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Por falta de aSSunTo



Quem se atreve a ler o que aqui escrevo muitas vezes se admira e me diz que tenho algum dom. Alguns acham que a inspiração mora ao lado e basta um estalar de dedos e SHAZAM!!!!!!. Quem dera! Essas letras contêm muito mais expiração do que inspiração.
Desde o início da semana que fiquei pensando sobre o que escreveria. Qual estória contaria hoje. Na cabeça comecei várias e no meio dos ônibus atravessando a cidade elas se perderam, misturaram-se aos diversos papéis que pelas minhas mãos passaram - até mesmo a leitura de um livro me atrasou, ainda que tenha ficado tentada a escrever sobre ele!

Uma das estórias poderia ter sido sobre alguns personagens de revistas em quadrinhos, pois eu e uma amiga conversávamos sobre a turma do Zé Colméia e ela me contava que tinha pena do Catatau, pois ele sempre pagava todos os micos, sendo apontando como responsável pelas espertezas do chefe em sua ânsia de levar vantagem em tudo. E olha que o Zé Colméia não foi uma criação baseada no brasileiro, mesmo porque isso da vantagem hoje é um sintoma egocêntrico sem etnia e há muito extrapolou o selvagem mundo capitalista (Paz e Amor, bicho!). E minha amiga ainda me falou da trabalheira que o Homem-Aranha têm no novo filme ao enfrentar três adversários. Três! Já pensou? (Coitado, o que ele apanhou no segundo filme vai parecer fichinha!).
Outra estória, essa de uma delicadeza inefável (adoro essa palavra graças ao poema do Manuel Bandeira!), poderia ter sido a de Paulo que no sábado de manhã à mesa do café em um self service, sem que nunca tivéssemos nos encontrado, soltou o verbo e parte da alma, contando-me trechos de sua vida interiorana e seus motivos de vir morar na capital. Enquanto dividíamos um café, sonolentos ambos, nesses lugares onde mal as pessoas se olham, brotava a partir de um comentário banal uma lágrima ao lembrar saudoso da mãe que partira e que nele deixara tantas marcas; sua trajetória rumo a uma profissionalização, sua volta aos estudos depois de tanto tempo e, sobretudo, seu lado meigo, preocupado com os amigos que transitam entre erros e acertos nos relacionamentos. Foi uma estória que ainda aparecerá aqui, uma dádiva para mim que às vezes fico tão descrente das pessoas e ali estava, aquele homem, trazendo/levando dentro de si uma fortaleza, uma coragem para os desafios, uma garra pela vida que às vezes pensa não ter!
Talvez eu devesse ter concluído um conto que fala de mandrágoras, portas, impulsos, mas me perdi tentando me lembrar dos detalhes do livro original que anda lá pra bandas do sul brasileiro (atrevidamente o livro faz o que eu deveria estar fazendo: visitando outras terras, outras gentes, aproveitando férias!).
No final ficou tudo inconcluso. Foi uma semana atípica, entremeada de risos, choros, emoções, conhecidos e desconhecidos me olhando emocionados. Foi a semana em que comecei a organizar as gavetas e birôs, espalhar e juntar papéis, abrindo espaço para que outros ocupem lugares e funções. Foi a semana em que não tive tempo para poesia, para lirismo de papel, porque a vida se apresentou bela e lírica em sua plenitude, e minha ânsia de aprisionar os momentos nos dedos, nas retinas dos meus olhos – para depois escrever calmamente sobre eles - foi em vão, porque tudo ficou gravado na minha mente e no meu coração.
Foi a semana que maior o amor se fez. A semana em que descobri mais uma vez que não existem acasos, cimentando a certeza de
"que tudo que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição." (Clarice Lispector)
Dias melhores virão, porque a sensibilidade está em Paulo; o senso de justiça está na minha amiga que defende os fracos; o amor pelo que faz está naquela que me abraça chorando; a esperança está na amiga que disciplinarmente toma seu remédio para ficar boa; a alegria está na colega que terminou um curso e foi parabenizada pelo trabalho apresentado; a bondade está naquela pessoa que todos os dias faz suas preces. A vida está em todos nós. Nos conhecidos e nos desconhecidos com quem cruzamos todos os dias! Está em mim que mesmo a uma hora dessas, cansada, encontrei tempo para escrever inventando o assunto que durante toda a semana andou fugindo de mim!

Comentários

Fantasma disse…
Cumadi, você falou lindamente sobre o solitário gesto de viver...
Tânia Souza disse…
Os caminhos virtuais guardam doçuras insuspeitas, adorei encontrar este canto de pura sensibilidade! Um abraço poético!
Anônimo disse…
Por que "escritos na água"??
Se a água leva e molha e espalha...
É, talvez por que espalha, por que
leva para longe, divulga!!

Pois os seus escritos, Ednice, são,
mesmo, para ser espalhados, divulgados, lidos.
Tão lindo!!!

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