Pular para o conteúdo principal

NaveG(E)aNTE

A sacola lhe pesa nos ombros. Na mão direita mais dois pacotes vagabundos em papel pardo lhe escorregam continuamente forçando-a de vez em quando a empurrar-lhes contra o corpo para não deixá-los cair. As compras se resumiram a um amontoado indigesto de enlatados, porque já não tem paciência, tampouco fogão e gás para cozinhar. Caminha pela rua e conta automaticamente os quadrados da calçada que faltam para alcançar a porta do prédio onde mora.
A sacola lhe pesa, mas não a tira nem por um momento do ombro, embora o peso e a alça fina cortante da bolsa já lhe deixem marcas vermelhas. Ali estão coisas que lhe são o mais precioso que tem e ela não deixa nem por breve minuto a bolsa escapar-lhe do alcance da mão e dos olhos. Ali estão vinte e cinco anos de trabalho.
Ao chegar em casa, abre os pacotes, arruma as coisas no armário, prepara um suco rápido e engole o sanduíche natural que comprara na lanchonete a caminho de casa. Coloca a sacola sobre o sofá e vai tomar um banho quente que possa lhe aliviar o cansaço do dia, deixando-se ficar sob o chuveiro, água e lágrimas se misturando, descendo pelo corpo ralo abaixo.
As lágrimas lhe parecem naturais, pois há muito estavam represadas no peito, contidas pelas obrigações do dia-a-dia, subjugadas à ordem dita a si mesma para não sucumbir àquela sensação dúbia de alívio e tristeza que já vinha sentindo. Agora não há por que não chorar, limpando alma e corpo.
Enxuga os cabelos vigorosamente, veste um velho roupão apesar do calor, abre as janelas e senta-se no chão da sala, puxando para perto a sacola. Antes de abrir, contempla sua forma e percebe que não há tanto ali guardado. Ri de si mesma, censurando-se por ter pensado que vinte e cinco anos era um tempo longo para guardar. Coloca a mão dentro da sacola e tateia os contornos das coisas que lá estão antes de tirá-las e arrumá-las uma a uma no chão. Pensa por um momento o que fará com cada coisa, mas, sem chegar a conclusão alguma, deixa para decidir depois.
De repente, a mão pára. Uma súbita agonia lhe atravessa o peito, deixando-a com medo. O que está ali dentro não lhe é desconhecido, pois ela mesma colocara, porém algo lhe turva a mente, uma sensação de finitude tomando-a por inteiro. Retira a mão da sacola e recosta-se na parede. A boca ressecada e uma súbita tontura são sinais de uma crescente ansiedade. Fecha os olhos e respira profundamente.
De que adianta abrir aquela sacola, alinhando no chão e depois numa prateleira o que ali está?, pensa agoniada. Aquele amontoado de coisas é apenas a parte material dos anos acumulados, são coisas perecíveis que o tempo dali a pouco vai corroer. São objetos que vão lhe atravancar ainda mais as prateleiras já cheias de livros, fotos, esculturas. Não, pensando bem, é melhor não ficar diante de tanta coisa espalhada impregnada de estórias. Basta a lição guardada dentro de si. Bastam-lhe as alegrias, as agonias, as amizades, o riso, o choro sentidos durante todo o tempo e que jamais lhe deixarão.
Levanta-se, fecha a sacola, envolve-a num saco plástico, fechando-o bem. Pendura a bolsa no prego mais alto na área de serviço, deixando à mostra aquele logotipo do lugar que para sempre estará com ela. E lembra de uma canção de Caetano Veloso, cujos versos a remetem ao poeta Fernando Pessoa:
"O barco, meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração, o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso...".

Comentários

Anônimo disse…
Permita-me: acho que eu tenho uma sacola dessas. O problema é que, por muito pouco, ela ainda não estourou. E quando isso acontecer, só Deus sabe.

Como sempre, belas palavras, minha cara.
Abraço.
A propósito, gostei da foto nova.
Fantasma disse…
A coragem de parar requer muito esforço, muito sacrifício, muito sofrimento. Até um dia! Um dia, descobre-se que não parou. Só está trilhando por outro caminho, com outra sacola, com outro propósito. E o fio da vida vai ficando cada vez mais belo, com a nova caminhada trilhada pela tecelã.

