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Janela adentro

A poltrona colocada frente à janela mostra uma rua sossegada, pouco movimento de carros e gente. Nela, Zuleide observa a rua sem ver. Seus olhos se apertam devido a claridade que vem de fora; ouvidos surdos ao vozerio que vem do interior da casa. Filhos e netos falam animados da festa que há um mês preparam com a ansiedade de casamento. A festa vai comemorar seu aniversário, mas pouco ligam para a aniversariante. Fará 85 anos.
Não sabe se fala com Miguel ou se espera ele se aproximar. A vergonha de ser falada inibe sua vontade e fica sentada na praça, um olho lá, meio ouvido aqui. E se ele não se decidir? Esperar agoniada outro domingo, passar outra semana ouvindo em casa o pai elogiar o governo de Getúlio Vargas, fazendo comida, lavando roupa no rio bacia na cabeça? Não, tem que fazer alguma coisa. Tem 15 anos e muita pressa em viver. Não vai ficar pra titia de jeito nenhum. Se Miguel não se mexer, o jeito é ficar falada.
As imagens são takes na cabeça de Zuleide. As conversas no portão vigiadas pela irmã mais velha, a timidez de Miguel, os dois anos arrumando-se para casar, a convivência difícil com a sogra até irem para uma casa só deles, o nascimento de Paulo Neto. Aquelas primeiras dores rasgando-lhe as entranhas nunca foram esquecidas, embora seguidas de mais quatro. Criara todos os filhos, três homens, duas mulheres, praticamente sozinha de cidade em cidade quando o marido encasquetava de mudar-se no comércio de comprar e vender tudo em que colocasse as mãos. Primeiro, foram as viagens que os afastaram; depois, as mulheres. Onde ficara aquele rapaz tímido, carinhoso e que esperara suas iniciativas?
O som das conversas se mistura ao som interno de Dona Zuleide. Ao virar-se na cadeira, vê Paulo Neto guardando umas cervejas na geladeira e mais uma vez vê o falecido marido naquele rosto cuspido e escarrado tal como dizem. Tem hoje a mesma idade do pai quando morreu vítima de um ataque cardíaco que o fulminou na casa da amante. Remexe-se inquieta na cadeira e grita com o filho, chamando-o de Miguel, reclamando que ele só vive com as mulheres, que não sabe dá valor à família.
A poltrona colocada frente à janela mostra um jardim florido, telhados baixos, casas e gente conhecidas. A boca saliva da umbuzada com leite tirado na hora, o trem chegando na estação parecendo trovão, o barulho do jepp de Miguel aproximando-se pela rua preparando-se para nova briga ou nova mudança. Perdera a noção de em quantas casas vivera, a quanto tivera que se fingir de cega e surda na esperança do amor e no compromisso perante Deus e os homens. Na sombra crescera ritmando a vida dos filhos e a de si própria nas longas ausências, discussões, dissimulações. Falada não ficaria!
Sabe que preparam seu aniversário, isso não esquecera. Ninguém lhe pede opinião para nada, a empregada rodeando-lhe pra ver se precisa de alguma coisa, um filho morando em outro país, outro sob a terra vítima de acidente. As filhas indo e vindo na vida como passageiros em estações. Ora fica na casa de um, ora na casa de outro, dividindo-se no trabalho que dá a cada um, a paga pelo que fez. O filho da neta mais velha é a única alegria que tem. Não é mais mãe nem avó. É Bisa. É velha. Não pensa na vida nem na morte. Às vezes acha até que nem pensa, as imagens se atropelando na cabeça, dando-lhe o medo da loucura. Aqueles remédios de cores e formatos variados devem lhe causar toda essa confusão. Se os alcançasse na prateleira lá de cima onde os colocam, jogava todos na privada. Mas, não tem tamanho; durante toda a vida tivera altura. Hoje, nem isso!
(PS.: A segunda foto foi gentilmente cedida por Rosa Santana, amiga orkuteira de Goiânia. Obrigada, professora!)

Comentários

maria olimpia disse…
Que lindo, Ednice. Que lindo!
Fátima Mota disse…
Fico espaantada com a sua capacidade de escrever tão lindamente. Parabéns!
Quando crescer quero ser igual a você. rsrsrs
Unknown disse…
Gostei demais!!!!!
É muito expressivo.
Lindo e triste!
Parabéns. A foto casou muito bem,
muito boa escolha!
Beijos!
Rosa

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