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Pé ante pé

Todos os dias passava por aquela rua de ponta a ponta só lojas. Admirava as vitrines. Quase tudo lhe chamava a atenção, a maioria custava a metade do seu salário e não podia se dá a esse luxo. Resistia heroicamente à visão das sandálias, principalmente. Ah, as sandálias! Nessa hora de desejo dava todas as razões a Imelda Marcos, a Claudia Raia.
Naquela segunda-feira chuvosa, mal prestava atenção às lojas de tanta água na rua. De repente a sandália prateada saltou-lhe aos olhos, fazendo-a parar. Salto fino da altura que gosta, aberta na frente, dedos à mostra. Linda, pedindo para ser comprada, a sandália acompanhou-a durante o dia todo. A cabeça dava voltas e mais voltas nos cálculos possíveis, procurando brecha para comprar, comprar. A sandália tinha que ser dela.
A rua agora se resumia àquela única vitrine, àquela sandália no pedestal esperando. Esperando-a. O mês estava terminando e alguma coisa não seria paga para que a sandália fosse sua. Mas, o quê? O que poderia deixar de lado para ter a sandália?
Mal abre a porta, joga a bolsa no sofá, tira os sapatos e começa a abrir freneticamente o pacote. Ainda bem que conseguira comprar antes que outra a levasse.
De repente, o telefone toca. Não, logo agora! O visor do celular mostra uma ligação da coordenadora da escola onde Bruno estuda. Ele deve ter aprontado mais uma. Atende. Enquanto escuta, vai pegando a bolsa, fechando a casa, saindo. Bruno está no hospital depois de um acidente na escola. Não sabe bem o que fará. O dinheiro da mensalidade do plano de saúde fora usado na compra da sandália.
No sofá a sandália repousa em meio ao emaranhado da vida.

Comentários

Fantasma disse…
Tá vendo? Por isto não me deixo seduzir pelo consumismo...
Anônimo disse…
Eita, ferro! Bem que ela poderia ter deixado de pagar o cartão! Gostei do texto: claro, objetivo, talqualmente vc. Um cheiro. Joseane.
Unknown disse…
amei, é bem assim que somos seduzidas pelos sapatos mas vitrines! Mas as vezes as coisas se atropelam...

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