Pular para o conteúdo principal

GoSto de maçã

Às vezes estico a memória num exercício para saber até onde ela vai. E tal como tartaruga, lentamente me vejo em vários lugares, takes se sobrepondo trazendo-me fases distintas da vida. Nem sempre consigo situá-las no tempo, embora as cores e até mesmo alguns sabores se materializem de repente.
Meu avô materno era carpinteiro e vejo-o com serragem pelos braços no movimento do serrote, advertindo-nos, a mim e aos meus primos, do perigo de chegar muito perto. A bancada onde trabalhava ficava no alpendre nos fundos da casa. Era exímio com as mãos e nunca lhe faltava encomendas tanto para lhe fazer sobreviver como para abastecer a família de mesas, armários, cadeiras, na verdade tamboretes, visto que não tinham espaldar. Raramente fez alguma coisa para os netos, mas meu irmão foi o felizardo de ganhar um tamborete bem pequeno que durante anos andou na nossa casa, perdido em uma das mudanças, ele já adolescente e meu avô já morto.
Vizinha a casa dos meus avós era a casa de minha tia com um quintal imenso que tinha até uma vala que servia como rio em nossa imaginação. Não importava que perto dali minha tia lavasse roupa e a água escorresse a céu aberto cheia de sabão. Descalça eu não ficava, pois se o fizesse minha mãe não deixaria barato, mas meus primos sim, e nem por isso adoeciam. No quintal, mangueiras, bananeiras, um pé de carambola, outro de limão, em algumas épocas ramas de jerimum e de batata, serviam de selva em nosso corre-corre e nos concorridos "cozinhados": usávamos um fogareiro e numa pequena panela se misturavam o feijão, o arroz, a carne dados por minha tia. Era uma gororoba de primeira, horrível!, saboreada como um manjar.
Um tio morava longe. Se eu ia para a casa da minha tia sozinha, para a casa do meu tio não tinha como, pois no caminho existia uma longa rua - famosa por acontecer assaltos e ataques a mulheres - ladeada por uma cerca viva de pés de urucu, que pegávamos para os adultos fazerem colorau e nós para lambuzar a cara na brincadeira de índio.
Uma outra tia materna não morava na capital e passei um mês na cidade fria de Currais Novos, cuja altitude é 341m em relação ao nível do mar, quando Natal só tem 31m. De manhã a névoa cobria tudo e eu ali, puxada pela minha mãe – não lembro quantos anos tinha – comendo maça assada, mel formado na coroa de frade. Cortava-se a parte superior do cactus, colocava-se açúcar mexendo-o à polpa, tampava-se e deixava toda a noite no sereno para que de manhã eu tomasse aquilo. Não sei a origem da receita, como também não sei quem ensinou que eu ficaria boa tomando leite "pedrado", literalmente: fervia-se o leite com uma pedra dentro. Ainda bem que não ensinaram que era para derramar o leite e eu engolir a pedra, porque naquele desespero não duvido nada que me obrigariam a tomar. Nenhuma das receitas deu resultado, a coqueluche só me deixou muitos meses depois.
Não conheci o meu avô paterno e minhas avós não foram chegadas a afagos com os netos. A mãe da minha mãe era presbiteriana das antigas, rígida, de pouca conversa com os netos, cuja responsabilidade era das filhas, não de vó. A lembrança mais vívida é a dela lendo constantemente a Bíblia, apertando os olhos, pois até o fim da vida nunca usou óculos. De minha avó paterna é outra estória, porque quando nasci meus pais ainda moravam "dentro de casa" e cresci acompanhando a rixa velada entre ela e minha mãe, pois quando meus pais se mudaram para outro bairro, ela deu um jeito e foi morar na casa vizinha, onde viveu até morrer. Não gostava de netas –e teve muitas – somente dos netos. Pra ela mulher não servia pra nada, além de parideira. Essa opinião era a causa de todos os desaforos entre ela e a minha mãe que não aceitava intromissão na própria vida.
De todas as lembranças, no entanto, nada há a que se compare com a da minha única tia paterna de quem recebi todo o carinho e cumplicidade de que só as tias são capazes. Dela recebi o apelido de amor muito antes de saber o que a palavra significava, com ela fui a muitos aniversários, casamentos, até mesmo a comícios e passeatas políticas, na casa dela comia o que queria, e também podia me esconder fugindo das broncas de minha mãe – não que adiantasse, porque existia sempre a volta! - podia ficar lendo horas seguidas sem nenhuma interrupção. Foi a presença mais constante durante toda a minha infância e adolescência e gostava de me contar que no dia do meu nascimento, ao me ver magrinha, prematura de 8 meses, saíra dizendo a minha mãe que voltaria para o enterro. Ela se enganou e durante toda a sua vida me deu o privilégio de saber o que é amor incondicional de tia!
C'est la vie, c'est la vie!

Comentários

Fantasma disse…
Enxergo-me tanto em seus contos, que chega a doer.

