares de mortais por esse Brasil a fora, que também não veriam seus jogos nem seus "inesquecíveis" BBB!
E não falo da falta de eletricidade só por dizer, pois na minha infância, ao viajar ao interior do Estado, ficava na casa dos meus tios onde não tinha eletricidade. Poucas casas na cidade tinha, mas a dele não era uma dessas. Bebia uma água fria na quartinha, tomava banho de manhã com água de doer na pele de tão gelada, o fogão à lenha dominava um grande espaço na cozinha e não havia nada melhor do que uma carne de sol na brasa! Para se fazer um suco deixava-se a fruta de molho para depois passá-la pacientemente por uma peneira (E nisso se comia ou chupava-se mais fruta do que se tomava suco, porque dava muito trabalho fazê-lo). Ler só de dia, porque não se podia gastar querosene nas lamparinas com esse tipo de coisa. O ferro de passar roupa pesava uma tonelada e irradiava um calor de matar, necessitando vezes sem conta de ter sua tampa levantada para ali se colocar carvão. (Acho que vem daí meu horror de engomar roupa mesmo com as facilidades modernas, meu inconsciente deve ainda sentir aquele calorão e as recomendações de passar por longe. Ai de nós se uma brasa caísse queimando-nos!).
Na falta da televisão, sentava-se nas calçadas para conversar até o sono chegar. Uma das distrações era contar estórias de trancoso e olhar para o céu e tentar contar as estrelas. Coisa besta, né? É, hoje parece tudo uma grande besteira, uma ignorância, mas como diz Afonso Romano de Sant'Anna no poema Carta aos Mortos (a mim gentilmente enviado por um amigo virtual):

"Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas
Discutimos futebol nas esquinas
Morremos em estúpidos acidentes
E volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente
continua a achar
que vive no ápice da história."
PS: A postagem de hoje vai especialmente a dois amigos. A Carlos, recifense, por me mandar o poema que tão bem me serviu; a Rooney com quem divido brincadeiras e linguajares da minha pouca vida interiorana. Abraço a ambos.

Comentários

Rafael disse…
As vezes é necesario acontecer uma falta de energia como essa pra as pessoas poderem darem valor as pequenas coisas da vida, pequenos prazeres que pouco a pouco vem sendo esquecidos e renegados, pois é esse é o ser humano ao qual estamos acostumados a ser[ou não?!], salva raras exceções.

Postagens mais visitadas deste blog

Luta fugaz

As mãos passeam lentas por um campo minado de amor. Fogueiras acendem-se e na horizontal labaredas de paixão ascendem consumidas em carinhos. As vozes sussurram dentro da noite suores escorrem entre corpos. Sou grito estendido e mão contraída. És respiração ofegante, aperto mais forte. Ambos guerrilheiros do amor empenhados em uma luta que a tudo exalta e em um instante morre.

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

First love

Matheus é apaixonado por Maria. Arriado os quatro pneus e tudo o mais que se pensa de uma paixão. Maria sabe, mas finge que não percebe, ela não pode fazê-lo acreditar que ele é único, especial. É atenciosa com Matheus, puxa conversa daqui, dali e Matheus vai se revelando. Cada dia inventa assunto para se exibir diante da musa. Pra ele a vida é injusta, é o que costuma dizer. Como pode Maria não querer somente a ele? Ele fica desolado com a situação. A paixão de Matheus é tanta que a raiva lhe sobe à cabeça quando Maria dá atenção a outros – seja quem for. Chora, esperneia, pergunta se Maria o ama. No período em que Maria ficou de férias, ele não se conformava que iria ficar duas semanas sem vê-la. Não era justo! O jeito era se virar com os jogos do seu time, torcendo para que ele não perdesse e fosse rebaixado de divisão. Matheus sabe que Maria tem namorado, mas não o conhece. Até já perguntou se os dois moram juntos e ao receber um não como resposta, disse que não entendia, porque na...

Petra

Quando fui pedra / quarando os choros em beira de rios Avolumei lágrimas e cansaços. Quando fui guerra / incendiando os passos em desalentos Arrebentei amarras e depressões. Quando fui pedra. Quarando ternura sobre as pedras / quando fui guerra Acariciei risos e abraços. Fui pedra. Expurgando dores sob os risos/quando fui pedra Expulsei toda a mágoa e solidão. Fui guerra. Inundei toda tristeza e desamparo Refiz a vida e a receita Apedrejei toda ausência e traição. Pedra. Enganei   a saudade e a maldição Expus meu riso em largas praças Mudei de tênis e de calçada. Guerra. Quando sou nuvem /   passarinhando por entre os fios Levito sobre o dossel encantado Caio, levanto e passo Estendo o braço e ergo as mãos. Sou pedra feita de aço.

Leão ao meio-dia

O leão apareceu no meu caminho ao meio dia em plena avenida, carros e gente passando em linhas retas e transversais. Quando pus o pé na faixa de pedestre, olhei o sinal, levantei o olhar: lá estava a fera, à espreita, prontíssima a me devorar! Sua roupa vermelha alardeava ainda mais suas intenções - não segundas, mas primeira e única: me derrubar ali mesmo. (Se o momento não fosse tão trágico, eu teria rido: aquele leão vestido de vermelho era uma pantomima ridícula de uma tourada servilhana, fazendo da avenida uma arena, certamente esperando ansioso o Olé da multidão!). Atônita pela surpresa, recuei. O pé voltou em câmera lenta para a calçada e meus olhos relâmpagos relancearam ao redor para ver se alguém estava tomando alguma atitude. Nada. Ninguém deu a mínima para o leão, todos passaram a faixa tranquilamente, prestando atenção aos carros, ao semáforo e tomando cuidado para não atrapalhar a travessia do outro. O leão lá. Claro agora que o alvo era eu. Mas, o que diabo aquele leão t...