Panis et circenses
Com cuidado fecha a porta atrás de si. Na cozinha, coloca as compras sobre a mesa. Abre o armário e de lá retira o saco há tempo guardado e com ele à mão, puxa a poltrona até o umbral da janela, senta-se e sobre si derrama todo o milho. Agora é esperar que os pombos ergam-no.
O som da tv sai pela porta incomodando os outros que naquele corredor não ousam abrir as portas para reclamar. Dentro da sala, o som passa despercebido à mulher que de frente para a parede branca, vassoura à mão, bate freneticamente na teia que toma toda a parede agora já acinzentada pelos vários anos de umidade. Ela tem que limpar, arrancar aqueles fios que se entrelaçam ameaçando alcançar a porta do quarto.
Procura a aranha engenheira daquele emaranhado de fios, mas não encontra. Aborrecida, larga a vassoura, puxa uma cadeira e jogando mãos e pés ao mesmo tempo agarra-se à parede, subindo na teia em direção ao teto, onde se deixa ficar quente e quieta.
Na gravura de um colorido surreal a figura mítica de um centauro parado sob um raio de sol que se infiltra pelas grandes árvores da floresta lhe observa. A cabeça erguida revela um selvagem criado nos montes atenienses. Seus olhos se prendem na figura e num súbito levantar, ergue as ancas e corre para a página ao encontro loucamente esperado.
Ao pegar o copo de alumínio sente-lhe a frieza ao som das pedras de gelo. A água desce causando-lhe de imediato um choque térmico nas têmporas. Ao deixar o copo sobre a pia, suas mãos apertam a cabeça, mas já era tarde. Com assombro vê seus pensamentos fugindo em direção a geladeira ainda aberta, ocupando formas vítreas, deixando-a nua de corpo e alma.
Veste cada uma das peças antegozando o prazer dos amigos e da mulher ao vê-lo impecável na hora de receber o tão cobiçado prêmio. Sabe que mereceu, trabalhara muito para isso, a recompensa lhe parece natural caminho para novos e rentáveis negócios. Ao terminar de arrumar-se, sem sequer olhar-se no espelho, abre a gaveta da cômoda. A caneta de ouro brilha no estojo aveludado. Ao colocá-la no bolso externo do paletó, a caneta pula de sua mão de repente, derrubando-o sobre a cama sob o peso de várias palavras que se formam flourescentes sobre suas roupas, rosto, escrevendo magicamente todas as promessas não cumpridas a seus filhos.








"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores." MIA COUTO