Postagens mais visitadas deste blog

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

Filosofia a granel

   Essa semana conversei com um colega sobre o livro "A Caverna" , escrito por José Saramago , pois nele há um lugar chamado de Centro, onde as pessoas vivem isoladas do mundo, tendo ao seu dispor alguns entretenimentos, sendo, no entanto, monitoradas por câmeras. Também comentamos o enredo do filme A Vila , dirigido por Night Shyamalan em 2004 e que mostra uma comunidade totalmente isolada do resto da civilização, vivendo no ano de 1897. Em determinado ponto, os mais jovens questionam por que não podem atravessar o bosque e ver o que tem além. Em meio a ataques de estranhas criaturas (ao final, apenas um êngodo ameaçador para que ninguém se atreva a sair), cabe a uma jovem cega a tarefa de ir em busca de ajuda naquilo que seria uma cidade além dos limites da floresta. E eis que a garota encontra uma rodovia no Estado da Pensilvânia totalmente urbanizada, civilizada, numa demonstração que o povo da vila parara no tempo com medo do progresso, do conhecimento. E, cega, nada po...

De amOR e de temPO

    Ainda quando estudava o antigo ginasial, uma professora de Português, interessada em que os alunos gostassem de ler e apreciassem os clássicos, passou como tarefa de avaliação uma redação sobre o texto  AMOR MENINO par te II do Sermão do Mandato – mas isso só soube muito depois já na faculdade - do Pe. Antonio Vieira. Agora, imaginem a dificuldade de adolescentes nos idos final dos anos 60 em cumprir essa tarefa. O que sabíamos do amor? Nada. Do tempo muito menos. O amor era em preto e branco nas fotonovelas que eu comprava no sebo na banca da feira livre, hábito também o das minhas amigas com quem trocava livros e revistas, caso contrário não leríamos nada. Apesar dessas imagens de amor, não lembro se as conversas já rondavam assuntos de namoro, casamento. Acho que não, pois éramos àquela época imaturas para tais assuntos. O universo ainda girava em volta de livros, estudar para provas, sorvetes, ouvir música e meninos não faziam parte do grupo. Aliás, eram olhados...

Janela adentro

A poltrona colocada frente à janela mostra uma rua sossegada, pouco movimento de carros e gente. Nela, Zuleide observa a rua sem ver. Seus olhos se apertam devido a claridade que vem de fora; ouvidos surdos ao vozerio que vem do interior da casa. Filhos e netos falam animados da festa que há um mês preparam com a ansiedade de casamento. A festa vai comemorar seu aniversário, mas pouco ligam para a aniversariante. Fará 85 anos. Não sabe se fala com Miguel ou se espera ele se aproximar. A vergonha de ser falada inibe sua vontade e fica sentada na praça, um olho lá, meio ouvido aqui. E se ele não se decidir? Esperar agoniada outro domingo, passar outra semana ouvindo em casa o pai elogiar o governo de Getúlio Vargas, fazendo comida, lavando roupa no rio bacia na cabeça? Não, tem que fazer alguma coisa. Tem 15 anos e muita pressa em viver. Não vai ficar pra titia de jeito nenhum. Se Miguel não se mexer, o jeito é ficar falada. As imagens são takes na cabeça de Zuleide. As conversas no po...

oSSevA

Corro pela lama, atravesso o sol e a lua distante me observa irônica zombando-me. Arrepia-me pensar na inutilidade da carreira, da volta, da linha reta sobre o trilho, sobre a rua sob a lua. Escapa-me o sentido de duas ruas, quatro prédios ladeira acima e abajo. Recuso-me a ser uma rede social de futilidades e palavras institucionalizadas, diários coletivos ao vento, em traços virtuais dando conta do banho, do jantar, da comida sobre o fogão ou a falta de sono, de dinheiro, de amor, excesso de trabalho. Sou além de ondas computadorizadas, estou além de rótulos, modismos. Abusada, não me contenho na lata do siri que pula, bate e não sai do canto. Meu canto é mais amplo, mais livre porque meu sem alarde.

VIda LOUca Vida

A gravura acima, colhida no álbum do papai Google, anônima, é atribuída ao surrealismo que surgiu nas primeiras décadas do século XX e que foi por "excelência a corrente artística moderna da representação do irracional e do subconsciente". Assim, apele ao seu inconsciente e tente descobrir o que você vê. Será que você vê, por exemplo, nosso ouvido interno, o chamado labirinto, aquele tal cuja inflamação provoca tonturas? Talvez você veja um focinho de porco, um olho deformado, um cogumelo gigante cheio de tentáculos. Você pode não vê nada disso ou ainda vê o que ninguém mais verá. Preste atenção mais uma vez. Force sua vista e tente ver o que eu mencionei. Você tem olhado para a vida ultimamente? Não a sua. A vida de todos nós, essa que está nos circundando, enlouquecida numa cantiga ao nosso redor? Se tem, há de lembrar-se o quanto essa circunavegação diária tem nos feito aportar em lugares sombrios, quanto das roupas que as pessoas estão usando na roda estão encardidas, imp...