sábado, abril 12

Pé ante pé

Todos os dias passava por aquela rua de ponta a ponta só lojas. Admirava as vitrines. Quase tudo lhe chamava a atenção, a maioria custava a metade do seu salário e não podia se dá a esse luxo. Resistia heroicamente à visão das sandálias, principalmente. Ah, as sandálias! Nessa hora de desejo dava todas as razões a Imelda Marcos, a Claudia Raia.
Naquela segunda-feira chuvosa, mal prestava atenção às lojas de tanta água na rua. De repente a sandália prateada saltou-lhe aos olhos, fazendo-a parar. Salto fino da altura que gosta, aberta na frente, dedos à mostra. Linda, pedindo para ser comprada, a sandália acompanhou-a durante o dia todo. A cabeça dava voltas e mais voltas nos cálculos possíveis, procurando brecha para comprar, comprar. A sandália tinha que ser dela.
A rua agora se resumia àquela única vitrine, àquela sandália no pedestal esperando. Esperando-a. O mês estava terminando e alguma coisa não seria paga para que a sandália fosse sua. Mas, o quê? O que poderia deixar de lado para ter a sandália?
Mal abre a porta, joga a bolsa no sofá, tira os sapatos e começa a abrir freneticamente o pacote. Ainda bem que conseguira comprar antes que outra a levasse.
De repente, o telefone toca. Não, logo agora! O visor do celular mostra uma ligação da coordenadora da escola onde Bruno estuda. Ele deve ter aprontado mais uma. Atende. Enquanto escuta, vai pegando a bolsa, fechando a casa, saindo. Bruno está no hospital depois de um acidente na escola. Não sabe bem o que fará. O dinheiro da mensalidade do plano de saúde fora usado na compra da sandália.
No sofá a sandália repousa em meio ao emaranhado da vida.

3 comentários:

Lucila disse...

Tá vendo? Por isto não me deixo seduzir pelo consumismo...

Anônimo disse...

Eita, ferro! Bem que ela poderia ter deixado de pagar o cartão! Gostei do texto: claro, objetivo, talqualmente vc. Um cheiro. Joseane.

Irlanda disse...

amei, é bem assim que somos seduzidas pelos sapatos mas vitrines! Mas as vezes as coisas se atropelam...