Pular para o conteúdo principal

Sonho de verão

Algo a despertara. Ao virar à esquerda vê no relógio luminoso da cabeceira que são cinco e trinta e nove da manhã. Retorna à posição inicial, pois não sabe dormir sobre o lado esquerdo. Sente uma leve dor nos ombros.
Tenta dormir. O calor umedece os longos cabelos. Pela janela aberta uma suave brisa marinha sacode levemente as cortinas. Joga o lençol para um lado, a inquietação começando a dominá-la. Cobre a cabeça, querendo uma escuridão sem a tímida luz do sol que se insinua pelos vitrais da janela. Pensa que precisa acordar às sete horas, devido à reunião com todos os coordenadores. A preocupação em voltar a dormir faz com que ela não durma. E outra vez percebe que a dor no ombro não cessa; pelo contrário, parece agora que toma toda a musculatura da omoplata.
Vira e revira na cama, agora sem lençol nenhum a cobri-la. Na reunião serão discutidos os novos valores das comissões, que preços serão cobrados dos associados e, principalmente, quem irá assumir a direção da filial recém-criada. Ela quer a função. Na verdade, ela precisa dessa promoção.
As responsabilidades diárias a sufocam igual camisa-de-força. O orçamento está cada vez mais apertado, parece que o dinheiro some pelo ralo no mesmo dia que recebe. Alguns itens já não entram na lista do supermercado, muitas vezes deixa o carro na garagem, o cheque especial continuamente vermelho, as compras de cds, livros, perfumes, os cobiçados sapatos, estão cada vez mais espaçadas. A tensão se acumula sobre os ombros e essa deve ser a razão da dor.
Ergue-se um pouco e levemente passa a mão sobre o ombro. Nota uma leve saliência que ontem não estava ali. Ao tocar o outro ombro percebe a mesma coisa. Que estranho! Será que me machuquei dormindo? De imediato, lembra-se do sonho que teve.
Via-se sobre uma pedra e lá embaixo o mar límpido e revolto, enquanto gaivotas sobrevoavam naquilo que parecia um amanhecer. Pensava em como seria voar, não ter responsabilidades, acordar, trabalhar, pagar contas. Contemplava as gaivotas, notadamente uma que se sobressaía do bando, planando sobre as águas, e desejava fazer parte do bando. Na pedra onde estava, vezes em quando molhada pelo mar que nela se debatia, ficou pulando, pulando, achando-se gaivota querendo voar. Ao tomar impulso, estatelara-se na pedra a ponto de cair no mar. Fora isso que a acordara. Será que o ombro doía pela sensação da queda no sonho?
Ao virar-se mais uma vez, viu no relógio que os ponteiros avançaram. Daqui a pouco seria hora de levantar-se. Antes mesmo de começar o dia, já se sentia cansada. Seria um dia daqueles! Os ombros pesavam-lhe mais do que o normal, parecia-lhe que de uma vez estavam a nascer duas verrugas ou - e que Deus a livrasse! -furúnculos que durante a infância tanto lhe atormentaram! Pensou mais uma vez no sonho, tentando compreender o seu significado. Será que estava tão farta de tudo que o seu desejo era sair por aí, deixando que cada um resolvesse as próprias coisas e ela ser ela mesma? Será que a gaivota era o seu símbolo de liberdade? Talvez. Apenas talvez!
Percebendo que não mais dormiria, resolveu levantar-se de vez. O relógio marcava seis e trinta e sete. Aproveitaria esse tempo para tomar um banho e um café mais demorados. Tirou a camiseta por sobre a cabeça e ao olhar-se no espelho, assustou-se. O que lhe pareciam simples verrugas ou os terríveis furúnculos eram duas protuberâncias calosas, o que sua avó chamava de calombo, saindo-lhe das omoplatas num crescimento vertiginoso, prova inequívoca de que algo de anormal estava a lhe acontecer. Entre assustada e curiosa, andou até a janela, afastou as cortinas para que a luz facilitasse o exame que pretendia realizar em si mesma.
Ao ver o sol e o mar a sua frente, não teve dúvida. O bando estava lhe esperando. Subiu no parapeito da janela, tomou impulso e voou. Estava certa que não cairia estatelada na calçada lá embaixo.

