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Comida caseira

Não dá para escrever por obrigação. Esse povo por aí que tem coluna em jornal, que tem que escrever um número X de laudas semanalmente, deve viver numa agonia danada ou tem um repertório inesgotável, tirando letras da cachola como mágico tira coelho da cartola! Pelas caridades!
Possivelmente aí resida a diferença entre o amador – amante de letras – e o profissional. Como amadora, se as coisas não estão bem, a minha tendência é escrever letras garrafais de sangue e dor. Se estão, chega assim um tanto de inspiração e pode sair uma estória razoável, geralmente de um otimismo piegas. Se as coisas não estão bem nem mal, mas naquele patamar pasmaceiro, a preguiça manda copiar um texto de alguém, fazer uma produção caprichada e teclar OK.
Não estou bem nem mal. Não estou com preguiça, embora dois textos pudessem ser colocados aqui (outra hora eles aparecerão, porque merecem ser lidos). Estou naquele limiar reflexivo que faz o sol ficar nublado e a chuva ficar quente.
Nenhum dos dois estados mata, tampouco me faz tomar um sorvete de tapioca ou comer sashimi que adoro. Nesse estado, uso computador por obrigação, tomo injeção para uma epicondilite no cotovelo direito – o que me deixa desmunhecando quando termino de digitar! – e a injeção me deixa o braço esquerdo mais dolorido do que o outro; armo a rede e tento ler um livro só por vez, mas é impossível, pois quero saber da estória do homem que entende a linguagem dos cavalos, quero continuar acompanhando o Gabo em seu "Viver para Contar", quero saber onde essa garota chamada Ayla vai parar,...
À noite eu não rondo a cidade. Janelas fechadas me sufocam no calor. Uma cidadela me ronda a noite inteira e me traz o som romântico do love theme of Titanic tocado em flautas por adolescentes escolares em homenagem às mães lá no pátio da escola; assombram-me os vários papéis nos quais devo colocar carimbos e assinar; despertam-me as providências a serem tomadas na manhã seguinte. O remédio – se o tomasse – não me aliviaria o sono, pois o esbranquiçado da luz permanece claro e forte. Ao amanhecer, quando o sono chega, já é hora do relógio. Então, levanto para viver.

O viver me leva para o outro lado da cidade e para o outro lado de mim. Observo crianças cuja brincadeira preferida é correr, jogar bola. Imagino-as daqui a uns anos sem saber o que a vida lhes reserva, que palavras ainda ecoarão em suas mentes, que formação estamos lhe dando e se isso vai lhes ser de alguma valia. Às vezes me sinto como Dom Quixote perseguindo moinhos de vento diante do imutável, mesmo que este seja muito mais produto da inércia de alguns que se acreditam em movimento adelante quando na verdade estão indo na direção contrária, cavando fossos para si mesmos.
O viver também me leva para dentro de mim e lá encontro depositário de lágrimas prestes a rolar; encontro uma paixão que em mim renasce e me leva aonde sonho ir, levantando-me vezes sem conta sem deixar que meus joelhos sangrem, pois mãos sempre me erguem. Por dentro rezo em silêncio em busca de paciência, embora uma colega me diga para pedir sabedoria, pois quem pede paciência está pedindo problema!
Neste estado reflexivo em que confundo chuva e sol, não escrevo nada que possa suscitar um ah!, não concluo um texto sobre paixão, um outro sobre mãe, restando-me bater teclas sem seguir o que Rubem Alves disse (e que uma amiga me lembrou dias atrás), sem aplicar-me inteiramente à citação, pois escritora não sou: "O escritor é um cozinheiro que a cada semana tem de inventar um prato novo. Cada semana que começa é uma angústia, representada pelo vazio de uma folha de papel em branco que o olha e diz: "Escreva aqui uma coisa nova que dê prazer".Todo texto prazeroso conta uma mentira. Ele esconde as dores da gestação e do parto. De vez em quanto alguém diz ao escritor "Como você escreve fácil". Alguém lhe confessa o seu prazer no seu texto. Mas o escritor sabe que essa facilidade só existe para quem lê. O fogo que lhe queimou ficou na cozinha. Mas para o escritor vale a pena ficar queimado pela alegria no rosto de quem come a comida que se fez".
Quisera eu poder proporcionar uma alegria desse tipo a quem ler este canto, pois se repararem bem o que tenho feito é devanear, combinar palavras para ver o que sai, descobrindo-me muito mais do que elas a mim.
Em todo caso, bon appétit!

Comentários

Fantasma disse…
Sem querer ser cruel, desejo que a insônia a assombre mais e mais. O despertar foi muito belo!

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