Postagens mais visitadas deste blog

Luta fugaz

As mãos passeam lentas por um campo minado de amor. Fogueiras acendem-se e na horizontal labaredas de paixão ascendem consumidas em carinhos. As vozes sussurram dentro da noite suores escorrem entre corpos. Sou grito estendido e mão contraída. És respiração ofegante, aperto mais forte. Ambos guerrilheiros do amor empenhados em uma luta que a tudo exalta e em um instante morre.

Bugol

  Nos idos dos anos 60, os Estados Unidos implementaram um programa de assistência aos países do terceiro mundo denominado de Aliança para o Progresso. Através dele, a população carente recebia alimentos para suprir as necessidades nutricionais, além de recursos financeiros para o desenvolvimento do estado, como casas populares, escolas. Dessa leva, em Natal se construíram o conjunto habitacional Cidade da Esperança e o Instituto de Educação Pte Kennedy, enquanto o navio Hope, ancorado no Porto na Ribeira, distribuía leite em pó e realizava tratamentos médicos e cirurgias que até então eram inacessíveis aos potiguares. O símbolo do programa era um aperto de mãos entre indivíduos, simbolicamente estadunidenses e latinos americanos. Os americanos não estavam preocupados altruisticamente em salvar populações da fome. Estavam muito mais interessados em fazer com que o comunismo não aportasse e conquistasse terrenos por essas bandas. Era o tempo da guerra fria, o mundo polari...

First love

Matheus é apaixonado por Maria. Arriado os quatro pneus e tudo o mais que se pensa de uma paixão. Maria sabe, mas finge que não percebe, ela não pode fazê-lo acreditar que ele é único, especial. É atenciosa com Matheus, puxa conversa daqui, dali e Matheus vai se revelando. Cada dia inventa assunto para se exibir diante da musa. Pra ele a vida é injusta, é o que costuma dizer. Como pode Maria não querer somente a ele? Ele fica desolado com a situação. A paixão de Matheus é tanta que a raiva lhe sobe à cabeça quando Maria dá atenção a outros – seja quem for. Chora, esperneia, pergunta se Maria o ama. No período em que Maria ficou de férias, ele não se conformava que iria ficar duas semanas sem vê-la. Não era justo! O jeito era se virar com os jogos do seu time, torcendo para que ele não perdesse e fosse rebaixado de divisão. Matheus sabe que Maria tem namorado, mas não o conhece. Até já perguntou se os dois moram juntos e ao receber um não como resposta, disse que não entendia, porque na...

Petra

Quando fui pedra / quarando os choros em beira de rios Avolumei lágrimas e cansaços. Quando fui guerra / incendiando os passos em desalentos Arrebentei amarras e depressões. Quando fui pedra. Quarando ternura sobre as pedras / quando fui guerra Acariciei risos e abraços. Fui pedra. Expurgando dores sob os risos/quando fui pedra Expulsei toda a mágoa e solidão. Fui guerra. Inundei toda tristeza e desamparo Refiz a vida e a receita Apedrejei toda ausência e traição. Pedra. Enganei   a saudade e a maldição Expus meu riso em largas praças Mudei de tênis e de calçada. Guerra. Quando sou nuvem /   passarinhando por entre os fios Levito sobre o dossel encantado Caio, levanto e passo Estendo o braço e ergo as mãos. Sou pedra feita de aço.

Leão ao meio-dia

O leão apareceu no meu caminho ao meio dia em plena avenida, carros e gente passando em linhas retas e transversais. Quando pus o pé na faixa de pedestre, olhei o sinal, levantei o olhar: lá estava a fera, à espreita, prontíssima a me devorar! Sua roupa vermelha alardeava ainda mais suas intenções - não segundas, mas primeira e única: me derrubar ali mesmo. (Se o momento não fosse tão trágico, eu teria rido: aquele leão vestido de vermelho era uma pantomima ridícula de uma tourada servilhana, fazendo da avenida uma arena, certamente esperando ansioso o Olé da multidão!). Atônita pela surpresa, recuei. O pé voltou em câmera lenta para a calçada e meus olhos relâmpagos relancearam ao redor para ver se alguém estava tomando alguma atitude. Nada. Ninguém deu a mínima para o leão, todos passaram a faixa tranquilamente, prestando atenção aos carros, ao semáforo e tomando cuidado para não atrapalhar a travessia do outro. O leão lá. Claro agora que o alvo era eu. Mas, o que diabo aquele leão t...