Comentários

Anônimo disse…
Agora todos os dias fico a me olhar no espelho. Pena q meus "calombos" ainda não nasceram.

Lindo!

Bjs

Postagens mais visitadas deste blog

Luta fugaz

As mãos passeam lentas por um campo minado de amor. Fogueiras acendem-se e na horizontal labaredas de paixão ascendem consumidas em carinhos. As vozes sussurram dentro da noite suores escorrem entre corpos. Sou grito estendido e mão contraída. És respiração ofegante, aperto mais forte. Ambos guerrilheiros do amor empenhados em uma luta que a tudo exalta e em um instante morre.

First love

Matheus é apaixonado por Maria. Arriado os quatro pneus e tudo o mais que se pensa de uma paixão. Maria sabe, mas finge que não percebe, ela não pode fazê-lo acreditar que ele é único, especial. É atenciosa com Matheus, puxa conversa daqui, dali e Matheus vai se revelando. Cada dia inventa assunto para se exibir diante da musa. Pra ele a vida é injusta, é o que costuma dizer. Como pode Maria não querer somente a ele? Ele fica desolado com a situação. A paixão de Matheus é tanta que a raiva lhe sobe à cabeça quando Maria dá atenção a outros – seja quem for. Chora, esperneia, pergunta se Maria o ama. No período em que Maria ficou de férias, ele não se conformava que iria ficar duas semanas sem vê-la. Não era justo! O jeito era se virar com os jogos do seu time, torcendo para que ele não perdesse e fosse rebaixado de divisão. Matheus sabe que Maria tem namorado, mas não o conhece. Até já perguntou se os dois moram juntos e ao receber um não como resposta, disse que não entendia, porque na...

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

Petra

Quando fui pedra / quarando os choros em beira de rios Avolumei lágrimas e cansaços. Quando fui guerra / incendiando os passos em desalentos Arrebentei amarras e depressões. Quando fui pedra. Quarando ternura sobre as pedras / quando fui guerra Acariciei risos e abraços. Fui pedra. Expurgando dores sob os risos/quando fui pedra Expulsei toda a mágoa e solidão. Fui guerra. Inundei toda tristeza e desamparo Refiz a vida e a receita Apedrejei toda ausência e traição. Pedra. Enganei   a saudade e a maldição Expus meu riso em largas praças Mudei de tênis e de calçada. Guerra. Quando sou nuvem /   passarinhando por entre os fios Levito sobre o dossel encantado Caio, levanto e passo Estendo o braço e ergo as mãos. Sou pedra feita de aço.

Leão ao meio-dia

O leão apareceu no meu caminho ao meio dia em plena avenida, carros e gente passando em linhas retas e transversais. Quando pus o pé na faixa de pedestre, olhei o sinal, levantei o olhar: lá estava a fera, à espreita, prontíssima a me devorar! Sua roupa vermelha alardeava ainda mais suas intenções - não segundas, mas primeira e única: me derrubar ali mesmo. (Se o momento não fosse tão trágico, eu teria rido: aquele leão vestido de vermelho era uma pantomima ridícula de uma tourada servilhana, fazendo da avenida uma arena, certamente esperando ansioso o Olé da multidão!). Atônita pela surpresa, recuei. O pé voltou em câmera lenta para a calçada e meus olhos relâmpagos relancearam ao redor para ver se alguém estava tomando alguma atitude. Nada. Ninguém deu a mínima para o leão, todos passaram a faixa tranquilamente, prestando atenção aos carros, ao semáforo e tomando cuidado para não atrapalhar a travessia do outro. O leão lá. Claro agora que o alvo era eu. Mas, o que diabo aquele leão t...