sábado, fevereiro 10

Sonho de verão

Algo a despertara. Ao virar à esquerda vê no relógio luminoso da cabeceira que são cinco e trinta e nove da manhã. Retorna à posição inicial, pois não sabe dormir sobre o lado esquerdo. Sente uma leve dor nos ombros.
Tenta dormir. O calor umedece os longos cabelos. Pela janela aberta uma suave brisa marinha sacode levemente as cortinas. Joga o lençol para um lado, a inquietação começando a dominá-la. Cobre a cabeça, querendo uma escuridão sem a tímida luz do sol que se insinua pelos vitrais da janela. Pensa que precisa acordar às sete horas, devido à reunião com todos os coordenadores. A preocupação em voltar a dormir faz com que ela não durma. E outra vez percebe que a dor no ombro não cessa; pelo contrário, parece agora que toma toda a musculatura da omoplata.
Vira e revira na cama, agora sem lençol nenhum a cobri-la. Na reunião serão discutidos os novos valores das comissões, que preços serão cobrados dos associados e, principalmente, quem irá assumir a direção da filial recém-criada. Ela quer a função. Na verdade, ela precisa dessa promoção.
As responsabilidades diárias a sufocam igual camisa-de-força. O orçamento está cada vez mais apertado, parece que o dinheiro some pelo ralo no mesmo dia que recebe. Alguns itens já não entram na lista do supermercado, muitas vezes deixa o carro na garagem, o cheque especial continuamente vermelho, as compras de cds, livros, perfumes, os cobiçados sapatos, estão cada vez mais espaçadas. A tensão se acumula sobre os ombros e essa deve ser a razão da dor.
Ergue-se um pouco e levemente passa a mão sobre o ombro. Nota uma leve saliência que ontem não estava ali. Ao tocar o outro ombro percebe a mesma coisa. Que estranho! Será que me machuquei dormindo? De imediato, lembra-se do sonho que teve.
Via-se sobre uma pedra e lá embaixo o mar límpido e revolto, enquanto gaivotas sobrevoavam naquilo que parecia um amanhecer. Pensava em como seria voar, não ter responsabilidades, acordar, trabalhar, pagar contas. Contemplava as gaivotas, notadamente uma que se sobressaía do bando, planando sobre as águas, e desejava fazer parte do bando. Na pedra onde estava, vezes em quando molhada pelo mar que nela se debatia, ficou pulando, pulando, achando-se gaivota querendo voar. Ao tomar impulso, estatelara-se na pedra a ponto de cair no mar. Fora isso que a acordara. Será que o ombro doía pela sensação da queda no sonho?
Ao virar-se mais uma vez, viu no relógio que os ponteiros avançaram. Daqui a pouco seria hora de levantar-se. Antes mesmo de começar o dia, já se sentia cansada. Seria um dia daqueles! Os ombros pesavam-lhe mais do que o normal, parecia-lhe que de uma vez estavam a nascer duas verrugas ou - e que Deus a livrasse! -furúnculos que durante a infância tanto lhe atormentaram! Pensou mais uma vez no sonho, tentando compreender o seu significado. Será que estava tão farta de tudo que o seu desejo era sair por aí, deixando que cada um resolvesse as próprias coisas e ela ser ela mesma? Será que a gaivota era o seu símbolo de liberdade? Talvez. Apenas talvez!
Percebendo que não mais dormiria, resolveu levantar-se de vez. O relógio marcava seis e trinta e sete. Aproveitaria esse tempo para tomar um banho e um café mais demorados. Tirou a camiseta por sobre a cabeça e ao olhar-se no espelho, assustou-se. O que lhe pareciam simples verrugas ou os terríveis furúnculos eram duas protuberâncias calosas, o que sua avó chamava de calombo, saindo-lhe das omoplatas num crescimento vertiginoso, prova inequívoca de que algo de anormal estava a lhe acontecer. Entre assustada e curiosa, andou até a janela, afastou as cortinas para que a luz facilitasse o exame que pretendia realizar em si mesma.
Ao ver o sol e o mar a sua frente, não teve dúvida. O bando estava lhe esperando. Subiu no parapeito da janela, tomou impulso e voou. Estava certa que não cairia estatelada na calçada lá embaixo.

Um comentário:

Flávia disse...

Agora todos os dias fico a me olhar no espelho. Pena q meus "calombos" ainda não nasceram.

Lindo!

Bjs